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Chamas Noturnas
(Smoke Nigth)

NIGHT TALES 04

Nora Roberts







Este Livro faz parte do Projeto_Romances, sem fins lucrativos e de fs para fs. A comercializao deste produto  estritamente proibida.








Prlogo


Fogo. Purificava. Destrua. Com seu calor, podia salvar vidas. Ou perder. Era uma das grandes descobertas do homem, e um de seus principais medos. 
Uma de suas fascinaes. 
As mes advertiam a seus filhos para no brincarem com fsforos, para no tocarem o resplendor vermelho da cozinha. Pois independentemente da beleza da chama, ou 
quo sedutor fosse seu calor, o fogo queimaria a pele. 
Na lareira, era romntico, acolhedor, alegre e danante, projetando uma fumaa aromtica e uma suave luz dourada. Os ancios sonhavam junto a ele. Os amantes se 
cortejavam a seu lado. 
No acampamento, lanava suas chispas a um cu estrelado, tentando aos meninos a assar seus mashimallos enquanto tremiam ouvindo histrias de fantasmas. Existiam 
pedaos escuros e perdidos da cidade onde os sem tetos uniam suas mos geladas sobre fogo aceso em tambores, as faces cansadas  luz entre sombras, as mentes embotadas 
demais para terem sonhos. 
Na cidade de Urbana, havia fogo demais. 
Um cigarro cado descuidadamente ardia num colcho. Um cabo defeituoso que tinha passado a um olhar desatento ou simplesmente deixado l por um inspetor corrupto. 
Um aquecedor de querosene prximo das cortinas. O resplendor do relmpago. Uma vela esquecida.
Tudo isso podia provocar a destruio da propriedade, a perda de vidas. A ignorncia, um acidente, um ato de Deus. 
Mas havia outras formas, muito mais retorcidas. 
Uma vez dentro do edifcio, respirou fundo vrias vezes. Na realidade, era muito simples. E muito estimulante. Nesse momento o poder estava em suas mos. Sabia exatamente 
o que tinha que fazer, e no ato estremeceu. Sozinho. Na escurido. 
No estaria escuro por muito tempo. O pensamento fez que surgisse um sorriso em seus lbios enquanto subia ao segunda andar. No demoraria a ter luz.
Bastariam duas latas de gasolina. Com a primeira salpicou o velho cho de madeira, empapando-o, deixando um rastro enquanto avanava de parede a parede, de cmodo 
a cmodo. De vez em quando se detinha para jogar em algum material, para disseminar o lquido sobre objetos inflamveis, adicionando combustvel que avivaria e estenderia 
as chamas. 
O cheiro do catalisador era doce, um perfume extico que potencializava seus sentidos. No tinha medo nem pressa enquanto subia pela escada curva de metal ao andar 
seguinte. Ia em silncio, certamente, j que no era estpido. Mas sabia que o vigilante noturno se encontrava concentrado sobre suas revistas em outra parte do 
edifcio. 
Enquanto trabalhava, ergueu a vista para os aspersores situados como aranhas no teto. J os tinha visto. No teria nenhum pingo dagua procedente das tubulaes 
enquanto as chamas se elevavam, nenhuma advertncia dos alarmes de fumaa.
Esse fogo arderia, arderia e arderia at que o cristal da janela estourasse pelos punhos furiosos do calor. A pintura descascaria. O metal se derreteria, as vigas 
cairiam, calcinadas. 
Desejou... durante um momento desejou poder ficar no centro de tudo e presenciar o acordar do fogo dormido. Queria estar ali, admir-lo e absorv-lo  medida que 
se agitava e espreguiava, para depois estender seu corpo quente e brilhante. Queria ouvir seu rugido triunfal enquanto com fome devorava tudo ao seu redor. 
Mas quando isso acontecesse estaria muito longe. Longe demais para ver, ouvir, cheirar. Teria que imaginar. Com um suspiro, acendeu o primeiro fsforo, elevou a 
chama  altura dos olhos e admirou a chispa pequena, hipnotizado por ela. Ao jogar o fogo diminuto a um charco escuro de gasolina, sorria, to orgulhoso como um 
pai. Observou um momento, s um momento, enquanto o animal ganhava vida, serpenteando pelo caminho que lhe tinha traado. 
Saiu em silncio, apressado, e entrou na noite fria. Pouco depois seus ps tinham cobrado o ritmo de seu corao acelerado.







Capitulo 1


Irritada, exausta, Natalie entrou em sua cobertura. O jantar com seus executivos de marketing tinha durado at depois da meia-noite.  Poderia ter vindo para casa 
ento , recordou-se enquanto descalava os sapatos. Mas no. O trabalho ficava no caminho do restaurante. No tinha sido capaz de resistir a tentao de deter-se 
para dar uma ltima olhada nos novos desenhos, para realizar uma ltima anlise do cartaz que anunciava a grande inaugurao. 
Sua inteno tinha sido tomar umas poucas notas, redigir o rascunho de um ou dois memorandos. 
 Ento, o que fao entrando no quarto as duas da manh? , perguntou-se. A resposta era fcil. Era uma mulher compulsiva e obsessiva.  Uma idiota . Sobretudo 
porque tinha um caf da manh de trabalho as oito da manh com vrios de seus chefes de vendas da Costa Leste.
 No h problema , assegurou-se.  Nenhum problema . Quem precisava dormir? Certamente, no Natalie Fletcher, a dnamo de trinta e dois anos que nesse momento 
levava a Indstrias Fletcher para uma nova fonte de benefcios. 
E os teria. Tinha centrado toda sua percia, experincia e criatividade em levantar Lady's Choice desde os alicerces. Antes do benefcio, surgiria a excitao da 
concepo, do nascimento, do crescimento, os primeiros prazeres de uma empresa nova que procurava seu prprio caminho. 
 Minha empresa , pensou com cansada satisfao. Seu beb. Cuidaria dela, lhe ensinaria e a alimentaria... e sim, quando fosse necessrio, se deitaria as duas da 
manh. 
Uma olhada ao espelho da cmoda indicou que inclusive uma dnamo precisava descansar. As faces tinham perdido tanto seu tom natural como seu blush e o rosto parecia 
demasiado frgil e plido. O singelo lao, que levantava seu cabelo e que ao princpio da noite tinha dado a impresso de sofisticao e elegncia, nesse momento 
s parecia realar as sombras que circundavam seus escuros olhos verdes. 
Como era uma mulher que se orgulhava de sua energia e resistncia, afastou-se do reflexo e moveu os ombros para eliminar a rigidez.  Em qualquer caso, os tubares 
no dormem , recordou-se. Nem sequer os tubares dos negcios. Mas esse tubaro experimentava a poderosa tentao de cair sobre a cama completamente vestida. 
Decidiu que no podia acontecer e tirou o casaco. A organizao e o controle eram to importantes nos negcios como uma boa cabea para os nmeros. O costume arraigado 
a impulsionou a dirigiu-se ao armrio. Estava pendurando o casaco de veludo num cabide acolchoado quando soou o telefone. 
 Deixe a secretria-eletrnica atender , ordenou-se, mas ao segundo toque levantou o fone. 
-Oi? 
-Senhorita Fletcher? 
-Sim? -o fone se chocou contra as esmeraldas que levava ao ouvido. Ergueu a mo para tirar os brincos quando o pnico que captou na voz a deteve. 
- Sou Jim Banks, Senhorita Fletcher. O vigilante noturno do armazm do lado sul. Temos problemas aqui. 
-Problemas? Entrou algum? 
- um incndio. Santo Deus, Senhorita Fletcher, todo o lugar est em chamas. 
-Incndio? -aproximou a outra mo ao fone, como se pudesse lhe escapar-. No armazm? Tinha algum dentro? 
-No, Senhorita, s estava eu - a voz tremeu e se quebrou - Eu estava l abaixo, no quarto do caf, quando ouvi uma exploso. Deve ter sido uma bomba ou algo assim, 
no sei. Chamei os bombeiros. 
-Est ferido? -nesse momento pde ouvir outros sons, sirenes, gritos. 
-No, consegui sair. Me de Deus, Senhorita Fletcher,  terrvel,  terrvel. 
-Estou indo para a. 
Natalie demorou quinze minutos para realizar o trajeto da sua elegante regio at o obscuro distrito sul, com seus armazns e fbricas. Mas viu e ouviu o fogo antes 
de parar atrs de todos os veculos. 
Homens com as caras manchadas de leo manejavam mangueiras e empunhavam machados. A fumaa e as chamas saam das janelas destroadas e pelos buracos do teto destrudo. 
O calor era enorme. Inclusive a essa distncia esbofeteava seu  rosto enquanto o glido vento de fevereiro batia em as suas costas. 
Soube que tudo que tinha no interior do armazm estava perdido. 
-Senhorita Fletcher? 
Lutando contra o horror e a fascinao, voltou-se e contemplou um homem rechonchudo de mdia idade com uma uniforme cinza. -Sou Jim Banks. 
-Oh, sim -automaticamente estendeu o mo para estreitar a dele - Estava gelada e to trmula quanto a voz. 
-Est se sentindo bem? Se feriu?
-Estou bem, Senhorita.  horrvel. 
 Durante um momento de silncio observaram o fogo e queles que o combatiam. 
-E os alarmes? 
-No ouvi nada. No at a exploso. Comecei a subir e vi o incndio. Estava por todas as  partes - passou uma mo pela boca. Nunca em sua vida tinha visto algo parecido, 
no queria voltar a v-lo-. Por todas as partes. Sa e chamei o departamento de bombeiros do meu carro. 
- Fez o que era certo. Sabe quem est ao comando aqui? 
-No, Senhorita Fletcher. Esses homens trabalham depressa e no dedicam muito tempo a conversa. 
-Muito bem. Por que no vai para a casa agora, Jim? Eu cuidarei de tudo. Se precisarem falar com voc, darei o nmero de seu telefone para que possam contact-lo 
-No se pode fazer grande coisa -baixou a vista para o cho e moveu a cabea-. Sinto muito, Senhorita Fletcher. 
-E tambm. Agradeo por ter me chamado. 
-Pensei que era o que tinha que ser feito -olhou uma ltima vez para o edifcio, pareceu estremecer e se dirigiu ao seu veculo. 
Natalie permaneceu onde estava, e esperou.



Tinha se formando uma multido quando Ry chegou ao local do acontecimento. Sabia que um incndio atraa uma multido, como uma boa briga ou um show de malabarismo. 
As pessoas inclusive formavam grupos... e muitas delas estavam torcendo pelo fogo. 
Desceu do carro, um homem magro, de ombros largos, com cansados olhos da cor da fumaa que impelia atravs do cu invernal. Seu rosto fino mostrava uma expresso 
impassvel. As luzes que cintilavam ao seu redor ocultavam e depois ressaltavam suas feies e a covinha no queixo que as mulheres tanto adoravam e que para ele 
era  apenas um incoveniente. 
Depositou as botas no solo encharcado e as calou com uma graa e uma economia de movimentos adquiridos pelos anos de prtica. Ainda que as chamas lambessem o edifcio 
e cintilassem, seus olhos experientes indicaram que os homens tinham contido e quase extinguido o fogo. 
Em pouco tempo chegaria seu momento. 
Com um gesto automtico vestiu a jaqueta negra protetora, que cobriu a camisa de flanela e as calas at embaixo dos quadris. Passou uma mo pelo rebelde cabelo 
de cor castanho escuro, que  luz do sol mostraria reflexos dourados. Encaixou o capacete velho e manchado de fumaa na cabea, acendeu um cigarro e depois vestiu 
as luvas. E enquanto realizava esses atos habituais, estudou a cena. Um homem em sua posio precisava manter uma mente aberta ante o fogo. Daria uma olhada geral, 
analisaria o tempo, comprovaria a direo na qual soprava o vento, falaria com os bombeiros. Teria que levar a cabo todo tipo de provas rotineiras e cientficas. 
Mas primeiro confiaria em seus olhos e em seu olfato. O mais provvel era que o armazm estivesse perdido, mas seu salvamento no dependia dele. Sua tarefa consistia 
em encontrar os motivos e os mtodos. 
Exalou fumaa e estudou  multido. 
Sabia que o vigilante noturno tinha dado o alarme. Teria que falar com ele. Observou os rostos um a um. A excitao era normal. Viu-a nos olhos do jovem que, deslumbrado, 
olhava a destruio. E tambm a comoo na mulher boquiaberta que estava ao seu lado. Horror, admirao, e alvio porque o fogo no os tinha tocado e nem aos seus.
Depois seus olhos pousaram na loira. 
Se encontrava separada dos demais, com o olhar fixo  frente enquanto o ligeiro vento desfazia seu cabelo que trazia preso. Notou que usava sapatos caros, to fora 
de lugar nessa parte da cidade como seu casaco de veludo e seu rosto refinado. 
 Um rosto extraordinrio , pensou, levando o cigarro aos lbios. Um oval plido como sado de um camafeo. Os olhos... No pde discernir sua cor, mas eram escuros. 
Observou que neles no se via nenhuma excitao, nenhum horror nem comoo. Um leve toque de ira, talvez. Ou se tratava de uma mulher de poucas emoes ou de uma 
que sabia control-las. 
 Uma rosa de iverno , decidiu.  E o que faz to longe de seu meio s quatro da manh? . 
-Ei, inspetor -sujo e molhado, o tenente Holden se aproximou para pedir um cigarro. 
-Parece que pudestes com outro -comentou, tirando o pacote. 
-Este no foi moleza -com as mos unidas para proteger a chama do vento, acendeu-o - Descontrolado quando chegamos. O vigilante noturno nos chamou a menos de vinte 
minutos. O segundo e terceiro andar foram os que mais sofreram. O mais provvel  que encontremos o ponto de origem no segundo. 
-Sim? -sabia que Holden no aventurava uma conjectura. 
Encontramos umas mechas nos degraus do lado leste. Provavelmente iniciou o fogo com elas, mas no foi todo o material que incendiou. Lingerie feminina. 
-Mmm? 
-Lingerie feminina -repetiu com um sorriso-. Era o que armazenavam aqui. Um monto de calcinhas e sutiens. H muita roupa de baixo e combustvel que no pegou-  
deu uma palmada no ombro-. Voc vai se divertir. Ei, novato! - gritou para um dos novos-. Vai sustentar essa mangueira ou  brincar com ela? Tenho que os vigiar o 
tempo todo, Ry. 
-Como se eu no  soubesse... 
Pelo canto do olho viu a sua flor de inverno avanar para um bombeiro. Holden e ele se separaram. 
-H algo que possa me dizer? - perguntou Natalie a um bombeiro esgotado-. Como comeou? 
-Senhora, eu s os apago - sentou nos degraus de um dos carros de bombeiro, seu interesse na runa fumegante que se transformara o armazm, j perdido - Quer respostas? 
-indicou com o dedo na direo de Ry - Pea ao inspetor. 
-Os civis no podem ficar no palco de um incndio -exps Ry a suas costas. Quando ela voltou-se para olh-lo, comprovou que seus olhos eram de um profundo verde 
jade. 
- meu palco - ela manifestou com frieza, como o vento que agitava seu cabelo - Meu armazm -continuou-. Meu problema. 
-Sim? -Ry voltou a estud-la. Tinha frio. Por experincia sabia que no tinha um lugar mais glido do que o palco de um incndio no inverno. Mas exibia as costas 
eretas e o delicado queixo erguido-. E quem  voc? 
-Natalie Fletcher. Sou proprietria do edifcio e de tudo o que h no interior. E gostaria de obter algumas respostas - arqueou uma sobrancelha bem delineada-. E 
quem  voc? 
-Piasecki. Investigador de incndios provocados. 
-Provocados? -mostrou espanto antes de recuperar o controle-. Acredita que foi provocado? 
-Meu trabalho  averigu-lo -baixou o olhar e esteve  a ponto de fazer uma careta-. Vai estragar esses sapatos, Senhorita Fletcher. 
- Os sapatos so a ltima de minhas... -calou quando ele a tomou pelo brao e comeou a afast-la dali-. O que pensa que est fazendo? 
-Est no caminho. Esse  seu carro? -com a cabea indicou um pequeno e gracioso conversvel. 
-Sim, mas... 
-Entre. 
-No  estou pensando em faz-lo - tentou se desprender de sua mo e descobriu que precisaria de uma barra de metal-. Quer me soltar? 
Cheirava muito melhor que a fumaa e os entulhos encharcados. Ry expirou  seu aroma e depois testou sua diplomacia. Algo que, com orgulho, reconhecia que jamais 
tinha sido seu forte. 
-Olhe, est com frio. Que sentido tem ficar exposta ao vento? 
- O sentido  que se trata de meu edifcio -ficou rgida, pelo contato e pelo frio-. Ou o que restar dele.
-Bem - como no atrapalharia em nada sua investigao, faria como ela queria. Mas a situou entre o carro e seu corpo, para proteg-la do pior do frio-.  um pouco 
tarde para fazer um inventrio, no lhe parece? 
- - Enfiou  as mos nos bolsos numa v tentativa de esquent-las-. Vim logo que o vigilante noturno me chamou. 
-E a que hora foi isso? 
-No o sei. Ao redor das duas. 
-Ao redor das duas -repetiu e voltou a percorr-la com o olhar. Notou que sob o casaco de veludo tinha um elegante traje de noite. O tecido parecia suave, caro, 
e era da mesma cor que seus olhos.  
- Uma roupa atraente para um incndio. 
-Tive um jantar de negcios e no me troquei antes de vir - idiota , pensou, e voltou a observar com gesto sombrio o que restava de sua propriedade-. Onde quer 
chegar? 
-O jantar durou at as duas? 
-No, terminou por volta da meia-noite.
-E como  que ainda continua vestida para a ocasio? 
-O que? 
 -Como  que ainda est vestida para a ocasio? -tirou outro cigarro e o acendeu-. Algum encontro tardio? 
-No, fui no local onde trabalho completar uma burocracia. Mal tinha chegado em casa quando Jim Banks, o vigilante da noite, telefonou para mim. 
-Ento esteve sozinha da  meia-noite at as duas? 
-Sim, eu... -o olhou com os olhos semi cerrados-. Acredita que sou responsvel por isso?  isso o que est insinuando...? Como demnios era seu nome? 
-Piasecki -respondeu com um sorriso-. Ryan Piasecki. E ainda no acredito em nada, Senhorita Fletcher. S separo os detalhes -os olhos dela j no eram inexepressivos 
, controlados, ao contrrio,  tinham atingido o ponto de ignio. 
-Ento lhe proporcionarei mais alguns. O edifcio e seu contedo esto plenamente assegurados. A aplice  com United Security. 
-Em que classe de negcio participa?
-Indstrias Fletcher, inspetor Piasecki. Talvez tenha ouvido falar delas. 
Sim ouvira. Imobilirias, minerao, transporte. A corporao tinha muitas propriedades, incluindo vrios edifcios em Urbana. Mas tinha motivos para que as grandes 
empresas, bem como as pequenas, recorressem aos incndios provocados. 
-Voc dirige as Indstrias Fletcher? 
-Supervisiono vrios de seus interesses. Incluindo este - em especial este , pensou. Era seu projeto-. Na primavera vamos abrir variadas boutiques especializadas 
por todo o pas, alm de um servio de venda por catlogo. Uma grande parte de meu inventrio se achava nesse armazm. 
-Que tipo de inventrio? 
-Lingerie, inspetor. Sutis, calcinhas, camisolas. Seda, cetim, copertes. Pode ser que esteja familiarizado com o conceito. 
-O suficiente para apreci-lo -viu que ela tremia e que lutava para evitar que seu dentes batessem. Imaginou,  que naquela altura, seus ps j seriam blocos de gelo 
dentro daqueles sapatos finos e elegantes-. Olhe, est congelando. Entre nesse  carro. Volte para casa. Estaremos em contato. 
-Quero saber o que aconteceu com meu edifcio. O que restou de meus produtos. 
-Seu edifcio se queimou,Senhorita Fletcher. E  improvvel que reste algo de seu inventrio que possa subir a presso arterial de um homem - abriu a porta do carro-. 
Tenho um trabalho que fazer. E lhe aconselho que chame seu agente de seguros. 
-Voc  bom em acalmar as vtimas, no  verdade, Piasecki? 
-No, no posso dizer que seja assim -tirou um bloco de notas e um lpis pequeno do bolso da  camisa.  -D-me seu endereo e o nmero do telefone. De sua casa e 
de seu trabalho. 
Natalie respirou fundo antes de proporcionar-lhe a informao que queria. 
-Sabe? -adicionou-. Sempre tive admirao pelos servidores pblicos. Meu irmo  policial em Denver. 
-Verdade? 
-Sim - entrou no carro-. Com uma breve conversa voc conseguiu mudar minha opnio -fechou a porta com fora, lamentando no o fazer com  suficiente rapidez  para 
esmargar-lhe os dedos. Com uma ltima olhada ao edifcio em runas, partiu. 
Ry  observou o desaparecer das luzes traseiras de seu veculo e adicionou outra nota a seu livro. Pernas estupendas. No acreditava que pudesse chegar a esquec-la. 
Mas um bom inspetor tinha que se atentar a tudo.


Natalie obrigou-se a dormir duas horas, depois levantou e tomou um banho frio. Enfundada no roupo, chamou sua secretria e fez que cancelasse ou mudasse os dias 
das reunies da manh. Com a primeira xcara de caf, chamou seus pais no Colorado. Estava na segunda xcara quando terminou de dar-lhes os detalhes que conhecia, 
mitigando sua preocupao e escutando seus conselhos. 
Com a nmero trs, entrou em contato com seu agente de seguros e ficou de se encontrar com ele no lugar do acontecido. Depois de engolir uma aspirina com o que restava 
da xcara de caf , vestiu-se para o que prometia ser um dia muito longo. 
J atravessava a porta quando soou o telefone.
Voc tem uma secretria - recordou a si mesma ao dar meia volta para ir responder
- Oi? 
-Nat sou eu, Deborah. Acabo de ficar sabendo. 
-Oh - esfregou a nuca e sentou no brao da poltrona. -Ouvir  Deborah O'Roarke Guthrie proporcionava duplo prazer para ela, era sua amiga e familiar-. Suponho que 
j tenha aparecido nos noticirios. 
-Sinto muito Natalie, de verdade. Foi muito rum? 
-No estou certa. Ontem  noite dava a impresso de que no podia ser pior. Mas agora vou l com meu agente de seguros. Quem sabe?, Talvez possamos salvar algo. 
-Quer que eu a acompanhe? Posso reorganizar minha manh. 
Natalie sorriu. Deborah era assim. Como se no fosse suficiente seu marido, seu beb e seu trabalho como auxiliar do promotor do distrito. 
-No, mas obrigada por se oferecer. Porei voc a par de tudo quando souber algo. 
-Venha jantar aqui esta noite. Poder relaxar e desfrutar de um pouco de simpatia. 
-Ficaria encantada. 
-Se h algo mais que eu possa fazer, diga-me. 
-Na realidade, poderia ligar para Denver. Evite que sua irm e meu irmo venham ao resgate. 
-O farei.
- Ah, uma coisa mais - levantou e repassou o contedo de sua valise enquanto falava-. O que sabe de um tal inspetor Piasecki? Ryan Piasecki? 
-Piasecki? -houve uma pausa enquanto Deborah repassava seus ficheiros mentais-. Est no grupo de investigao de incndios.  o melhor da cidade. Suspeita que foi 
provocado?
- No sei. S sei que estava presente. Que foi grosseiro e que no quis me dizer nada. 
-Se requer tempo para determinar a causa de um incndio, Natalie. Se quiser, posso pr um pouco de presso. 
Esteve tentada em colocar um aperto em Piasecki. 
-No, obrigada. Ao menos no ainda. Nos veremos depois. 
-s sete -insistiu Deborah. 
-Ali estarei. Obrigado -desligou e recolheu o casaco. Com sorte, chegaria trinta minutos antes que o agente ao lugar do acontecido. 
A sorte a acompanhou... ao menos nisso. Quando se deteve por trs da cerca que o departamento de bombeiros tinha colocado, descobriu que ia precisar de  muita mais 
sorte para ganhar aquela batalha.



Parecia incrivelmente pior do que a noite anterior. 
Era um edifcio pequeno de trs andares. As paredes externas tinham resistido, e nesse momento estavam enegrecidas, cheias de fuligem e ainda gotejavam gua. O solo 
se achava coberto de madeira calcinada e empapada, vidros quebrados e metal retorcido. O ar ressendia a fumaa. 
Consternada, passou por baixo da fita amarela de isolamento para dar uma olhada mais de perto. 
-Que demnios pensa que est fazendo? 
Sobressaltou-se, depois protegeu os olhos do sol para ver com mais clareza.  Devia imaginar , pensou ao ver Ry avanar em sua direo entre os entulhos. 
-No viu o cartaz? -inquiriu ele. 
-Claro que  vi. Esta  a minha propriedade, inspetor. O agente de seguro estar aqui comigo. Acredito que estou em meu direito de vistoriar os danos. 
-No tem outro tipo de sapatos? -a olhou aborrecido. 
-Como?
- Fique aqui -resmungou, foi para seu carro regressando com um par de botas imensas de bombeiro-. Coloque-as.
-Mas... 
-Coloque esses ridculos sapatos dentro das botas - apertou seu brao com firmeza-. Caso contrrio, poder se marchucar. 
-Bem -obedeceu, sentindo-se tola. 
A parte superior das botas chegava quase ao seu joelho. O traje azul marinho e o casaco de l que fazia conjunto eram de marca, e as trs correntes de ouro ao redor 
do pescoo adicionavam brilho a sua imagem.
- Bonito aspecto -comentou ele-. E agora deixemos clara uma coisa. Preciso preservar o lugar do acontecimento, e isso significa que no pode tocar em nada - soltou-a, 
ainda que sua autoridade para mant-la distante fosse questionvel, a verdade era que j tinha encontrado a maior parte do que procurava. 
-No tenho inteno de... 
- o que todos dizem.
-Me explique uma coisa, inspetor -irritou-se - Trabalha sozinho porque  prefere ou porque ningum suporta ficar em sua presena mais do que cinco minutos? 
-As duas coisas -ento sorriu. A mudana de expresso foi assombrosa, encantadora... e suspeita-. O que faz vistoriando o local de um incndio com um traje de quinhentos 
dlares?
Eu... - receosa pelo sorriso, fechou o casaco-. Tive reunies a tarde toda. No tive tempo para me trocar. 
-Executivos... -ao voltar-se manteve a mo no brao dela-. Cuidado onde pisa... o lugar ainda no  seguro, mas pode dar uma olhada no que restou. Ainda tenho algum 
trabalho por completar. 
Conduziu-a pela entrada. O teto era um buraco vazio entre os andares. O que tinha cado ou tinha sido derrubado jazia entre colunas sujas de cinza molhada e madeira 
quebrada. Natalie sentiu um arrepio ao ver a massa retorcida de manequins quebrados. 
-No sofreram -lhe assegurou Ry ganhando uma olhada irritada.
-Estou segura de que para voc se trata de algo divertido, mas... 
-O fogo jamais  engraado. Cuidado... 
Viu o lugar onde ele tinha estado trabalhando, prximo da base de uma parede interna destruda. Tinha uma pequena cerca de arame numa estrutura de madeira, uma p 
que parecia um brinquedo infantil, alguns potes de vidro, uma barra metlica e uma trena. Enquanto observava, Ry arrancou uma seo marcada do rodap. 
-O que est fazendo? 
-Meu trabalho. 
-Estamos do mesmo lado? -perguntou ela com os dentes apertados. 
- possvel -levantou o olhar. Com uma navalha, comeou a raspar um resduo do cho. Cheirou-o, grunhio e, quando ficou satisfeito, introduziu-o num frasco- Sabe 
o que   oxidao, Senhorita Fletcher? 
- Mais ou menos -franziu o cenho. 
-A unio qumica de uma substncia com o oxignio. Pode ser algo lento, como a pintura ao secar-se, ou rpido. Calor e luz. Um incndio  rpido. E algumas coisas 
ajudam para que se mova com mais velocidade -continuava raspando, voltou a erguer a navalha e fit-la e estendeu-a. -Cheire -duvidosa ela se adiantou e cheirou-. 
O que percebe? 
-Fumaa, umidade... no sei. 
-Gasolina -comentou, guardando o resduo num pote-. Olhe, um lquido procura seu nvel, se introduz entre gretas no cho, em cantos ocultos, flui por baixo dos rodaps. 
Se encontrar obstculos para que se oxigene, ele no arde. Percebe esta regio aqui?

Natalie umedeceu os lbios, estudou o local onde ele tinha despregado a cobertura do cho. Tinha uma mancha negra, como uma sombra gravada na madeira. 
-Sim? 
-O padro da mancha queimada.  como um mapa. Se continuo remexendo camada aps camada, poderei saber o  que aconteceu, antes e durante o fogo. 
- Est me dizendo que algum verteu gasolina e acendeu um fsforo? 
Ry no respondeu e se adiantou para recolher um pedao de tecido queimado. 
-Seda -esfregou com as pontas dos dedos-.  uma pena -depositou o tecido no que parecia ser uma lata de farinha-. As vezes alimentam mais o fogo. Nem sempre queimam 
-recolheu uma pea quase ilesa de um suti de encaixe frontal. 
Divertido, olhou a Natalie e acrescentou: 
- engraado o que resiste, no ? 
Ela voltou a sentir frio, mas no pelo vento. Surgia do interior e era fria. 
-Se foi algo deliberado, quero saber. 
Interessado na mudana nos olhos de Natalie, ficou de joelhos. Tinha a jaqueta de bombeiro aberta, revelando um jeans, gastos nos joelhos, e uma camisa de flanela. 
No tinha abandonado o palco do incndio desde sua chegada. 
-Receber meu relatrio -ficou de p-  Descreva-me como era este lugar vinte e quatro horas atrs. 
Ela fechou os olhos um momento, mas isso no a ajudou. Ainda podia cheirar a destruio. 
-Tinha trs andares, uns seiscentos metros quadrados. Balces de ferro e escadas interiores. As costureiras trabalhavam no terceiro andar. Toda nossa mercadoria 
se faz a mo. 
-Um toque de classe. 
-Sim, essa  a idia. Temos outra fbrica neste distrito, onde se realiza quase toda a costura. As doze mquinas de cima eram para dar os ltimos retoques.  esquerda 
tinha uma pequena sala para o refeitrio, os servios... No segundo andar, o cho era de linleo em vez de madeira. Ali guardvamos os produtos. Tambm tinha um 
pequeno escritrio, ainda que quase todo meu trabalho fosse feito na cidade. Esta zona era para vistoriar, embalar e fretar, amos comear a distribuir nossos pedidos 
de primavera em trs semanas. 
Voltou-se, sem saber muito bem onde ia, e tropeou em alguns entulhos. A rapidez de Ry evitou uma queda desagradvel. 
-Pacincia -murmurou. 
Aturdida, apoiou-se nele por alguns instantes. Percebeu fora, e no simpatia. Nessas circunstncias, preferia-o desse modo. 
-S nesta fbrica empregvamos setenta pessoas. Gente que ficou sem trabalho at que eu possa averiguar o que passou -girou o corpo e Ry a segurou pelos braos para 
que mantivesse o equilbrio-. Foi algo deliberado. 
Ele pensou que nesse momento ela tinha perdido o controle. Era to voltil como um fsforo aceso. 
-No terminei a investigao. 
-Foi deliberado -repetiu-. E voc suspeita que eu possa ter sido a provocadora. Que estive aqui no meio da noite com uma lata de gasolina. 
Seus rostos estavam prximos.   engraado , pensou Ry,  at agora no notei sua altura com esses sapatos capazes de romper-lhe os tornozelos . 
-No posso imagin-la fazendo algo assim. 
-Ento contratei algum? - provocou Natalie-. Contratei  algum para incendiar o edifcio, ainda que em seu interior tivesse um homem? Mas, que  um vigilante de 
segurana comparado com um bonito cheque de seguro? 
-Diga-me voc -contra-atacou, depois de um momento de silncio. 
Furiosa, afastou-se dele. 
-No, inspetor, ser voc quem vai ter que me dizer. E, goste ou no, vou estar colada em voc como uma sombra durante cada passo da investigao. Cada passo -reafirmou 
-At que consiga minhas repostas. 
Saiu do edifcio, com andar digno apesar das botas. Mal tinha seu temperamento sob controle quando viu que um carro se detinha junto ao seu. Ao reconhec-lo, suspirou 
e se dirigiu at a fita de proteo voltando a cruz-la. 
-Donald -estendeu os braos-. Oh, Donald, que desastre... 
Tomando-lhe as mos, o outro contemplou o edifcio. Durante um instante ficou quieto, movendo a cabea. 
-Como pde acontecer? A instalao eltrica? Ns a analisamos h dois meses. 
-Eu sei, sinto muito. Todo seu trabalho -pensou que eram dois anos da vida de Donald, e talvez da sua. Desvanecidos como fumaa. 
-Tudo? -sua voz soou trmula e seu corpo tambm tremeu-. Tudo se perdeu?
-Temo que sim. Temos mais material, Donald. Isto no vai frear-nos. 
- mais forte do que eu, Nat -depois de um ltimo aperto, soltou-a-. Era minha maior aposta. Voc  a presidente, mas eu sentia como se fosse o capito. E meu barco 
acaba de afundar.
Natalie compreendia o que sentia. Para Donald Hawthorne no estavam falando s de negcios, bem como para ela. Aquela nova empresa era como um sonho, um sopro de 
ar fresco, uma oportunidade para os dois de provar algo completamente diferente. 
 No s provar , recordou-se.  Triunfar . 
-Vamos ter que que nos matar de trabalhar durante as prximas trs semanas. 
Ele se voltou com um leve sorriso nos lbios. 
-Voc, realmente acredita que depois disto vamos poder respeitar nossos compromissos?
-Sim -a determinao endureceu seus lbios-.  um atraso, isso  tudo. Mudaremos algumas coisas. Certamente, vamos ter que postergar a auditoria. 
-Agora nem sequer posso pensar nisso -calou e piscou-. Santo cu, Nat, as pastas, os registos. 
-No acredito que vamos poder recuperar alguns dos documentos que estava no armazm -observou o edifcio-. Complicar as coisas, adicionar horas de trabalho, mas 
conseguiremos. 
-Como poderemos levar a cabo a auditoria quando...? 
- Vamos adi-la at estarmos em pleno funcionamento. Falaremos disso no escritrio. Enquanto eu falo com o agente do seguro, siga seu curso,  depois irei para meu 
trabalho -sua mente j repassava os detalhes, os passos e as fases-. Estabeleceremos turnos duplos, nos encarregaremos do material novo, traremos algumas coisas 
de Chicago e Atlanta. Faremos que funcione, Donald. Lady's Choice vai inaugurar em maro, faa chuva ou faa sol. 
-Se algum  capaz de conseguir isso,  voc. -o sorriso se tornou amplo. 
-Ns -observou Natalie-. Agora preciso que volte ao escritrio e que comece a dar os telefonemas - sabia que o ponto forte de Donald era as relaes pblicas. Talvez 
fosse um pouco impulsivo, mas nesse momento precisava a seu lado de pessoas orientadas para a ao.
-Coloque Melvin e Deirdre para trabalhar. Suborne ou ameae aos distribuidores, suplique aos sindicatos, tranqilize aos clientes.  o que melhor sabe fazer. 
-Agora mesmo. Conte  comigo 
-Sei que posso faz-lo. Irei cedo ao escritrio para pegar o chicote. 




 Noivo? , perguntou-se Ry ao ver como se abraavam. O executivo alto e elegante com a cara bonita e os sapatos reluzentes, parecia ser seu tipo. Na dvida, anotou 
a placa do Lincoln estacionado ao lado do carro de Natalie e regressou ao trabalho. 


Capitulo 2


-Vai chegar em qualquer momento -a ajudante do promotor do distrito, Deborah O'Roarke Guthrie, colocou as mos em punho nos quadris-. Gage, quero toda a histria 
antes de que Natalie chegue. 
Gage adicionou outra haste de lenha ao fogo antes de se virar para sua mulher. Ao regressar do trabalho, esta tinha vestido uma confortvel cala de l e uma malha 
de cashemir de um tom azul escuro. Usava o cabelo cor de bano solto, quase at os ombros. 
- to linda, Deborah. No lhe digo com bastante freqncia. 
Ela arqueou uma sobrancelha. Era um sedutor, encantador e inteligente. Mas ela tambm era. 
-Nada de evasivas, Gage. At agora conseguiu evitar contar tudo  que sabe, mas...
-Esteve o dia todo no tribunal -cortou-lhe- Ou em reunies. 
-Isso no  desculpa. Agora estou aqui. 
-Certamente - aproximou-se, passou as mos por entre seus braos e lhe rodeou a cintura. Sorria quando seus lbios roaram nos dela-. Oi. 
Mais de dois anos de casados no tinham diludo a reao que o marido provocava nela. Entreabriu os lbios, mas se conteve a tempo e retrocedeu. 
-No, no conseguir. Considere-se sob juramento na cadeira das testemunhas, Guthrie. Me solte. Sei que esteve l. 
-Estive l -a irritao danou em seus olhos antes de voltar para servir um copo de gua mineral para Deborah. Sim, estive l, pensou.  Tarde demais .
Tinha sua prpria maneira de combater o lado escuro de Urbana. O dom, ou a maldio, que tinha recebido depois de sobreviver ao que deveria ter sido um disparo fatal, 
proporcionava-lhe uma vantagem. Tinha sido um policial por muito tempo para poder fechar os olhos  injustia. Nesse momento, com a carta caprichosa que lhe tinha 
dado o destino, lutava contra o crime a sua maneira, com seu talento especial. 
Deborah o observou baixar o olhar para a sua mo e flexion-la. Era um velho costume, que indicava  que ele meditava sobre sua condio. 
E quando isso sucedia, transformava-se em Nmesis, uma sombra que percorria as ruas de Urbana, uma sombra que tinha entrado em sua vida e em seu corao, to real 
e querida como o homem que tinha diante ela. 
-Estive l -repetiu, servindo-se de um copo de vinho-. Mas cheguei tarde demais para fazer algo. Nem cinco minutos antes que os bombeiros. 
-No pode ser semore o primeiro, Gage -murmurou Deborah-. Nem sequer Nmesis  onipontente. 
-No -lhe passou o copo-. A questo  que no vi quem iniciou o fogo. Nem sei se foi provocado. 
-Mas acredita que sim. 
-Tenho uma mente desconfiada -sorriu outra vez. 
-E eu -brindou com a taa-. Quem me dera tivesse algo que pudesse fazer por Natalie. Ps muito empenho em seguir adiante com a nova empresa.
-J est fazendo algo -afirmou Gage-. Est aqui. E ela lutar. 
-Pode contar com isso -balanou  a cabea-. Suponho que ontem  noite ningum o viu perto do armazm, no? 
-Voc supe? 
-Imagino que nunca conseguirei acostumar-me -suspirou. Quando soou a campainha, deixou o copo- Eu vou -correu  porta e recebeu  Natalie com os braos abertos-. 
Fico feliz que tenha podido vir. 
-No perderia um prato do Frank por nada do mundo -decidida a mostrar alegria, deu  um beijo, depois voltaram ao salo abraadas. Ofereceu a seu anfitrio um sorriso 
brilhante-. Oi, bonito -tambm deu um beijo em Gage, aceitou o copo que ele entregou e se sentou junto ao fogo. Suspirou. Era uma bela casa e um belo casal, que 
compartilhava um amor profundo. 
-Como est? - perguntou Deborah. 
-Bem, encanta-me um desafio, e este  grande. A questo  que Lady's Choice inaugurar dentro de trs semanas. 
-Tive a impresso de que tinha perdido muita mercadoria -comentou Gage. Oculto pela sombra de seu dom, a noite anterior a tinha visto chegar ao local do incndio-. 
Como tambm o armazm. 
-H outros edifcios -de fato, j tinha  decidido comprar outro armazm. Mesmo depois que recebesse o seguro, os benefcios calculados para aquele ano se reduziriam. 
Mas j estava se encarregando de compens-los-. Vamos trabalhar horas extra para minimizar as perdas. E posso trazer mais material de outros lugares, entre eles 
de nossa loja principal de Urbana. Pretendo que seja um sucesso -bebeu o vinho e repassou mentalmente os detalhes-. Tenho Donald colado ao telefone. Com sua habilidade 
como relaes pblicas,  o melhor qualificado para suplicar e pedir tempo. Melvin j empreendeu o vo a quatro cidades para saquear nossas outras fbricas e lojas. 
 o melhor para calcular quem pode disponibilizar a mercadoria. E Deirdre trabalha nos nmeros. Eu falei com os chefes sindicais e com alguns trabalhadores. Pretendo 
voltar a uma plena produo em quarenta e oito horas. 
-Se algum pode faz-lo... -Gage brindou por ela. Ele mesmo era um homem de negcios... entre outras coisas. E sabia exatamente o trabalho, o risco e o suor que 
Natalie enfrentaria dali para frente-. J sabe alguma coisa a mais sobre o incndio? 
-No especificamente -com o cenho franzido, observou as chamas da lareira. Pareciam  to inofensivas e atraentes-. Falei com o investigador algumas vezes. Insinua, 
interroga e, por todos os santos, irrita. Mas no se compromete. 
-Ryan Piasecki -comentou Deborah, e foi sua vez de sorrir-. Hoje dediquei alguns minutos para pesquis-lo. Pensei que poderia lhe interessar.
-Bendita seja -adiantou-se-. Qual  a histria? 
-Est a quinze anos no departamento de bombeiros. Durante dez, ele mesmo combateu o fogo at ascender a tenente. Tem um par de manchas em seu historial. 
-Srio? -Natalie sorriu. 
-Ao que parece golpeou  um vereador no palco de um incndio. Rompeu-lhe a mandbula. 
-Tendncias violentas -murmurou-. Imaginei. 
-Era o que chamam de fogo de classe C -prosseguiu Deborah-. Foi numa indstria qumica. Piasecki se encontrava com a companhia dezoito, a primeira a responder ao 
alarme. No tinham nenhum respaldo... pelos cortes econmicos -adicionou quando Natalie franziu o cenho-. Sua equipe perdeu trs homens naquele incndio, e mais 
dois ficaram com queimaduras crticas. O vereador apareceu com a imprensa e comeou a pontificar sobre o grande funcionamento do nosso sistema... 
-Suponho que eu mesma teria lhe dado um murro -teve que reconhecer Natalie. 
-Sofreu outra ao disciplinadora quando irrompeu no escritrio do prefeito com uma bolsa cheia de entulhos de um instituto, que verteu sobre sua escrivaninha. Era 
de um edifcio de baixa renda situado no distrito oeste, que acabava de passar pela inspeo municipal, ainda que a instalao eltrica estivesse defeituosa e a 
caldeira avariada, ele foi classificado como seguro. Carecia de alarmes de incndio e de sadas de emergncia. Morreram vinte pessoas.
-Queria que me confirmasse que meu instinto no est equivocado -murmurou-. Que tinha um bom motivo para detest-lo. 
-Sinto -Deborah tinha desenvolvido um ponto fraco pelos homens que lutavam contra o crime e a corrupo de forma to pouco tradicional. Olhou para Gage com ternura. 
-Bom -suspirou Natalie-. O que tem mais sobre ele? 
-Passou para o departamento de investigao faz cinco anos. Tem fama de ser abrasivo, agressivo e irritante. 
-Isso  melhor. 
-E de ter o olfato de um co de caa, os olhos de um falo e a tenacidade de um bull terrier. No pra de perguntar at ter respostas. Jamais tive que cham-lo 
para testemunhar, mas j lhe fiz algumas perguntas. No se deixa apanhar.  inteligente. Anota tudo. Tudo. E o recorda. Tem trinta e seis anos, est divorciado. 
 um jogador de equipe que prefere trabalhar sozinho. 
- Suponho que saber que estou em mos competentes deveria fazer que me sentisse melhor -moveu os ombros-. Mas no  assim. Agradeo pelo perfil. 
-De nada -calou-se ao ouvir o pranto atravs do transmissor infantil que tinha ao lado-. Parece que a chefona acordou. No, irei eu -disse ao ver que Gage se levantava-. 
S quer companhia. 
-Vou poder v-la? -perguntou Natalie. 
-Claro, venha. 
-Direi a Frank que atrase o jantar at que tenha terminado -com o cenho franzido, Gage observou  Natalie subir com sua mulher. 
-Sabe? - comentou Natalie ao se dirigir para o quarto da pequena-, est fabulosa. No sei como  consegue. Tem uma carreira exigente, um marido dinmico e todas as 
obrigaes sociais que vem com isso, e a adorvel Adrianna.
-Poderia dizer que tudo se resume em dirigir bem seu tempo e em estabelecer prioridades -com um sorriso, abriu a porta-. Mas na realidade se reduz  paixo. Pelo 
trabalho, por Gage, por nossa Addy. Se a paixo comanda sua vida no h nada que no possa conseguir. 
O quarto infantil era uma sinfonia de cor. Os murais do teto narravam histrias de princesas e cavalos mgicos. Os tons primrios iluminavam as paredes e se fundiam 
em arco iris. Com as mos apoiadas no balastre do bero e as pernas trmulas, Addy exibia uma careta de desgosto. 
-Oh, querida -Deborah  a pegou no colo -. Aqui est voc, sozinha e molhada. 
-Mame -a careta se transformou num sorriso radiante. 
Natalie observou a amiga colocar a menina no fraldrio.
-Cada vez que a vejo est mais bonita -com suavidade acariciou o cabelo escuro do beb. Feliz com a ateno que recebia, Addy moveu os ps e comeou a balbuciar. 
-Estamos pensando em ter outro. 
-Outro? -Natalie piscou-. To cedo? 
-Bem, ainda nos encontramos na fase da indeciso. Ainda que na realidade nos gostaramos de ter trs filhos -deu um beijo na curva delicada do pescoo de Addy, rindo, 
deliciada, quando a pequena agarrou seu cabelo-. Encanta-me ser me. 
-Percebo. Me permite? -uma vez mudado a fralda, Natalie pegou ela no colo. 
Descobriu que sentia inveja por esse pequeno milagre que encaixava to bem em seus braos.



Dois dias mais tarde, Natalie se achava diante de sua escrivaninha, com uma dor de cabea que martelava por trs de seus olhos. No importava. Impulsionava-a seguir 
adiante. 
-Se o mecnico no pode consertar as mquinas, compre algumas novas. Quero  cada costureira trabalhando. No, amanh pela tarde no  o bastante-  passou o telefone 
ao outro ouvido-. Hoje. Estarei presente   1h da tarde para comprovar o novo inventrio. Sei que est uma loucura. Que continue assim -desligou e olhou para seus 
trs colaboradores-. Donald? 
Ele passou uma mo pelo cabelo. 
-O primeiro anncio sair no sbado na Times. Pgina inteira, em trs cores. O anncio, com as variaes necessrias, aparecer simultaneamente em outras cidades. 
-As mudanas que queria? 
-Realizadas. Os catlogos saram hoje. Esto magnficos. 
-Sim -satisfeita, baixou o olhar para o brilhante catlogo que tinha sobre a mesa-. Melvin? 
Tal como era seu costume, Melvin Glasky tirou os pequenos culos e limpou os cristais enquanto falava. Tinha cinquenta e poucos anos, adepto a observao de passarinhos 
e ao golfe. Era de compleio delgada e de bochechas rosadas, e exibia um peruca que ingenuamente acreditava ser seu pequeno segredo. 
-Atlanta parece ser a melhor opo -seus culos brilharam como diamantes quando voltou a equilibr-los sobre o nariz-. A diretora de Chicago defendeu seu estoque 
com unhas afiadas. No queria ceder nem um suti. 
-E? 
-Joguei a culpa em voc.
-Com certeza -se recostou na cadeira e sorriu divertida. 
-Disse que queria o dobro da quantidade que me pediu. O qual me deu amplo espao para negociar. Comentou que podia pegar os catlogos. Mostrei-me de acordo - os 
olhos brilharam -. Ento lhes expus que para voc os catlogos eram sagrados. Que no trocaria nenhuma calcinha, porque queria que todos os pedidos estivessem prontos 
em 10 dias. E que voc era inflexvel.
Ela voltou a sorrir. Nos dezoito meses que levavam trabalhando juntos nesse projeto, tinha chegado a adorar a Melvin. 
-E sou. 
-Assim eu lhe disse que me arriscaria em aceitar a metade do que voc tinha me ordenado. 
-        Seria um poltico esplndido, Melvin. 
-E acredita que sou? Em todo caso, tem aproximadamente  cinquenta por cento do inventrio de volta na loja principal. 
-Lhe devo uma. Deirdre? 
-Passei os aumentos de contra-cheque e os gastos de material projetados -Deirdre Marks jogou o cabelo por trs dos ombros. Tinha uma mente to rpida e controlada 
como um computador de ltima gerao-. Tambm os gastos para a nova localizao e o equipamento. Com os bnus por incentivos que autorizou, estaremos no vermelho. 
Fiz grficos...
- J os vi- refletindo sobre as opes que tinha disponveis, Natalalie esfregou a nuca - O dinheiro do seguro, quando o recebermos, valer para alguma coisa. Estou 
diposta a arriscar e incrementar, para que isto funcione.
- De um ponto de vista meramente financeiro- continuou Deirdre - Qualquer benefcio parece distante. Ao menos em um futuro imediato. Apenas as vendas dos  primeiros 
anos teriam que superar...- encolheu os ombros diante da expresso obstinada de Natalie - Tem os nmeros.
- Sim, e agradeo o trabalho adicional. Por sorte, pedi a Maureen que tirasse cpias das prioridades - entreitou os olhos e uniu as mos- Estou bem consciente de 
a maioria das novas empresas fecham no primeiro ano. Mas no seremos uma delas. No busco benefcios a curto prazo e sim um sucesso a longo prazo. Pretendo que Lady's 
Choice esteja no topo das indstria da moda em dez anos. Desse modo no penso em dar uma passo para trs ao me deparar com o primeiro obstculo real - ao som do 
telefone interno apertou uma tecla- Sim Maureen?
- O inspetor Piasecki est aqui e gostaria de v-la senhorira Fletcher. No tem hora marcada.
De forma automtica estudou a agenda sobre a mesa. Podia lhe dedicar 15 minutos e ainda chegar a tempo ao novo armazm.
- Temos que acabar com isso de uma vez - olhou seus colaboradores - Faa-o entrar, Maureen.
Ry preferia reunir-se com os amigos e inimigos em um territrio desses. Todavia no havia decidido em que categoria se encaixava Natalie Fletcher. Sem dvida  havia 
decidido passar em seu escritrio para observar pessoalmente essa parte de seu negcio.
No podia dizer que se sentia decepcionado. Pensou que era um ambiente elegante para uma proprietria elegante. Tapetes felpudos, muito vidros, cores suaves, cadeiras 
confortveis na recepo. Quadro originais nas paredes e palntas naturais.
E sua bonita secretria trabalhava com um equipamento de ltima gerao.

O escritrio tambm no foi uma surpresa. O rpido estudo que realizou mostrou um carpete felpudo de cor azul, paredes pintadas de rosa e decoradas com arte moderna 
que particularmente nunca o havia interessado. Exibia mveis antigos. 

Imaginou que a mesa devia ser europia. Estava cheio de entalhes e curvas. Viu Natalie sentada atrs dessa, com um de suas roupas elegantes e uma ampla janela de 
vidro fum a suas costas. 
Outras trs pessoas se achavam de p ao seu redor, como soldados prontos para se colocarem em guarda a uma ordem que ela proferisse. Reconheceu o homem jovem como 
o mesmo que ela tinha abraado no lugar do incndio. Terno sob medida, sapatos negros reluzentes, n da gravata perfeito, cara bonita, cabelo bem penteado e mos 
suaves. 
O segundo homem era maior e parecia a ponto de esboar um sorriso. Usava uma gravata borboleta  e um peruca medocre. 
A mulher parecia um contraste perfeito de sua chefe. Jaqueta ampla, meio amassada, sapatos de saltos baixos, cabelo em desalinho que no sabia se queria ser vermelho 
ou castanho. Julgou que se achava prxima aos quarenta, e no muito interessada em lutar contra a idade. 
-Inspetor -Natalie esperou dez segundos antes de se levantar e estender a mo. 
-Senhorita Fletcher -de forma mecnica apertou os dedos longos e delgados. 
-O inspetor Piasecki est investigando o incndio do armazm - com seu uniforme habitual de jeans e camisa de flanela, notou. Ser que a cidade no lhe dava um traje 
oficial?-. Inspetor, apresento a voc trs de meus melhores executivos... Donald Hawthorne, Melvin Glasky e Deirdre Marks. 
Ry assentiu encarando-os e depois centrou sua ateno em Natalie. 
-Eu pensava que uma mulher inteligente como voc teria sensatez suficiente para no instalar seu escritrio no andar quarenta e dois. 
-Perdo??
-Faz com que o resgate seja infernal... no s para voc, mas para todo o departamento de bombeiros.  impossvel trazer uma escada at aqui. Essa janela  decorativa, 
no serve para ventilao ou sada de emergncia. Teria que descer quarenta e dois andares, por uma escada que, sem dvida, estaria cheia de fumaa. 
Natalie voltou a se sentar, sem convid-lo a fazer o mesmo. 
-Este edifcio est equipado com todos os aparelhos de segurana necessrios. Aspersores, detectores de fumaa, extintores. 
-Como o seu armazm, Senhorita Fletcher -sorriu. 
Ela sentiu que a dor de cabea retornava duplamente mais forte. 
-Inspetor, veio at aqui para  me pr em dia a respeito de sua investigao ou para criticar meu lugar de trabalho? 
-Posso fazer ambas as coisas. 
-Poderiam nos desculpar? -Natalie olhou para os trs scios. Quando a porta se fechou atrs deles, indicou um cadeira. -Vamos amenizar o ambiente. No vou com a 
sua cara e nem voc com a minha. Mas temos um objetivo comum. Com freqncia trabalho com pessoas que me so indiferentes num plano pessoal. Isso no me impede de 
realizar meu trabalho - inclinou a cabea para olh-lo com o que considerou uma expresso fria-. E voc?
-No. 
-Bem. E agora o que tem para me dizer? 
-Acabo de completar meu relatrio. J no h suspeita mais em realo ao incndio. Foi provocado. 
Apesar de ser uma notcia esperada, sentiu um n no estmago. 
-No h nenhuma dvida? -moveu a cabea antes de que ele pudesse falar-No, no h. Fui informada que voc  muito minucioso. 
-? Deveria tomar uma aspirina antes que abra um buraco em sua cabea. 
Irritada, baixou a mo que massageava a nuca. 
-Qual  o passo seguinte? -Tenho uma causa, o mtodo e o ponto de origem. Quero o motivo. 
-No h pessoas que iniciam incndios pelo simples prazer que isso as proporciona? Porque se sentem impulsionadas a faze-lo? 
-Claro -ia pegar um cigarro, mas notou que no tinha nenhum cinzeiro  vista-. Pode ser que seja um aficcionado. Ou talvez um piromanaco contratado. Tinha um seguro 
suculento, Senhorita Fletcher. 
- Com certeza. E tinha uma boa razo para isso. S em maquinarios e mercadoria perdi mais de um milho e meio de dlares. 
-A indenizaro com muito mais. 
-Se conhecesse algo sobre as propriedades, inspetor, seria consciente de que o edifcio era valioso. Se est procurando uma fraude aqui, est perdendo seu tempo. 
-Tenho tempo - levantou-. Vou precisar de uma declarao, Senhorita Fletcher. Oficial. Amanh em meu escritrio, s duas. 
-Posso dar uma aqui e agora -tambm se levantou. 
-Em meu escritrio, Senhorita Fletcher -tirou um carto do bolso e depositou sobre a mesa-. Olhe por este lado, se est limpa. Quanto antes acabarmos com isso melhor 
e ter seu seguro muito mais rpido. 
-Muito bem -recolheu o carto e o guardou no bolso do traje-. Quanto antes, melhor.  tudo no momento, inspetor? 
-Sim -baixou o olhar para o catlogo que tinha sobre a mesa. Uma modelo com a pele de porcelana estava acomodada sobre um sof de veludo, exibindo uma camisola vermelha 
sem costas e ligas tentadoras sobre o corpo -. Bonito -olhou para Natalie-. Uma forma elegante de vender sexo. 
-Romance, inspetor. Algumas pessoas ainda apreciam. 
-E voc? 
-No creio que isso seja importante. 
-Me pergunto se voc acredita no que vende ou  apenas uma forma de ganhar dinheiro - do  mesmo jeito que se perguntava se ela usaria seus prprios conjuntos embaixo 
daquela traje severo. 
-Ento satisfarei sua curiosidade, inspetor. Sempre acredito no que vendo. Alm disso tenho a satisfao de ganhar o dinheiro, algo que fao muito bem -ergueu o 
catlogo e o ofereceu - Por que no o leva? Todas nossas mercadorias trazem uma garantia absoluta. O nmero do atendimento ao cliente, gratuito, estar operando 
na segunda-feira - se esperava que ele o recusasse, ficou decepcionada. 
-Obrigado -Ry enrolou o catlogo e o meteu no bolso. 
-E agora, se me perdoar, tenho uma reunio. 
Deu a volta na mesa, algo que ele tinha esperado. Sem importar o que pensasse dela, gostava de suas pernas. 
-Precisa que eu a deixe em algum lugar? 
-No -surpresa, voltou-se para o armrio pequeno que tinha num canto do escritrio. -Tenho carro -ficou mais surpresa quando ele se aproximou para ajud-la com o 
casaco. As mos masculinas demoraram alguns segundos em seus ombros. 
-Est estressada, Senhorita Fletcher. 
-Estou ocupada, inspetor   - ao virar-se irritou-se por ter que retroceder um passo para no chocar-se contra ele. 
-E nervosa -adicionou com um sorriso satisfeito. Perguntou-se  se ela tambm seria consciente de sua presena como ele era da dela.-. Um homem perpiscaz poderia 
considerar isso apenas um bom argumento. E por casualidade, eu o sou. Ento, sabe no que acredito? 
-Ficaria encatada de saber -ao que parece o sarcasmo no o afetava, j que continuava a ostentar o sorriso. 
-Acredito que que voc seja assim. Tensa e nervosa. Exibe muito controle e sabe como manter o fogo na linha. Mas de vez em quando no consegue reprimi-lo. E quando 
isso acontece pode-se observar um resultado muito interessante.
Natalie pde sentir que estava num desses momentos. 
-Sabe no que acredito, inspetor? 
-Estou certo de que me encataria saber, Senhorita Fletcher -a covinha, que deveria ter estado fora de lugar em seu rosto forte, acentuou-se. 
-Acredito que  um homem arrogante, de mente estreita e intragvel, que tem estima demais por si mesmo. 
-Eu diria que ambos estamos com a razo.
-E que bloqueia meu caminho. 
-Tambm tem razo sobre isso -mas no se moveu-. Maldio, tem um rosto deslumbrante. 
-Perdo? -ela piscou. 
-Uma observao.  uma mulher muito elegante -seus dedos almejavam toc-la, desse modo enfiou as mos nos bolsos para cont-los. A tinha desconcertado. Era bvio 
pelo jeito que o olhava, entre horrorizada e intrigada. No viu motivo para no aproveitar-se disso-. Para um homem,  difcil no se deixar levar pela fantasia 
depois de t-la visto. E eu j pude v-la de perto duas vezes. 
-No acredito... -s o orgulho a impediu de no retroceder. Ou avanar-. No acredito que isso seja apropriado. 
-Se alguma vez chegarmos a nos conhecer melhor, descobrir que isso no ocupa um posto elevado em minha lista de prioridades. Diga-me uma coisa, Hawthorne e voc 
mantm uma relao pessoal? 
-Donald? -os olhos dele, escuros, intensos e prximos a deslumbraram por um momento. -Certamente que no -irritada, se conteu-. No  assunto seu.- A resposta dela 
o satisfez, tanto no profissional como no pessoal. 
-Tudo sobre voc  assunto meu. 
-Desse modo essa lametvel conversa que estamos tendo  uma desculpa para que me incrimine? -levantou o queixo com os olhos brilhantes. 
-Para mim no pareceu to lamentvel. De um ponto de vista profissional, funcionou. 
-Poderia ter mentido. 
-Antes de mentir tem que pensar. E voc no pensou - gostava da idia de poder surpreend-la, por isso decidiu pressionar um pouco mais-. Por casualidade e num plano 
estritamente profissional, gosto da sua aparncia. Mas no se preocupe, isso no interferir em meu trabalho.
-No gosto de voc, inspetor Piasecki. 
-J disse isso -estendeu a mo e fechou seu casaco-. Abotoe. Faz frio l fora. Em meu escritrio -acrescentou ao dirigir-se para a porta-. Amanh s duas da tarde. 
Andou pelo corredor, pensando nela.  Natalie Fletcher, um crebro de primeira numa fachada de primeira . Talvez tivesse incendiado seu prprio edifcio para obter 
um benefcio rpido. No seria a primeira nem a ltima em faz-lo. 
Mas seu instinto lhe dizia que no. 
No lhe dava a impresso de ser uma mulher que procurasse atalhos. 
Entrou no elevador, cujo espelho lhe devolveu sua prpria imagem. 
Tudo nela era de primeira. E em seu passado no encaixava uma fraude. As Indstrias Fletcher gerava benefcios suficientes ao ano para comprar alguns  pases do 
Terceiro Mundo. Esse novo ramo da empresa era o projeto pessoal dela, e ainda que fechasse no primeiro ano, no sacudiria os alicerces da corporao. 
Com certeza, tinha que analisar a participao emocional. O mesmo instinto lhe disse que estava pessoalmente muito envolvida com sua nova empresa. Isso bastava para 
tentar tirar um ganho rpido a fim de salvar um investimento arriscado. 
Mas seguia sem combinar com sua imagem. 
Talvez outra pessoa da empressa. Ou um competidor com a esperana de sabotar seu negcio antes que fizesse sucesso. Ou um piromanaco clssico. 
Fosse o que fosse,  averiguaria. 
E enquanto isso, teria a satisfao de sacudir as barras da jaula de  Natalie Fletcher. 
 Uma dama elegante , pensou. Imaginou que superaria  qualquer modelo com sua prpria lingerie. 
O bip que levava no cinto soou quando o elevador desceu.  Outro incndio , concluiu, dirigindo-se ao telefone mais prximo. Sempre havia outro incndio. 


Capitulo 3

Ry a fez esperar quinze minutos. Era uma estratgia regular, que ela mesma tinha empregado com freqncia para desequilibrar um oponente. Estava decidida a no cair 
na armadilha. 
Nem sequer tinha espao suficiente na maldita sala que ele chamava de escritrio. 
Trabalhava num dos quartis de bombeiros mais antigos da cidade, com dois andares em cima da garagem onde estavam os carros, numa pequena caixa envidraada que oferecia 
uma vista pouco inspiradora de um estacionamento em mau estado e edifcios meio descompostos. 
No sala adjacente, Natalie podia ver  uma mulher digitando de forma incessante em uma mquina de escrever numa mesa  lotada de pastas e formulrios. Todas as paredes 
eram de um amarelo sujo que, dcadas atrs, poderia ter sido branco. Estavam cobertas com fotos de incndios, algumas sombrias o bastante para que desviasse o rosto, 
boletins, folhetos e algumas divertidas frases de gosto duvidoso. 
Era evidente que Ry no tinha problemas com o humor tpico de sua profisso. 
As prateleiras de metal estavam repleta de livros, pastas, panfletos e alguns trofus, cada um coroado com a estatueta de um jogador de basquete. Com uma careta 
tambm notou a poeira. A mesa dele, pouco maior que uma caixa de papelo e cheia de marcas, tinha uma perna mais curta apoiada num exemplar de bolso do livro Ratos 
e Homens. 
Nem sequer mostrava respeito por Steinbeck. 
Levantou-se para analisar a mesa, onde no se observava nenhuma foto. Nenhuma recordao pessoal. S clipes, lpis quebrados, um gravador e um caos ridculo de papis 
desorganizados. Empurrou alguns e retrocedeu horrorizada ao descobrir a cabea decapitada de uma boneca. 
Se no tivesse sido to horrvel, poderia ter rido. O nico olho azul que lhe restava a olhava fixamente. 
-Recordaes -disse Ry da porta. Estava h alguns minutos observando-a. -De um incndio de classe A do comeo dos anos sessenta. A menina sobreviveu -baixou o olhar 
at a cabea da mesa-. Em melhor forma do que sua boneca. 
- horrvel -no pde evitar experimentar um arrepio. 
-Sim, foi. O pai da criana iniciou o fogo na sala com uma lata de querosene. A mulher queria o divrcio. Quando ele terminou, j no importava. 
Natalie imaginou se era necessrio demonstrar tanta frieza com o desfecho do acontecido.
-Tem um trabalho triste, inspetor. 
-Por isso me fascina -olhou em direo da porta quando esta se abriu-. Sente-se. J vou conversar com voc -fechou a porta do escritrio antes de voltar-se para 
o bombeiro uniformado que tinha aparecido a suas costas. 
Atravs do vidro, Natalie captou o murmrio de vozes. No precisou ouvir Ry levantar a sua, como fez quase de imediato, para saber que o jovem bombeiro recebia uma 
reprimenda daquelas. 
-Quem o mandou  abrir a parede, calouro? 
-Senhor, pensei... 
-Os novatos no pensam. No  inteligente o bastante para pensar. Se fosse, saberia que o ar conduz o fogo. Saberia o que podia acontecer se deixasse o ar passar 
e tivesse uma maldita poa de combustvel sob suas botas. 
-Sim senhor. Eu sei. No o vi. A fumaa... 
-Ser melhor que aprenda a ver atravs da fumaa. Ser melhor que aprenda a ver atravs de tudo. E quando o fogo estiver subindo pela maldita parede, no assuma 
a tarefa de dar-lhe uma maldita sada enquanto est de p sobre um catalisador. Tem sorte de estar com vida, novato, e tambm a equipe de homens que teve a m sorte 
de trabalhar com voc. 
-Sim, senhor.Eu sei, senhor. 
-No sabe de nada.  a primeira coisa que deve se lembrar da prxima vez que for comer fumaa. E agora suma daqui. 
Natalie cruzou as pernas quando Ry entrou na sala. 
-Voc  um diplomata nato. Esse garoto no deve ter mais de vinte anos. 
-Seria agradvel que atingisse a velhice, no? -com um movimento da mo, baixou a persiana, isolando-os. 
-Sua tcnica faz que eu lamente no ter vindo acompanhada de um advogado. 
-Relaxe - aproximou-se da mesa e abriu algumas pastas-. No tenho autoridade para prender, s para pesquisar. 
-Bom, j dormirei mais tranquila -deu uma olhada prolongada ao relgio-. Quanto tempo acredita que vamos demorar? J perdi vinte minutos. 
-Estive detido - sentou e abriu a bolsa com que tinha entrado-. Comeu? 
-No -semicerrou os olhos ao v-lo tirar um envoltrio que cheirava deliciosamente -. Quer dizer que me deixou esperando enquanto ia comprar um sanduche? 
-Me pegaram de passagem - ofereceu a metade do sanduche de carne assada e po de centeio-. Tambm tenho dois cafs. 
-Aceito o caf. Fique com o sanduche. 
-Como queira - passou uma pequena xcara coberta para ela-. Importa se gravo a entrevista? 
-Prefiro. 
Enquanto comia com uma mo, abriu uma gaveta e tirou um gravador. 
-Deve possuir um armrio cheio dessas roupas -o que usava nesse momento era da cor das framboesas, e tinha uma carreira de botes dourados na lateral esquerda da 
saia- Veste-se de outro jeito em algum momento?
-Desculpe? 
-Mantenho uma conversa superficial, Senhorita Fletcher. 
-No vim para isso. E no  me chame de Senhorita Fletcher desse modo,  irritante.
-No h problema, Natalie. Chame-me Ry -ligou a gravadora e comeou recitando a hora, a data e o lugar da entrevista. Apesar disso, tirou um bloco e um lpis-. Esta 
entrevista est sendo conduzida pelo inspetor Ryan Piasecki com Natalie Fletcher, pelo incndio acontecido num armazm das Indstrias Fletcher no 21 da South Harbor 
Avenue, em doze de fevereiro deste ano -bebeu um gole de caf-. Senhorita Fletcher, voc  a proprietria do edifcio antes mencionado e de seu contedo. 
-O edifcio e seu contedo so... eram propriedade de Indstrias Fletcher, das quais eu sou representante executiva. 
-E desde quanto era propriedade de sua companhia? 
-Oito anos. Antes era empregado para armazenar bens de Fretes Fletcher. 
-E agora?
-Fretes Fletcher se mudou para outra localizao -relaxou um pouco. Ia ser algo rotineiro. Negcios-. O armazm foi reformado h  uns dois anos para albergar uma 
nova empresa. Utilizvamos o edifcio para a fabricao e armazenamento de mercadorias para Lady's Choice. Fazemos lingerie feminina. 
-Qual o horrio de funcionamento? 
-No geral das oito as seis, de segunda-feira a sexta-feira. Nos ltimos seis meses, ampliamos para incluir os sbados, das oito ao meio-dia. 
Ele continuou comendo, fazendo perguntas correntes sobre a prtica do negcio, a segurana e algum problema de vandalismo. As respostas dela foram rpidas, frias 
e concisas. 
-Trabalha com vrios provedores? 
-Sim. Mas s com empresas americanas. Essa  uma poltica firme que temos. 
-Incrementa os gastos. 
-A curto prazo. Com o tempo acredito que a empresa gerar benefcios para justific-lo. 
-Dedicou muito tempo pessoal a este projeto. Teve muitos gastos e investiu seu prprio dinheiro. 
-Est certo. 
-O que acontecer se o negcio no atingir o nvel de suas expectativas? 
-O far. 
-E se no? - recostou na cadeira, desfrutando do que lhe restava de seu caf. 
-Ento terei perdido meu tempo e meu dinheiro. 
-Quando foi a ltima vez que esteve no armazm, antes do incndio? 
A mudana sbita de tema a tinha surpreendido, ainda que no a fizesse vacilar. 
-Trs dias antes do incndio fui para uma inspeo rotineira.  
-Notou que faltava algo? -apontou a data. 
-No. 
-Equipamento danificado? 
-No. 
-Alguma falha na segurana? 
-No. Caso contrrio,  teria reparado de imediato -talvez a considerava idiota?- O trabalho ia segundo o previsto, e os produtos que vistoriei estavam em perfeitas 
condies. 
-No revisou tudo? -a olhou nos olhos. 
-Realizei uma inspeo superficial, inspetor -sabia que a inteno de seu olhar era incomod-la. Negou-se a permitir-. No  uma atividade produtiva perder tempo 
examinando cada camisola ou liga. 
-O edifcio foi vistoriado em novembro. Cumpria todas as regulaes de incndios? 
-Sim. 
-Pode explicar como ento, a noite do incndio, os aspersores e o sistemas de deteco da fumaa estavam inoperantes? 
-Inoperantes? -o corao bateu mais depressa-. No sei muito bem a que se refere. 
-Tinham sido manipulados, Senhorita Fletcher. Bem como seu sistema de segurana. 
-No, no posso explicar -no afastou os olhos dele-. E voc? 
Ry tirou um cigarro do bolso e acendeu um fsforo de madeira com a unha do dedo polegar. 
-Tem algum inimigo? 
-Inimigo? -repetiu, desconcertada. 
-Algum a quem gostaria de v-la fracassar, no mbito pessoal ou profissional? 
-Eu... No, pessoalmente no me ocorre ningum -a idia a deixou aturdida. Passou uma mo pelo cabelo-. Talvez, tenho competidores... 
-Algum que tenha insinuado problemas? 
-No. 
-Empregados descontentes? Despediu algum ultimamente? 
-No. No posso falar de todos os nveis da organizao. Tenho diretores que dispem de autonomia em seus prprios departamentos, mas no chegou nada at a minha 
pessoa. 
Ele seguiu fumando enquanto fazia perguntas e tomava notas. Ao terminar a entrevista, mencionou a hora de concluso e desligou a gravadora. 
-Esta manh falei com seu agente de seguros -a informou-. E com seu guarda de segurana. Tenho preparada uma entrevista com o capataz do armazm -quando ela no 
respondeu, apagou o cigarro-. Quer um pouco de gua? 
-No -soltou o ar-. Obrigada. Acredita que sou responsvel? 
-O que sei aparece no relatrio, no o que acredito. 
- Pois quero saber  -ficou de p-. Estou pedindo para voc dizer o que pensa.
O primeira coisa que passou pela mente dele foi que esse lugar no era para ela. No esse pequeno escritrio que cheirava ao que estivessem cozinhando os homens 
l embaixo. O lugar dela era na sala de reunio e no quarto. Tinha  certeza de que era igualmente hbil em ambos os lugares. 
-No  sei, Natalie, talvez seja sua carinha bonita  que afeta meu juzo. Mas no, no a considero responsvel. Se sente melhor? 
-No muito. Suponho que a nica escolha que me sobra  depender de voc para que encontre quem  fez e averigue o porqu -suspirou-. Apesar de me aborrecer demais, 
tenho a impresso que  o homem adequado para o trabalho. 
-Um elogio, e to cedo em nossa relao. 
-Com um pouco de sorte, ser o primeiro e o ltimo - inclinou para recolher a valise. Mas Ry se moveu com agilidez e silncio. Antes que pudesse levant-la, a mo 
dele se fechou sobre a sua na correia da valise.
-Respire um pouco. 
Ela flexionou a mo uma vez e sentiu a palma dura e com calos de Ry, depois ficou quieta. 
-Perdo? 
-Est ansiosa, Natalie. Precisa relaxar.
O que seria pouco porvvel se ele continuasse mantendo aquele contato.
-O que preciso  voltar para meu trabalho. Bom, se isso  tudo, inspetor... 
-Pensei que tnhamos estabelecido uma acordo para que nos chamssemos pelos nossos primeiros nomes. Venha, quero lhe mostrar algo.
-No disponho de tempo -comeou a dizer enquanto ele a escoltava  para fora da sala-. Tenho um compromisso agora mesmo. 
-Sempre tem um. Nunca chega atrasada? 
-No. 
- a fantasia de todo homem. Uma mulher bonita, inteligente e pontual -a levava escadas abaixo-. Qual  a sua altura sem esses saltos? 
-Bastante alta -arqueou uma sobrancelha. 
Ry se deteve um degrau abaixo dela e se voltou. Seus olhos e bocas ficaram frente a frente, alinhados. 
-Sim, podemos dizer que  alta o bastante - e a puxava como teria feito com uma mula teimosa.


Da cozinha vinham aromas. Essa noite tinha chile no cardpio. Alguns homens analisavam o equipamento de um dos veculos. Outro enrolava uma mangueira no frio solo 
de cimento. 
Ry foi recebido com saudaes e sorrisos, Natalie com lbios franzidos e resmungos. 
-No podem evitar -a informou-. No  todos os dias que passam por aqui mulheres como voc. A ajudarei. 
-O que? 
-A ajudarei -repetiu ao abrir a porta de um veculo-. No  que os rapazes no iriam apreciar o modo com que oscilaria essa saia se subisse por sua prpria conta. 
Mas... -antes de que pudesse protestar, tomou-a pela cintura e a levantou-. Chegue para o lado -ordenou-. A no ser que prefira sentar no meu colo. 
-O que fao num carro de bombeiros? -perguntou ao deslizar para o outro assento. 
-Todo mundo quer subir em um, ao menos uma vez -cmodo, estendeu o brao por cima do apoio de seu assento-. E bem, o que acha? 
Estudou os comandos e botes, a grande alavanca de marcha, a foto da Miss Janeiro colada no parabrisa. 
- interessante. 
-Isso  tudo? 
Natalie mordeu o lbio inferior. Perguntou-se que controle ativava a sirene, e as luzes. 
-De acordo,  divertido - adiantou o corpo para ver melhor pelo parabrisa-. Estamos realmente aqui, no ? Isto ? 
Segurou sua mo antes que pudesse puxar a corda que tinha em cima da cabea. 
-A buzina -concluiu ele-. Os homens esto acostumados ao seu som, mas, acredite em mim, com a acstica deste lugar e as portas fechadas, se fizer isso soar ir se 
lamentar. 
-Que pena - jogou o cabelo para trs ao girar o rosto para ele-. Est me mostrando seu brinquedo para que eu relaxe ou para se exibir? 
-Ambas as coisas. 
-Talvez no seja o imbecil que parece ser. 
-Se continuar sendo agradvel comigo, vou me  apaixonar. 
Riu e deu-se conta que quase se sentia relaxada. 
- Creio que isso j ficou claro. O que o impulsionou a ocupar um carro de bombeiros durante dez anos? 
-Vejo que me pesquisou. 
-Est certo -o olhou-. E? 
-Podemos dizer que estamos empatados. Sou um devorador de fumaa de terceira gerao. Levo no sangue. 
-Mmm... -Podia entender aquilo-. Mas deixou. 
-No, mudei de posto.  diferente. 
Imaginou que sim, ainda que no fosse uma resposta. 
-Por que guarda essa recordao em sua escrivaninha? -observou com ateno seus olhos-. Refiro-me  cabea da boneca. 
- de meu ltimo incndio. Do ltimo que combati -ainda  recordava... o calor, a fumaa, os gritos-. Salvei  menina. A porta do dormitrio estava fechada. Minha 
suposio  que ele levou a mulher a  filha para l... j sabe, se no podem viver comigo, no vivero sem mim. Tinha uma pistola. No estava carregada, mas ela 
no podia saber. 
- terrvel - perguntou-se se ela teria reagido a pistola, acreditava que sim, melhor uma bala rpida e mortal do que a fumaa e o fogo-. Sua prpria famlia. 
-Alguns sujeitos no encaram muito bem o divrcio - encolheu os ombros. O seu tinha sido quase indolor- As obrigou a ficar sentadas ali enquanto  o fogo se descontrolava 
e a fumaa penetrava por baixo da porta. Era uma casa de madeira, velha. Incendiou-se como um fsforo. A mulher tinha tentado proteger  menina, a tinha protegido 
com o corpo em um canto da casa. No podia tir-las ao mesmo tempo, desse modo escolhi a menina -os olhos dele se escureceram, centrados em algo que s ele podia 
ver-. De qualquer modo, a mulher estava perdida. Eu sabia disso, apesar de sempre ter uma probabilidade. Descia com a menina pela escada quando o solo cedeu.
-Salvou a menina -murmurou com gentileza. 
-Foi a me quem a salvou -jamais poderia esquecer essa devoo altrusta e sem esperana-. O filho de uma cadela que queimou a casa saltou pela janela do primeiro 
andar. Certo, tinha queimaduras, tinha inalado fumaa e quebrou uma perna. Mas sobreviveu. 
Natalie compreendeu que ele se importava. At ento no o tinha pecerbido, ou no tinha querido perceber. Isso o mudava, modificava a percepo que tinha de Ry. 
-E ento decidiu perseguir os homens que iniciam os incndios. 
-Mais ou menos -quando soou o alarme, ergueu a cabea como um lobo que percebe a sua presa. O ptio ganhou vida com o som de ps correndo e ordens gritadas. Ry elevou 
a voz acima do alarido-. No os atrapalhemos -abriu a porta, tomou-a nos braos e desceu. 
-Fbrica qumica -comentou algum enquanto se misturava a equipe de proteo. 
Deu a impresso que em alguns segundos os veculos saiam pelas portas com as sirenes a todo o volume. 
- muito rpido -comentou Natalie, com o pulso acelerado-. Movem-se com grande agilidade. 
-Sim.
-  excitante -levou uma mo ao corao-. No sabia. Sente falta? -o fitou e sentiu que a mo se afrouxava sobre a sua. 
Ele ainda a tinha colada a seu corpo, e seus olhos estavam escuros e fixados nela. 
-De vez em quando. 
-Bom, ... eu deveria ir. 
-Sim. Deveria ir. -mas se moveu at conseguir envolv-la com os braos. Talvez estivesse reagindo ao som das sirenes, talvez fosse o aroma extico e irresistvel 
que emanava dela, mas seu sangue fervia. 
E queria provar, apena suma vez, se seu sabor era to bom quanto sua aparncia. 
- uma loucura -conseguiu balbuciar Natalie. Sabia o que ele pretendia. O que ela mesma queria que fizesse-. Devo estar doente.
-Por qual voc decide? -sorriu um mometo antes que seus lbios cobrissem sua boca.
No o afastou. Durante um segundo, no respondeu. Nesse instante, achou que tinha ficado paralisada, surda, muda e cega. Depois, todos seus sentidos voltaram como 
uma mar extravassando na praia. 
A boca de Ry era dura, bem como suas mos e seu corpo. Sentia-se aterrorizada e gloriosamente feminina colada a ele. Uma necessidade que nunca tinha estado consciente 
floresceu em seu interior. Deixou a valise cair no cho para enla-lo com os braos.
Ele j no pensava em  uma vez . Um homem morreria de fome depois de prov-la uma vez. Suplicaria mais. Ela era suave, forte e pecaminosamente doce, com um sabor 
que tentava e atormentava. 
O calor irradiou de ambos enquanto o vento aoitava suas costas atravs das portas abertas. O som dos rudos da rua, das buzinas e dos freios, envolvia-os, misturando-se 
com o gemido rouco e aturdido de Natalie. 
Ry se afastou um momento para observ-la, viu-se no verde brumoso de seus olhos e voltou a reclamar sua boca. 
 No, isto no vai acontecer uma vez .
 Ela no podia respirar. No queria. Os lbios dele formavam palavras sobre os seus que no poderia ouvir nem entender. Pela primeira vez desde que ganhara uso de 
razo, s era capaz de sentir. E as sensaes a invadiam com tanta velocidade, vvidas e poderosas, que a deixavam sem rumo. 
Ry voltou a afastar-se, enevoado pelo que o tinha atravessado em um espao de tempo to curto. Estava sem flego, fraco, e isso o enfurecia tanto como o desconcertava. 
Ela permaneceu quieta, olhando-o com uma mistura de comoo e fome nos olhos. 
-Sinto muito -murmurou ele, dando um passo para trs e enganchando os dedos polegares nos bolsos. 
-Sente o que? -repetiu. Respirou fundo e perguntou-se se a cabea em algum momento pararia de ficar dando voltas- Voc sente muito?
- Isso mesmo - no soube se a amaldioava ou fazia isso a si mesmo. Maldita fosse, tinha os joelhos bambos-. Fiquei fora de mim. 
-Fora de voc. 
Afastou o cabelo do rosto, furiosa ao descobrir que tinha a pele acalorarada. Ele tinha destruido todas as suas defesas, todo o seu controle, e se atrevia a desculpar-se? 
Levantou o queixo e ergueu os ombros. 
- Voc certamente tem jeito com as palavras. Ora, inspetor, costuma beijar todos os seus suspeitos?
-Foi algo mtuo -semicerrou os olhos-, e no, voc foi a primeira. 
-Que sorte a minha -assombrada, indignada, estava  beira das lgrimas. Recolheu a valise-. Acredito que isto  o fim de  nossa reunio. 
-Um momento -resmungou quando ela continuou andando em direo a sada-. Disse um momento -a seguiu e com uma mo no brao a fez virar-se de frente para ele.
- Estou tentando no ceder a tentao de esbofete-lo, -soltou com os dentes apertados-, mas voc est dificultando as coisas. 
-J me desculpei.
-Poupe-se. 
 Seja razovel , advertiu-se.  Isso ou a beije mais uma vez . 
-Bem, Senhorita Fletcher.Voc no demonstrou muita retulncia - chegou  calada antes que ele a atingisse-. No a desejo -afirmou Ry. 
Insultada e provocada alm do seu controle ela encostou o dedo em seu torax o pulo e o fitou.
-No? Ento, se importaria de me explicar o que foi aquilo que aconteceu ali atrs?
-Mal a toquei, e voc disparou como um foguete. No  minha culpa que estivesse to necessitada. 
-Necessitada? -seus olhos estavam a ponto de saltar das rbitas-. Necessitada? Arrogante, insuportvel e egosta idiota! 
-Foi uma m escolha das palavras -respondeu Ry, incitando-a para colocar mais lenha ao fogo-. Eu deveria ter dito reprimida. 
-Vou acabar com voc. 
-E - continuou sem dar ateno as suas palavras-, deveria ter acrescentado que no gosto do fato de desej-la.
Durante um momento, Natalie se concentrou s em respirar. De nenhuma maneira pensava em fazer uma cena ali no meio da rua.
-Pois ento Piasecki,  esta pode ser a primeira e a ltima vez que concordamos com algo. Pois eu tambm no gosto,
-No gosta que eu a deseje ou no gosta de me desejar? 
-Ambas as coisas. 
Ele assentiu e se observaram como boxeadores ao final de um assalto. 
-Ento resolveremos isso esta noite. 
-No. 
-Natalie - prometeu a si mesmo que seria paciente, ainda que isso o matasse-, quanto quer complicar a situao? 
-No quero complicar, Ry. Quero fazer que seja impossvel. 
-Por qu? 
Atravessou-o com um olhar  desdenhoso.
-Pelo que parece que  bvio, inclusive para voc. 
-No sei o qu tem essa atitude irada em voc, mas me faz sentir... Quer que seja algo tradicional, que a convide para jantar, tudo isso? 
Ela fechou os olhos e rezou para manter a pacincia. 
-Parece que no consigo me fazer compreender -voltou a abri-los-. No, no quero que me convide para jantar, nem nada disso. O que passou ali dentro foi... 
-Selvagem. Incrvel. 
-Uma aberrao.
-No seria muito difcil demonstrar que esta enganada. Mas se retomssemos de onde paramos, aqui fora, provavelmente nos prenderiam antes de terminar -nesse momento 
Ry se comprazia do desafio. E pretendia ganhar-. Mas entendo. A assutei e agora est com medo de ficar sozinha comigo. Est com medo de perder o controle novamente.
- pouco provvel. 
Ry encolheu os ombros e Natalie o estudou. 
-s oito. Em Chez Robert, na Tera. O verei l. 
-Bom. 
-Bom -deu as costas - Ah, Piasecki -disse por cima do ombro-. Eles no vem como bons modos comer com as mos.
-Tentarei  me lembrar.




Natalie estava segura de que tinha perdido a razo. s sete e quarto entrou em seu apartamento. Fatos, nmeros, projees, grficos, tudo rodava em sua cabea. E 
o telefone soava. 
Para variar,  pegou o telefone sem fio e foi a caminho do dormitrio. 
-Sim? O que ? 
-Foi assim que mame lhe ensinou a atender o telefone? 
-Boyd -parte da tenso do dia se evaporou ao ouvir a voz do irmo-. Sinto muito. Acabo de chegar da ltima de vrias reunies pesadas. 
-No procure simpatia em mim. Foi voc quem escolheu continuar com a tradio familiar. 
- verdade - tirou os sapatos-. Como vai a luta contra o crime e a corrupo de Denver, capito Fletcher? 
-Agentamos. Cilla e os meninos enviam beijos e abraos. 
- O mesmo de minha parte. No vo falar comigo? 
-Estou na delegacia. Me preocupei com o que aconteceu em Urbana.
-Como se inteirou to cedo que o incndio foi provocado? -remexeu no armrio, com o telefone sustentado na curva de seu ombro-. Eu mesma acabo de sab-lo. 
-Temos nossos prprios meios. De fato, h alguns minutos estive falando com o encarregado da investigao. 
-Piasecki? -atirou o vestido negro sobre a cama-. Falou com ele? 
-Fazem dez minutos. Parece que est em boas mos, Nat. 
-No se puder evitar - murmurou
- O que? 
-Ao que parece conhece seu trabalho -respondeu com calma-. Ainda que seus mtodos caream de certo estilo. 
-Os incndios provocados so coisas feias. E perigosas. Preocupo-me por voc minha irmzinha.
-Esquea. Voc  ex-policial, lembra -se? -  tirou a jaqueta, prometendo-se que a penduraria antes de sair-. Eu sou a presidente da torre de marfim.
-Nunca percebi que permanecesse ali. Quero que me deixe a par da investigao. 
-Farei isso -com dificuldade tirou a saia e, sentindo-se culpada, deixou-a no solo-. Diga a mame e a papai, se falar com eles antes de mim, que tudo est sob controle. 
No o aborrecerei com os detalhes financeiros... 
-Lhe agradeo. 
Sorriu. Boyd carecia de pacincia para a contabilidade ou grficos. 
-Mas estou a ponto de adicionar outra pluma atraente ao bon de Indstrias Fletcher. 
-Com roupa de baixo? 
-Lingerie, querido -um pouco cambaleante, abotoou um suti negro sem alas-. A roupa de baixo  pode se comprar num supermercado. 
-Sim. Bom, vamos dizer que , num ponto de vista pessoal, Cilla e eu gostamos muito das amostras que nos mandou. Em particular gostei daquela coisa vermelha com os 
coraes. 
-Imaginei -entrou no vestido e o subiu at os quadris-. Estando to prximo o dia dos Namorados, deveria pensar em  lhe comprar o conjunto de peignoir.
-Coloque na minha conta. Quero que tenha cuidado, Nat. 
- minha inteno. Com um pouco de sorte, verei vocs no prximo ms. Irei procurar locais em Denver. 
-Seu quarto sempre est preparado. E ns tambm estamos. Amo voc. 
-Eu tambm. Adeus. 
Deixou o telefone na cama e pde terminar de colocar o vestido. Ao virar-se para o espelho, teve que reconhecer que no era precisamente adequado para acalmar os 
nimos pela forma com que caa por seus ombros e descia pela curva de seus seios. 
 Reprimida?  Agitou o cabelo.  Isto vai lhe ensinar uma lio . 
O telefone voltou a soar e soltou uma praga. Escutou a primeira chamada e pegou a escova. Mas ao terceiro telefonema, rendeu-se e atendeu. 
-Al? -s uma respirao, rpida, e um riso fraco-. Oi? H algum a? 
-Meia-noite. 
-Que? -distrada, foi at a cmoda para escolher as jias adequadas-. Sinto muito, no entendi. 
-Meia-noite. A hora das bruxas. Espere e ver. 
Quando a comunicao se cortou, deixou o telefone com um movimento de cabea. Tarados. 
-Use a secretria eletrnica, Natalie -se ordenou-. Para isso est ali. 
Uma olhada no relgio a fez voltar a praguejar. Esqueceu o telefonema enquanto escovava o cabelo a toda velocidade. Negava-se a chegar tarde. 


Capitulo 4


Natalie chegou a Chez Robert s oito em ponto. O restaurante francs, com suas paredes com motivos florais e espaos iluminados pela luz das velas, era um de seus 
favoritos desde que se mudara para Urbana. Nada mais que entrar e relaxava. Acabava de deixar o casaco no armrio quando recebeu a saudao do maitre. Beijou-lhe 
a mo e ofereceu um sorriso radiante. 
-Ah, mademoiselle Fletcher...  um prazer, como sempre. No sabia que esta noite iria jantar conosco. 
-Estou  com um acompanhante, Andr. O senhor Piasecki. 
-Pi... -com o cenho franzido, estudou o livro de reservas enquanto mentalmente repassava o nome-. Ah, sim, mesa para dois s oito. Pizekee. 
 -Muito perto - murmurou Natalie.
-Seu acompanhante ainda no chegou, mademoiselle. Permita que a acompanhe a sua mesa -com uns arranjos rpidos e eficientes, Andr mudou a reserva de Ryan para adapt-la 
aos gostos de sua cliente favorita, tirando-a do centro para  um lugar mais calmo. 
-Obrigada, Andr - sentou-se com um suspiro. Sob a mesa tirou os sapatos. 
- um prazer, como sempre. Deseja beber algo enquanto espera? 
-Uma taa de champanhe, obrigada. O de costume. 
-Certamente. De imediato. Mademoiselle, se me perdoa a presuno, hoje a lagosta Robert est... -beijou os dedos. 
-Confiarei no seu gosto. 
Enquanto aguardava, tirou sua agenda e comeou a fazer anotaes para os compromissos do dia seguinte. Estava quase no fim do champanhe quando Ry se aproximou da 
mesa. 
-Ainda bem que no sou um incndio - disse, sem se incomodar em erguer os olhos. 
-Jamais chego tarde a um - sentou e dedicaram um momento a se avaliarem.
<< Pois ento ele tem uma roupa , pensou Natalie.  E no lhe cai mal . Jaqueta escura, camisa branca engomada, gravata de uma cinza sutil. Ainda que no tivesse 
conseguido domesticar o cabelo, mostrava um aspecto muito mais clssico do que tinha esperado dele. 
- Uso para os funerais -comentou Ry, captando no mesmo instante o que ela pensava. 
-Bom -ergueu uma sobrancelha-, isso marca o tom da noite, no? 
-Voc escolheu o local - recordou. Olhou ao redor.  Classe sem ostentao , pensou.  Um pouco carregado.... Justo o que tinha esperado-. Como  a comida? 
-Excelente. 
-Mademoiselle Fletcher -Robert em pessoa, pequeno, rechonchudo e com smoking, aproximou-se da mesa para beijar a mo de Natalie-. Bienvenue... -comeou. 
Ry se recostou na cadeira, tirou um cigarro e os observou bater um papo em francs. Ela falava como uma nativa, algo que no o surpreendeu. 
-Du Champagne pour mademoiselle - ordenou Robert ao garom-. Et pour vous, monsieur?
-Cerveja. Americana, se tiver. 
-Certamente -regressou  cozinha para falar com o chef. 
-Bem, suponho que, com isso deixou claro o que pretendia -comentou ele. 
-Perdo? 
-Que viessemos num elegante restaurante francs, onde o proprietrio lhe beija os dedos e pergunta por sua famlia. 
-No sei do que... -franziu o cenho ao recolher o copo-. Como sabe que perguntou por minha famlia? 
-Minha av  franco-canadense. Provavelmente falo o idioma to bem como voc, ainda que com um acento menos elegante -expeliu a fumaa e sorriu-. No a considerava 
uma esnobe, Natalie. 
-Claro que no sou -ofendida, deixou a taa e ficou rgida. Mas quando ele continuou sorrindo, sentiu-se um pouco culpada-. Talvez quisesse incomod-lo um pouco 
-suspirou e se rendeu-. Muito. Irritou-me. 
-Fiz algo mais do que isso -inclinou a cabea e a estudou. 
Parecia algo pelo que um homem poderia suplicar. Pele branca dentro de um vestido negro, algumas poucas jias, cabelo dourado emoldurando o rosto. Olhos verdes, 
grandes e mal humorados.  Sim , decidiu, um homem suplicaria. 
-Algum problema? -inquiriu ela, nervosa ante seu escrutnio. 
-No, nada.  Escolheu esse vestido para me incomodar? 
-Sim. 
-Est funcionando -pegou o menu-. Como  a carne aqui? 
 Relaxa , ordenou-se Natalie.   evidente que est tentando deix-la louca . 
-No h melhor na cidade. Ainda que geralmente eu prefira o pescado -estudou o menu com uma careta. 
A noite no ia como ela tinha planejado. No s a tinha descoberto, como tambm tinha investido na situao para que ficasse como uma tola.  Volte a atacar e tire 
o melhor de uma m situao . Depois de pedir, respirou fundo e adicionou: 
-Suponho que, j que nos encontramos aqui, poderamos estabelecer uma trgua. 
-Estvamos brigando? 
-Vamos tentar ter um jantar agradvel -voltou a erguer a taa de champanhe e bebeu. Apesar de tudo, era uma mulher experiente em negociaes e diplomacia-. Comecemos 
com o bvio. Seu nome  irlands e seu sobrenome polaco. 
-Me irlandesa, pai polaco. 
-E uma av franco-canadense. 
-Por parte de minha me. Minha outra av  escocesa. 
-O que o converte... 
-Num rapaz autenticamente americano. Tem mos elegantes -tomou uma e a surpreendeu acariciando-lhe os dedos-. Encaixam com seu nome. Alta estirpe e classe. 
-Bom -depois de liber-la, pigarreou, prestando excessiva ateno a um pozinho dentro de uma cesta sobre a mesa -. Comentou que era bombeiro de terceira gerao. 
-A deixo nervosa quando a toco? 
-Sim. Vamos tentar manter isso bem simples.
-Por que?
Como no tinha resposta para isso, suspirou aliviada quando trouxeram os primeiros pratos. 
-Estou certa que sempre quis ser bombeiro. 
 De acordo , decidiu ele, pelo momento podiam ir  velocidade que ela queria. 
-Claro. Praticamente cresci no quartel dezenove, onde trabalhava meu pai. 
-Imagino que teve presso familiar. 
-No. E voc? 
-Eu? 
-A tradio Fletcher. Negcios importantes, torres corporativas -ergueu uma sobrancelha-. Presso familiar? 
-Muita -sorriu-. Cruel, inflexvel, decidida. E tuda de minha parte. Sempre pensamos que seria meu irmo Boyd quem tomaria as rdeas do negcio. Tanto ele como eu 
tnhamos idias diferentes a respeito. Ele se decidiu por um distintivo e um arma e eu importunei  meus pais at que me aceitaram como sua herdeira. 
-Tinham objees? 
-Na realidade, no. No demoraram muito em perceber que eu falava srio. Que era capaz. Adoro os negcios, a burocracia, as reunies. E esta nova empresa  toda 
minha. 
-Seu catlogo fez sucesso na corporao. 
-Mesmo? -perguntou divertida.
 -Muitos homens tm mulheres e noivas. Apenas a ajudei a ter mais pedidos. 
- muito generoso -o estudou acima da borda da taa-. O que me diz de voc? Vai fazer algum pedido? 
-No tenho mulher, nem noiva. At o momento. 
-Mas teve esposa. 
- Durante pouco tempo. 
-Desculpe-me. Estou me intrometendo em sua vida. 
-No tem problema - encolheu os ombros e terminou a cerveja-.  algo que ficou para trs. Terminou faz quase dez anos. Suponho que poderia dizer que o uniforme a 
cativou, mas depois decidiu que no gostava das horas que passava enfiado nele. 
-Filhos? 
-No - lamentava e se perguntava se o lamentaria sempre-. S estivemos juntos alguns anos. Depois se foi com um encanador -estendeu a mo e passou as costas de sua 
mo pela lateral de seu pescoo, pela curva de seu ombro-. Comeo a pensar que  gosto dos seus ombros tanto quanto de suas pernas -cravou os olhos no seus-. talvez 
seja todo o pacote. 
- um elogio fascinante -no cedeu ao impulso de se afastar, mas sim passou do champanhe para a gua. De repente tinha a boca ressecada-. Mas, no acredita que as 
circunstncias atuais requerem um verdadeiro distanciamento? 
-No. Se acreditasse que voc tivesse algo a ver com o incndio,  possvel. Mas, tal como est a situao, posso realizar meu trabalho  perfeio e ainda me perguntar 
como seria fazer amor com voc. 
O pulso de Natalie se acelerou. Empregou o tempo enquanto serviam os pratos principais para apazigu-lo.
-Preferiria que se concentrasse no primeiro. De fato, se pudesse me colocar a par...
-Parece um desperdcio falar disso aqui -mas encolheu de ombros-. O bsico  que se trata de um incndio provocado. O motivo poderia ser a vingana, o dinheiro, 
o vandalismo ou uma destruio caprichosa. 
-Um piromaniaco-preferia isso, j que era algo menos pessoal. - Como  que ele age?
-Primeiro, no cair em preconceitos. Muitas vezes as pessoas, e os meios, pem-se a gritar piromanaco>> sempre que se produzem uns incndios. Ainda que paream 
relacionados, nem sempre  assim. 
-Com freqncia sim. 
-E com freqncia  algo simples. Algum queima uma dzia de carros porque est aborrecido por ter comprado uma banheira. 
-De maneira que no se pode tirar concluses precipitadas. 
-Exato.
-E se for o caso de ser algum louco? 
-Os psiquiatras no deixam de procurar as causas. 
-Trabalha com eles? 
-Costumam entrar em cena quando se captura o indviduo. Mas isso depois de vrios incndios, e vrios meses de investigao. -Talvez culpem sua me porque os protegeu 
demais. Ou a seu pai, porque no lhes deu ateno suficiente. J sabe como . 
-No tem em muito alta estima  psiquiatria. 
-No disse isso. Mas no gosto de colocar a responsabilidade de um ato nas costas de outra pessoa. 
-Agora fala como meu irmo. 
-Sem dvida  um bom policial. 
-Como investigador, no gostaria de conhecer a psicologia do piromanaco?
-Quer mesmo que entremos nesse assunto? 
- interessante. Em especial agora. 
-Certo. Uma lio breve. Pode dividir aos incendirios em quatro grupos. Os mentalmente doentes, os psicticos, os neurticos e os socipatas. Quase sempre isso 
se sobrepe, mas os enquadram muito bem. O neurtico, o psiconeurtico,  o piromanaco. 
-No so todos? 
-No. O verdadeiro piromanaco  muito mais raro do que a gente acredita. Trata-se de uma compulso incontrolvel. Tem que acender o fogo. Quando domina a necessidade, 
atua, sem importar o lugar nem o momento. No passa por sua cabea ocultar seu rasto ou escapar, razo pela qual quase sempre so capturados com facilidade. 
-Pensava que  pironamaco  era um termo mais geral -passou o cabelo por trs da orelha, mas Ry se adinatou ao gesto e deixou que seus dedos ficassem ali por alguns 
segundos. 
-Gosto de ver seu rosto quando falo com voc -manteve sua mo sobre a dela enquanto a colocava sobre a mesa-. Gosto de toc-la enquanto conversamos.
O silncio pairou no ar durante dez segundos. 
-No est conversando -assinalou ela. 
-As vezes gosto de olhar. Venha aqui. 
Natalie reconheceu a luz nos olhos dele, reconheceu sua prpria reao. Propositadamente, puxou sua mo. 
-No.  um homem perigoso, inspetor. 
-Obrigado. Por que no vem para casa comigo, Natalie? 
-E tambm bastante direto -suspirou. 
-Uma mulher como voc pode receber poesia e seduo quando quiser -ele no as usava e no acreditava nelas -. Talvez deseje provar algo mais bsico. 
-No tenho dvida que seria assim. -concordou. -Acredito que um caf cairia bem agora. 
-No me respondeu -chamou o garom. 
-No. E no -esperou at que recolhessem a mesa e pediram o caf-. Apesar de existir uma verdadeira atrao bsica, me parece que seria pouco inteligente seguir 
adiante. Ambos estamos comprometidos com nossas carreiras, somos opostos em personalidade e estilo de vida. Ainda que nossa relao fosse breve e abrasiva, creio 
que  evidente que no temos nada em comum. Somos, como se poderia dizer nos negcios, um mal investimento. 
Ele a estudou um minuto sem dizer nada. 
-Tem sentido. 
Os msculos de seu estmago relaxaram. E chegou a sorrir levantando a xcara de caf.
-Bem, ento estamos de acordo... 
-No afirmei tal coisa - a cortou-. Disse que tinha sentido -acendeu um cigarro sem deixar de olh-la atravs da chama-. Tenho estado pensando em voc, Natalie. 
E tenho que ser sincero em dizer que no gosto muito do modo que me faz sentir. Me distrai e me irrita. 
-Fico contente que tenhamos esclarecido o assunto -replicou com frieza.
-Deus sabe que minhas entranhas retorcem quando a ouo falar dessa maneira. De duquesa para plebeu -moveu a cabea e tragou o cigarro-. Devo possuir uma faceta perversa. 
E de todo jeito, no gosto. E no estou muito certo que voc tambm goste -semicerrou os olhos-. Mas jamais desejei tanto algum em minha maldita vida.  um problema. 
-Teu problema -conseguiu balbuciar. 
-Nosso. Tenho fama de ser tenaz. 
Ela depositou a xcara com cuidado sobre a mesa antes que esta escorregasse entre seus dedos trmulos.
-Pensei que um simples no bastaria, Ry. 
-Eu tambm -e encolheu os ombros-. Entenda. No fui capaz de tir-la de minha mente desde que a vi chegando no local daquele incncio. Cometi um erro ao beij-la 
esta tarde. Imaginei que, quando o fizesse, se acabaria. Caso encerrado - moveu-se com tanta agilidade que ela mal pde piscar antes que ele lhe tomasse os lbios 
com dureza. Aturdida, apoiou uma mo em seu ombro, mas foi incapaz de afast-lo ao ver-se dominada por uma excitao sem tamanho-. Estava errado -se afastou-. O 
caso no est encerrado, e esse  nosso problema. 
-Sim -soltou o ar com um gesto trmulo. Nada do que j havia sentido podia superar a reao instantnea e primitiva que ele provocava em seu corpo. Ele tocava e 
ela o desejava. Assim, era simples e aterrorizador. Mas seu senso comum era sua nica defesa-. No vai funcionar.  ridculo pensar que pode acontecer. No estou 
preparada para ter uma aventura s por uma luxria animal bsica. 
-Viu? Temos algo em comum -apesar do beijo o ter colocado em chamas ele sorriu brejeiro - A luxria. 
Rindo, Natalie afastou o cabelo do rosto. 
-Bem, preciso me afastar de voc algum tempo para analisar as opes. 
-No  um acordo de negcios, Senhorita Fletcher. - Olhou-a outra vez e desejou dispor de distncia para poder pensar com clareza. 
-Jamais tomo uma deciso sem pensar nos resultados. 
-Benefcios e perdas? 
-Pode se chamar assim -reconheceu com cautela-. Poderia qualific-lo de risco e recompensa. As relaes ntimas nunca foram meu ponto forte. Por escolha prpria. 
Se vou ter uma com voc, sem importar quo breve seja, tambm ser por minha prpria escolha. 
-Parece justo. Quer que eu redija um contrato? 
-No seja mordaz, Ry -ento, j que descobriu que aliviava parte de sua tenso irrit-lo, sorriu-. Mas garanto que darei toda a minha ateno a esse assunto -apoiou 
o queixo na mo-.  muito atraente, de um modo rude e irritante. 
-Muito obrigado -deu uma tragada no cigarro. 
-No,  srio - a alegrou saber que podia aborrec-lo-. Essa covinha no queixo, seu rosto bem delineado e jovem, os olhos escuros e sensuais -sorriu-. E todo esse 
cabelo to pouco dcil. O corpo rgido, a atitude rude. 
-O que pretende, Natalie? -impaciente, apagou o cigarro. 
-Fazer voc provar um pouco de seu prprio remdio. Sim, forma um pacote atraente. No foi essa a palavra que empregou?  perigoso e dinmico. Como Nmesis. 
-Tenha pacincia - rebateu com uma careta. 
-Srio -riu divertida, um tom clido-. H muitas semelhanas entre o misterioso justiceiro de Urbana e voc. Os dois do a impresso de ter seus prprios objetivos. 
Um luta contra o crime, aparecendo e desvanecendo-se como fumaa. Uma conexo interessante entre os dois. Inclusive poderia perguntar-me se no serias ele... salvo 
que Nmesis  uma figura romntica. E a, inspetor, vocs esto mais distante do que o plo norte e sul -jogou o cabelo para atrs e riu-. Acredito que o deixei 
sem palavras. Quem imaginaria que seria to fcil ganhar um ponto?
Mas o jogo no tinha terminado. Tomou seu queixo entre os dedos e a imobilizou. 
-Acredito que posso sobreviver sendo tratado como um objeto sexual, mas ter que prometer me respeitar na manh seguinte. 
-No. 
- uma mulher dura, Senhorita Fletcher. Certo, esquea o respeito. E o temor?
-Pensarei. Desde que chegue a ser aplicvel. O que acha de pedirmos a conta?  tarde. 
Quando a trouxeram com um leve ar de desculpa, como costumava ser frequente nesse tipo de estabelecimentos, Natalie quis recolh-la de forma automtica. Ele afastou 
sua mo. 
-Ry, no pretendia que pagasse a conta -aturdida, viu-o pegar o carto de crdito. Sabia muito bem quanto custava uma refeio no Chez Robert, e tinha uma boa idia 
do salrio que recebia um servidor pblico-. Estou falando srio. Foi minha idia de vir aqui.
-Cale-se, Natalie -calculou a gorjeta e assinou o extrato. 
-Agora me sinto culpada. Maldio, ns dois sabemos que escolhi este restaurante para esfregar na sua cara. Ao menos me deixe pagar a minha metade.
-No -guardou a carteira, levantou e lhe ofereceu a mo-. No se preocupe -comentou com secura-. Ainda poderei pagar o aluguel este ms. Provavelmente. 
- obstinado. 
-Onde est a ficha para o armrio? 
 Ego masculino , pensou aborrecida enquanto a entregava. Despediu-se de Andr e Robert antes  que ele a ajudasse a pr-se o casaco. 
-Precisa que eu a leve? -perguntou Ry. 
-No, trouxe meu carro. 
-Bem. Eu no trouxe o meu. Poder  me levar para casa. Ao chegar a rua o olhou com suspeita por cima do ombro.
-Como se trata de uma manobra, j vou lhe dizer que no penso em cair nela. 
-Certo. Tomarei um txi -estudou a rua-. Se  que encontrarei um.  uma noite fria -adicionou-. Parece que vai nevar. 
-O carro est no estacionamento -suspirou-. Onde o levo? 
- Vinte e duas, entre a Stima e a Oitava. 
-Fantstico -no podia estar mais longe de seu caminho-. Primeiro tenho de parar na loja. 
-Que loja? -rodeou-lhe a cintura com um brao, tanto por prazer como para proteg-la do frio. 
-A minha. Colocaram um novo carpete hoje, e no pude v-lo antes do jantar. Como fica de passagem, bem posso faz-lo agora. 
-No sabia que as executivas vistoriavam os carpetes a meia-noite. 
-Esta o faz -sorriu com doura-. Mas se para voc representa um aborrecimento, o deixarei na parada do nibus. 
-Obrigado de qualquer jeito -esperou enquanto abria o carro-. J tem alguma mercadoria? 
-Aproximadamente  vinte por cento do que queremos para a inaugurao.
- Deixe-me dar uma olhada. 
-Esperava que dissesse isso- subiu no carro. 
No ficou surpreso pela direo impecvel. Pelo que podia observar, Natalie Fletcher  fazia tudo com perfeio. O fato de que a pudesse surpreender, que a uma palavra 
adequada, um olhar determinado no momento adequado pudessem ruboriz-la,  s a fazia humana. E absolutamente atraente. 
-Sempre viveu em Urbana? -perguntou ela, baixando o volume da rdio. 
-Sim. Gosto daqui.
-Eu tambm- o movimento agradava, o rudo e a multido da cidade-. Faz anos que temos estabelecimentos aqui, certamente, mas nunca tinha morado em Urbana. 
-Onde vivia? 
-Principalmente em Colorado Springs. Ali temos nossa base, o lar e a empresa. Gosto do Leste -as ruas estavam escuras e o vento soprava entre os desfiladeiros formados 
pelos edifcios-. Gosto das cidades do Leste, o modo em que as pessoas vivem uma em cima da outra e vo a todos lados com pressa. 
-Nenhum comentrio sobre o excesso de populao e os nveis de delinquncia? 
-Indstrias Fletcher se fundaram em cima do negcio imobilirio. Quanto mais gente tiver, mais casas sero necessrias. E quanto  delinquncia... - encolheu os 
ombros-. Temos um departamento de polcia esforado. E  Nmesis. 
-Vejo que tem interesse nele. 
-E quem no tem? Alm disso, como irm de um capito de polcia, devo adicionar que no aprovo que cidados civis levem a cabo um trabalho policial. 
-Por que no? Parece que o faz bem. Eu no me importaria de t-lo do meu lado -franziu o cenho ao deter-se diante de um semforo. As ruas se achavam quase vazias-. 
Faz muitos trajetos como esse sozinha? 
-Quando  necessrio. 
-Por que no tem um motorista? 
-Porque gosto de dirigir -o olhou quando a luz ficou verde-. No vai me dar um sermo tpico do que pode acontecer com uma mulher que dirige sozinha, alto da noite, 
na cidade? 
-Nem tudo so museus e restaurantes franceses. 
-Ry, sou adulta. Tenho estado sozinha em Paris, Bangkok, Londres e Bonn, entre outras cidades. Acredito que posso me cuidar em urbana. 
-Os policiais, e seu amigo Nmesis, no podem estar em todas partes -assinalou. 
-Qualquer mulher que tenha um irmo mais velho sabe como pr um homem de joelhos -manifestou-. E tomei aulas de defesa pessoal.
-Sem dvida isso far que todos os delinquentes da cidade comeem a tremer de medo.
Sem dar ateno ao sarcasmo, deteve-se junto a calada e desligou o motor. 
-Chegamos -o orgulho a invadiu quanto ficou na frente  do local. Seu local-. O que acha? 
Era fabuloso e feminino, como sua proprietria. Tudo era mrmore e vidro, em sua ampla vitrine tinha pintado em letras douradas Lady's Choice. A porta primeiramente 
era de cristal com rosas talhadas que brilhavam a luz das lmpadas. 
 Bonito , pensou.  Pouco prtico. Caro . 
-Atraente. 
-Ser nossa loja principal, queria que fosse impressionante, com classe e... -passou um dedo pelas rosas talhadas -... sutilmente ertico. 
Abriu os trancas.  Ao menos eram robustas , notou Ry com certa aprovao.  Slidas . No interior, Natalie se deteve para introduzir o cdigo no sistema de segurana 
informatizado. Acendeu as luzes e voltou para fechar a porta primeiro.
-Perfeito -assentiu satisfeita ao ver o carpete de cor malva. As paredes eram claras, recm pintadas. Num canto tinha um sof e uma mesinha de ch para convidar 
clientes a relaxar e a decidir quais conjuntos levariam. Tinha aqueles manequins que podia imaginar cheios de sedas e ligas em tons leves, cores atrevidas, vibrantes, 
pastis e branca.
-A maior parte da mercadoria ainda no est acabada. Minha diretora e seu pessoal se ocuparo disso esta semana. E da decorao da vitrine. Temos um incrvel conjunto 
de peignoir de brocado. Ser o tema central. 
Ry se dirigiu para o manequim sem rosto e tocou uma camisola de cor jade  altura do joelho.  A mesma cor que os olhos de Natalie , pensou. 
-Quanto cobra por algo assim? 
-Mmm... -examinou a pea. Seda, com prolas no corpete-. Provavelmente cento cinquenta. 
-Cento cinquenta? Dlares? -moveu a cabea desagradado. -Um bom puxo basta para transforma-lo em um trapo. 
-Nossa mercadoria  da mais alta qualidade -rebateu -. Certamente, agentar perfeitamente em uso normal. 
-Doura, uma coisa assim no est desenhada para algo normal -arqueou uma sobrancelha. -Parece teu feitio. 
-Continue sonhando, Piasecki -colocou o casaco sobre o sof. -O objetivo da boa lingerie  o estilo, a textura. O brilho da seda, o volume do encaixe. A nossa est 
desenhada para conseguir que uma mulher se sinta atraente e satisfeita consigo mesma... mimada. 
-Eu pensava que a idia era fazer que um homem suplicasse. 
-No seria nada mau. D uma olhada, se quiser. Aproveitarei para ir l em cima verificar um par de faturas. No demorarei mais do que cinco minutos. 
-Te acompanharei. Tem um escritrio l em cima? -perguntou ao dirigir-se para uma escada branca de caracol. 
-O da diretora. Ali teremos mais material e os provadores. Assim estabeleceremos uma zona separada para noivas. Roupa ntima especializada em vestidos nupciais, 
lingerie de lua de mel. Quando estivermos plenamente operativos... -calou-se quando ele a pegou pelo brao. 
-Silncio. 
-Que...? 
-Silncio -repetiu. Ainda no o ouvia, mas podia cheir-lo. Um leve aroma penetrante no ar. -Tem extintores? 
-Claro. No armazm, e l em cima - soltou sua mo-. Que  isto? Vai tentar multar-me por no cumprir o cdigo de segurana? 
-V embora -deixando-a boquiaberta, correu para a parte de trs do local. Teve que reconhecer que estava tudo organizado. Localizou um extintor, com tudo em ordem, 
diante do armazm lotado. 
- O que est fazendo com isso? -exigiu ao v-lo regressar. 
-Te disse para sair. H fogo. 
-Um... -Ry j ia pela metade das escadas quando conseguiu correr para alcan-lo-.  impossvel. Como voc sabe? No h nada... 
-Gasolina. Fumaa. 
Ia dizer-lhe que imaginava coisas. Mas nesse momento pde cheir-lo. 
- Ry... 
Ele amaldioou e separou com o p um rastro de papis e fsforos. Ainda no estavam colados, mas viu para onde conduziam. A reluzente porta branca estava fechada 
e a fumaa saa por baixo. 
Tateou a porta e sentiu o calor que empurrava do outro lado. Girou a cabea e seus olhos irradiaram frieza. 
-Saia. -repetiu. 
Um grito se estrangulou na garganta de Natalie ao v-lo abrir a porta com um pontap. O fogo saltou para fora. Ry foi a seu encontro. 



Capitulo 5



Era como um sonho. Um pesadelo. Ali de p, paralisada, enquanto as chamas lambiam o marco da porta e Ry entrava para lutar com elas. No instante em que desapareceu 
na fumaa e no fogo, o corao pareceu deter-se. Depois o pnico que o tinha parado fez que se acelerasse . A cabea lhe palpitou com o eco de cem pulsaes ao lanar-se 
atrs dele. 
Pde v-lo apagar o fogo que deslizava pelo solo e danava alegre na base das paredes. A fumaa girava ao seu redor, irritava-lhe os olhos, queimava-lhe os pulmes. 
Como um guerreiro, Ry o desafiou e o enfrentou. Horrorizada, viu como o fogo lhe replicava e subia por seu brao. 
Nesse instante, Natalie gritou e saltou para apagar o fogo que saa pelas costas de Ry. Este girou, furioso por encontr-la ali. 
-Voc estava se queimando -mal pde murmurar -. Pelo amor de Deus, Ry! Deixe isso para l. 
- Fique longe.
Com um movimento em arco, atacou as chamas que tinham comeado a subir pela escrivaninha central. Soube que os papis que estavam sobre sua superfcie alimentariam 
o fogo. Voltou-se para centrar-se nos rodaps que comeavam a arder. 
-Tome - colocou o extintor nas mos dela. O fogo principal estava apagado e os menores que ainda existiam eram poucos.  Quase tinha conseguido. Pelo terror que viu 
em seus olhos, compreendeu que ela no tinha se dado conta de que a besta estava a ponto de ser derrotada-. Use-o -ordenou, e de uma arrancada chegou s cortinas 
incendiadas e as arrancou. Sabia que depois sentiria dor, mas nesse momento enfrentou o fogo cara a cara. 
Quando as cortinas enegrecidas no eram mais do que trapos inofensivos, voltou a arrebatar o extintor das mos intumescidas de Natalie e terminou com o que ficara. 
-No teve muito do que alimentar-se -mas sua jaqueta ainda soltava fumaa. Tirou-a e a jogou ao solo-. No teria chegado to longe em to curto espao de tempo por 
no ter tantas coisas inflamveis aqui -deixou o extintor quase vazio-. Acabou-se - no obstante, realizou uma ltima comprovao e com os ps remexeu entre as cortinas 
estragadas, a procura de uma chispa traioeira. -Acabou -repetiu, empurrando-a para a porta -Vamos descer.
 Natalie travou-se ao ponto de cair de joelhos. Um violento ataque de tosse quase a paralisa. Sentiu uma tontura e a cabea lhe deu voltas. Mareada, apoiou uma mo 
na parede e lutou por respirar. 
-Maldita seja, Natalie -com um movimento a pegou em seus braos. Transportou-a atravs da fumaa e pela elegante escada-. Disse-lhe para que fosse embora. Ser que 
nunca escuta?

Tentou falar mas s pde tossir debilmente. Era como se boiasse. Inclusive quando ele a depositou sobre as almofadas frescas do sof, a cabea no deixou de dar-lhe 
voltas. 
Ry a amaldioava, mas sua voz parecia longnqua, inofensiva. Pensou que o que  precisava era respirar fundo uma vez para aliviar a queimao da garganta.
Viu o modo como os seus olhos lhe focalizavam. Sacudiu-a com fora e a obrigou a colocar a cabea entre os joelhos. 
-No se atreva a desmaiar - com a mo em sua nuca para manter firme sua cabea-. Fique assim, respire devagar. Pode me ouvir? 
Ela assentiu com um gesto dbil. Deixou-a, e quando o ar frio e limpo bateu nas bochechas, tremeu. Depois de abrir a porta, Ry regressou e comeou a esfregar-lhe 
as costas. 
Tinha-lhe dado um bom susto. De maneira que fez o que lhe surgiu naturalmente para combater o medo... gritar-lhe. 
-Foi uma estupidez o que fizeste! Teve muita sorte de poder sair daqui com o estmago revolto e s um pouco de fumaa nos pulmes. Disse-lhe para que fosse embora. 
-Voc tinha entrado -esboou uma careta quando as palavras atormentaram sua garganta irritada. 
-Eu estou treinado. Voc no -a obrigou a erguer-se para vistori-la. Tinha no rosto uma palidez mortal embaixo das manchas de fuligem, mas voltava a mostrar os 
olhos livres do terror-. Sente nuseas? -perguntou com um tom cortante. 
-No -apoiou as palmas das mos sobre os olhos lacrimejantes-. Agora no. 
-Enjo? 
-No. 
Tinha a voz spera, tensa; Ry imaginou que sentiria a garganta como se lhe tivessem introduzido um ferro em brasa. 
-H gua por aqui? Te trarei um pouco. 
-Estou bem -baixou as mos e apoiou a cabea no respaldo. Ao passar o enjoo, comeava a ver-se dominada pelo medo-. Aconteceu to depressa... Est seguro de que 
apagou o fogo? 
- meu trabalho estar seguro -com o cenho franzido, tomou-lhe o queixo e a estudou-. Vou leva-la ao hospital. 
-No preciso ir a um maldito hospital -de mau humor, empurrou-o. Depois ficou boquiaberta ao ver as mos dele-. Ry, tuas mos! - segurou-o pelos pulsos - Voc se 
queimou! 
Ele baixou a vista e viu algumas bolhas. 
-Nada srio. 
-Vi sua jaqueta arder -a reao lhe provocou arrepios. 
-Era uma jaqueta velha. Pra -ordenou quando as lgrimas inundaram os olhos dela-. No chore, -se havia algo que odiasse mais do que o fogo, eram as lgrimas de 
uma mulher. Amaldioou e lhe achatou a boca com os lbios, esperando deter dessa maneira o pranto. 
Natalie o rodeou com os braos, surpreendendo-o com sua fora e urgncia. Mas sua boca tremia sob a dele, o que fez que Ry suavizasse o beijo.

-Melhor? -murmurou enquanto lhe acariciava o cabelo. 
-Estou bem -repetiu, obrigando-se a acreditar. -No armazm deve de ter uma caixa de primeiros socorros. Tem que colocar algo nas mos. 
-No  nada... -comeou, mas ela o empurrou e se ps de p. 
-Tenho que fazer algo. Maldito seja, tenho que fazer algo.  disse  marchando de um lado para o outro. 
 Desconcertado, Ry se ergueu e foi fechar a porta. Precisava subir para ventilar o escritrio, mas a queria longe antes de empreender uma investigao preliminar. 
Afrouxou a gravata e  abriu o colarinho da camisa. 
-Aqui h um ungento -mais serena, Natalie regressou com a caixa de primeiros socorros. 
-Perfeito -como sabia que o atender a ajudaria, voltou a sentar-se e deixou que brincasse de ser enfermeira. Teve que reconhecer que o blsamo fresco e seus dedos 
gentis no lhe faziam dano algum. 
-Teve sorte que no foi pior. Foi uma loucura entrar naquela sala. 
-De nada -arqueou uma sobrancelha.
Ento ela o olhou. Ry tinha o rosto enegrecido pela fumaa e os olhos vermelhos. 
-Estou agradecida -murmurou. -Muito. Mas eram apenas coisas, Ry. S coisas -desviou a vista, ocupando-se em guardar o tubo de ungento. -Suponho que lhe devo um 
terno novo. 
-Odeio terno -ficou incomodado quando ouviu o soluo de Natalie-. No volte a chorar. - Se realmente quer me agradecer no chore.
-De acordo - esfregou o rosto com as mos-. Estava to assustada. 
- Acabou -pegou sua mo com um movimento firme. -Ficar bem durante uns minutos? Quero ir abrir a janela. A fumaa precisa de uma via de escape. 
-Te acompanharei... 
-No. Fique aqui -se levantou e apoiou uma mo firme sobre seu ombro-. Por favor, fique aqui. 
Deu meia volta e a deixou. Natalie empregou o tempo para serenar-se. E para pensar. Quando ele voltou, estava sentada com as mos juntas no colo. 
-Foi igual ao do armazm, no  verdade? -o olhou-. O modo em que foi preparado. No podemos fingir que se trata de uma coincidncia. 
-Sim -confirmou-. Foi igual. E no, no podemos. Falaremos disso mais tarde. Te levarei para casa. 
-Estou... 
Engoliu as palavras quando ele a ps de p bruscamente.
-Se me disser mais uma vez que est bem, vou te bater. Est enferma, assustada e inalaste fumaa. Vamos fazer o seguinte. Te levarei pra casa. Daremos parte do acontecido 
pelo telefone que tem em seu carro caro. Vai se enfiar na cama e amanh iremos ver um mdico. Uma vez que te d um bom diagnstico, continuaremos de onde paramos. 
-Pra de gritar. 
-No teria que gritar se escutasse -recolheu o casaco dela -Vista-o. 
- minha propriedade. Tenho direito de estar aqui. 
-Bom, pois eu penso o contrrio -a obrigou a introduzir um brao no casaco-. Se voc no gosta, chame os seus advogados e me processe. 
-No h motivo para que adote essa atitude. 
Ele quase soltou um palavro, mas se conteve. Como medida de precauo, respirou fundo. 
-Natalie, estou cansado -falou baixinho, quase razovel-. Tenho que realizar um trabalho aqui, e no poderei faz-lo se voc estiver no meu caminho. Assim peo que 
coopere. Por favor. 
Soube que Ry tinha razo. Girou e recolheu a bolsa. 
-Fique com meu o carro. Farei que o recolham amanh. 
-Te agradeo. 
Lhe entregou as chaves do carro e do local. 
-Amanh passarei por aqui, Ry. 
-Presumi que faria isso -levantou uma mo para passar os dedos pelo maxilar dela-. Eh... tente no se preocupar. Sou o melhor. 
-Isso j me disseram -quase conseguiu sorrir. 


Eram quase oito horas da manh quando o txi a deixou diante da Lady's Choice. Notou, sem surpresa que seu carro se achava diante da entrada, com um cartaz do departamento 
de bombeiros visvel atravs do parabrisa. 
Ao invs de se aborrecer por causa da insgnia, utilizou o jogo de chaves que tinha recolhido essa manh do escritrio e entrou. 
No sentiu cheiro de fumaa, o qual a aliviou. Durante a noite tinha dedicado bastante tempo a preocupar-se e a calcular as possveis perdas se o material que j 
tinha na loja tivesse sido danificado. 
O trreo parecia to impecvel e elegante como na noite anterior. Se Ry lhe desse sinal verde, entraria em contato com sua diretoria e retomaria o negcio. 
Tirou o casaco e as luvas e comeou a subir as escadas. 


Para Ry tinha sido uma noite longa e produtiva. Depois de deixar Natalie, tinha passado pelo quartel de bombeiros para trocar-se e recolher suas ferramentas. Tinha 
trabalhado sozinho a noite toda... tal como preferia. Estava fechando um frasco com provas quando ela entrou. 
-Bom dia, Pernas -agachado entre os restos, nem se deu ao trabalho de erguer a vista.

Com um suspiro, ela estudou a sala. O tapete era uma mancha negra. Da parede tinham cado bordas calcinadas de madeira, que nesse momento jaziam disseminadas pelo 
solo. A elegante escrivaninha estilo rainha Ana aparecia enegrecida e marcada, e as cortinas de encaixe irlands formavam uma pilha de trapos. 
Apesar da janela aberta e do ligeiro vento que fazia entrar um pouco de neve, o ar ainda cheirava fumaa. 
-Por que sempre parece pior no dia seguinte? 
-No est to mau. Precisa apenas de um pouco de pintura e uns retoques. 
-Para voc  fcil dizer isso. 
-Sim -concordou, etiquetando o pote com a prova-. Suponho que sim -nesse momento levantou a vista. Nesse dia Natalie tinha prendido os cabelos. O estilo que ele 
gostava, j que revelava sua nuca e deixava  descoberto seu rosto. O traje que usava era de um prpura real, de estilo militar. Dava a impresso de que estava preparada 
para brigar-. Como voc dormiu? 
-De fato, assombrosamente bem -salvo por um horrvel pesadelo que no queria mencionar-lhe-. E voc? 
Como ainda no tinha se deitado, encolheu os ombros. 
-J chamou o seu agente do seguro? 
-O farei assim que abram -automaticamente sua voz soou fria-. Pensa em entrevistar-me em carter oficial outra vez, inspetor? 
-No creio que seja necessrio, e voc? -a olhou irritado. Comeou a guardar as ferramentas na caixa-. Amanh ter o relatrio pronto. 
-Sinto muito -baixou as plpebras um momento-. No estou irritada com voc, Ry. S estou chateada. 
- justo. 
-Pode...? -calou-se e se voltou ao ouvir som de passos-. Gage -se obrigou a sorrir e alongou as mos quando ele entrou. 
-Me inteirei -com uma rpida olhada assimilou os danos-. Pensei em vir para saber se tinha algo que pudesse fazer. 
-Obrigado -lhe deu um beijo ligeiro na bochecha antes de voltar-se para Ry. Continuava agachado... e lhe pareceu intrigado, como um animal a ponto de saltar-. Gage 
Guthrie, o inspetor Ryan Piasecki. 
-Ouvi dizer que realiza um bom trabalho. 
Passado um momento, Ry se aprumou e aceitou a mo que Gage lhe ofereceu. 
-Ouvi o mesmo de voc -eficazmente, avaliou a homem enquanto se dirigia a Natalie. -So amigos? 
-Assim . E um pouco mais -fascinada, observou como se os olhos de Ry brilharam-. Se  capaz de seguir a relao, Gage est casado com a irm da mulher de meu irmo. 
-Famlia grande -o fogo se apagou; os ombros de Ry relaxaram. 
-Pode-se dizer dessa maneira -Gage analisou a situao com rapidez e preciso e decidiu levar a cabo uma breve inspeo do inspetor-. Procura o mesmo culpado? 
-No estamos prontos para dar essa informao.
-Leva muito  srio seu posto de oficial -comentou Natalie com secura-. Extraoficialmente -continuou sem prestar ateno  careta de Ry-, parece ser o mesmo. Quando 
chegamos ontem  noite... 
-Estava aqui? -interrompeu Gage, tomando Natalie pelo brao.- Voc? 
-Tinha algumas coisas que queria confirmar. Por sorte -suspirou e olhou o cmodo-. Poderia ter sido bem pior.  que casualmente quem me acompanhava era um bombeiro 
veterano. 
-No tem nada o que fazer sozinha pela cidade, de noite -Gage relaxou levemente. 
-Sim -Ry sacou um cigarro-. Tentei convenc-la. 
-Voc no anda sozinho pela cidade, Gage? De noite? -ela simplesmente arqueou uma sobrancelha. 
- muito diferente - Se ela soubesse , pensou-. E no me venha com um sermo sobre igualdade -continuou antes que ela pudesse falar-. Estou a favor. No lar, no 
trabalho. Mas nas ruas se reduz a um simples sentido comum. Uma mulher  sempre um alvo mais fcil
-Mmm... -Natalie sorriu com gesto agradvel-. E Deborah aceita esse raciocnio? 
-No -sorriu-.  to teimosa como voc -frustrado por estar em outra parte da cidade quando Nat mais precisava, meteu as mos nos bolsos-. Se no posso fazer mais 
nada, permita-me que lhe oferea as instalaes ou o pessoal da Guthrie International. 
-Aceitarei se for necessrio -o olhou esperanosa-. Acredita que poderia utilizar sua influncia para evitar que sua mulher chame  Cilla e meu irmo para contar-lhes 
o que passou? 
-Nem em sonhos -lhe acariciou a face. -Talvez deveria mencionar que a semana passada Deborah falou com Althea que a ps a par do que aconteceu no armazm. 
Cedendo  fadiga, Natalie  esfregou as tmporas. Althea Grayson, a antiga colega de seu irmo no corpo de polcia, encontrava-se num estado avanado de gravidez. 
-Estou rodeada de polciais -murmurou-. No h motivo para preocupar Althea em seu estado. Colt e ela teriam que se concentrar somente em si mesmos. 
- um problema quando h tantas pessoas que te querem bem.  Mantenha-se afastada dos edifcios vazios -adicionou, dando-lhe um beijo-. Encantado de conhec-lo, inspetor. 
-Sim. Nos veremos. 
- De minha parte mande lembranas a Deborah e a Addy -disse Natalie ao acompanhar  Gage  porta-. E deixe de preocupar-se comigo. 
-Farei o primeiro, mas no o segundo. 
-Quem  Addy? -inquiriu Ry ao ouvir que a porta de baixo se fechava por trs de Gage. 
-Mmm? Oh, sua filha -distrada, rodeou um buraco negro do carpete para vistoriar seus arquivos antigos. Foi um pequeno consolo comprovar que se achavam ilesos. -Precisa 
esclarecer isto, Ry. Tem muita gente perdendo o sono. 
-Tem muitas peas pequenas -se dirigiu  janela aberta e apagou o cigarro-. No posso fazer com que isto v mais depressa s para satisfaz-los. Simplesmente siga 
o conselho do seu amigo. Permanea afastada das ruas a noite e fora dos edifcios vazios. 

-No quero conselhos. Quero respostas. Ontem  noite algum entrou aqui e tentou eliminar-me com um incndio. Como e por que? 
-De acordo, Senhorita Fletcher, posso dar-te o como -apoiou o quadril na escrivaninha parcialmente queimada. -Na noite do dia vinte e seis de fevereiro o inspetor 
Piasecki descobriu um incndio em companhia de Natalie Fletcher, a proprietria do edifcio. 
-Ry... -ele levantou uma mo para det-la. 
-Depois de entrar no local, Piasecki e Fletcher subiram ao primeiro andar quando o inspetor detectou o cheiro de combustvel, e fumaa. Piasecki nesse momento ordenou 
a Fletcher que abandonasse o lugar. Uma ordem, poderia adicionar, que ela no cumpriu estpidamente. Ao encontrar um extintor no armazm, Piasecki se dirigiu para 
o fogo, que ardia no escritrio do primeiro andar. Observou mechas de papel, roupas e fsforos. O fogo se extinguiu sem grandes danos. 
-Sou bem consciente dessa seqncia de acontecimentos. 
-Queria um relatrio, e foi isso mesmo que recebeu. O exame dos restos conduziu o pesquisador a crer que o incndio se iniciou aproximadamente a meio metro do outro 
lado da porta, com o emprego de gasolina como catalisador. Nem o inspetor nem a polcia puderam detectar a entrada forada no edifcio. Foi um incndio provocado. 
-Est irritado comigo -respirou fundo. 
-Sim. Estou.  Est me pressionando, Natalie, e a voc mesma tambm. Quer isto bem atado porque preocupa o seu pessoal e porque voc se preocupa em vender umas lingeries 
a tempo. Mas deixa passar por alto um pequeno detalhe e muito importante. 
-No -voltou a pr-se plida e rgida. -Est tentando me assustar. No  difcil somar os elementos e descobrir o fato de que algum est fazendo isso comigo deliberadamente. 
Dois de meus edifcios em duas semanas. No sou tonta, Ry. 
- tonta se no est assustada. Tem um inimigo. Quem? 
-No sei. Caso contrrio, no acredita que j teria lhe revelado? Acaba de me dizer que no foi uma entrada forada. Isso significa que algum que conheo, que trabalha 
para mim, poderia ter entrado para preparar o fogo. 
- um tocha. 
-Perdo? 
-Um profissional -explicou ele-. No muito bom, mas um profissional. Algum contratou um tocha para preparar os incndios. Poderia ser esse mesmo algum, quem o 
deixou entrar, ou descobriu um modo de desligar os seus sistemas de segurana. Mas aqui ele no conseguiu finalizar o trabalho, de maneira que  provvel que volte 
a atacar. 
-Isso me consola -conteve um tremor. -Me consola muito. 
-No quero que se console. Quero que estejas alerta. Quantas pessoas trabalham para voc? 
-Em Lady's Choice? -passou a mo no cabelo.- Creio que umas seiscentas em Urbana. 
-Dispes de uma lista do pessoal? 
-Posso consegu-la. 
-Eu quero. Olha, vou passar os dados pelo computador, para confirmar quantos profissionais temos pela zona que empreguem esta tcnica.  um comeo. 
-Me manter informada? Estarei em meu escritrio quase todo o dia. Minha secretria saber como entrar em contato comigo se eu precisar sair. 
-Por que no tira uma folga? -se ergueu, foi at ela e lhe tomou o rosto entre as mos-. V as  compras, ao cinema. 
-Est brincando? 
-Escute, Natalie -baixou as mos e as meteu nos bolsos-,  h uma pessoa a mais que se preocupa com voc. OK? 
-Creio que sim -murmurou. -Estarei localizvel, Ry. Mas tenho muito trabalho -sorriu numa tentativa por aliviar a atmosfera-. Comeando por mandar uma equipe de 
limpeza e decoradores. 
-No at que eu o autorize. 
-Por que ser que eu sabia que voc ia dizer isso? -resignada, olhou em direo aos arquivos que estavam na parede da esquerda-. Ser que eu poderia levar algumas 
pastas? Faz somente alguns dias que tirei-as do escritrio principal para poder trabalhar aqui. - encolheu os ombros-. Ao menos era isso o que esperava. Mais atrasos 
-murmurou. 
-Sim, adiante. Cuidado onde pisa. 
Observou-a enquanto movia a cabea. No sabia como podia caminhar com tanta fluidez com esses saltos que mais pareciam arranhas-cus. Mas devia reconhecer que lhe 
deixavam as pernas fascinantes.
-Como est as suas mos? -perguntou Natalie enquanto repassava umas pastas. 
-Que? 
-As mos -girou a cabea, e viu onde seu olhar estava focado e sorriu. - Deus, Piasecki, est obsecado.
-Aposto que podem subir at seus ombros -levantou a vista para encontrar os seus olhos. 
-As mos no esto muito ruins, obrigado. -Quando tem hora com o mdico? 
-No preciso ver um mdico -se concentrou nos arquivos-. No gosto. 
-Medrosa. 
- possvel. Tenho a garganta um pouco irritada, isso  tudo. Posso enfrentar isso sem que um mdico me examine. E se pensa em soltar um sermo, eu te replicarei 
com outro sobre a inalao deliberada de fumaa. 
-No disse nada -com uma careta, guardou o cigarro que acabava de pegar-. Terminou? Quero levar essas provas ao laboratrio. 
-Sim. Que as pastas no tenham se queimado me poupa um bom tempo e de problemas. Preciso que Deirdre realize uma auditoria depois que tenhamos resolvido o primeiro 
incidente. Espero que a situao seja o bastante slida para podermos abrir outra sucursal em Denver. 
-Denver? -no pde disfarar a vibrao de seu corao. -.. Pensa em voltar ao Colorado? 
-Mmm... -satisfeita, introduziu as pastas na valise-. Depende. Ainda no penso to longe no futuro. Primeiro devemos fazer que as lojas que j temos decolem. O qual 
no vai acontecer da noite para o dia - passou a ala da valise pelo ombro-. Com isto bastar. 
-Quero v-la - custou-lhe diz-lo; ainda mais reconhec-lo ante si mesmo-. Preciso v-la, Natalie. Longe de tudo isto. 
Com dedos de repente nervosos, ela se ps a brincar com a ala. 
-Neste momento ns dois estamos pressionados, Ry. O mais inteligente seria que ns nos concentrssemos no que precisamos fazer e manter um pouco de distncia pessoal. 
-Seria mais inteligente. 
-Bem -deu um passo para a porta antes de que ele lhe bloqueasse o passo. 
-Quero v-la -repetiu. -E quero  toc-la. E quero muito lev-la para a cama.

O calor se remexeu no interior dela, ameaando acender-se. No parecia importar que as palavras dele fossem speras, diretas e carentes de delicadeza. A poesia e 
as ptalas de rosa a teriam deixado menos vulnervel. 
-Se  o que quer. Preciso estar segura do que eu quero, do que posso manejar. Sempre fui uma pessoa lgica. E voc  bom em remexer essa parte de mim. 
-Esta noite. 
-Tenho de trabalhar at tarde -sentiu que se debilitava, que crescia o anseio-. Espera-me um jantar de trabalho. 
-Esperarei. 
-No sei quando terminarei. Provavelmente no antes da meia-noite. 
-A meia-noite, ento -a encostou contra a parede. 
Natalie comeou a perguntar-se por que resistia. Comeou a fechar os olhos. 
-A meia-noite -repetiu,  espera de que a boca de Ry cobrisse a sua. Querendo prov-la, voar sob ela. Sobressaltada, abriu os olhos-. Oh, Deus. Meia-noite. 
Suas bochechas tinham voltado a empalidecer. Ry ergueu as mos para sustent-la. 
- O que est acontecendo? 
-Meia-noite -repetiu, levando uma mo  testa-. Tinha esquecido. Em nenhum momento me passou pela cabea relacion-lo. Ontem  noite chegamos aqui depois da doze. 
-E? -assentiu sem deixar de observ-la. 
-Enquanto eu me vestia para o jantar, recebi um telefonema. No aguento deixar ele tocando at que a secretria atenda ento atendi.  pausa- Ele disse a meia-noite. 
-Quem? -com os olhos semicerrados, apoiou as duas mos na parede. 
-No sei. No reconheci a voz. Disse... deixa eu pensar -se soltou para sair e caminhar pelo corredor-. Meia-noite. Disse meia-noite. A hora das bruxas. Cuidado, 
ou espera... algo assim -acenou em direo para o carpete queimado-. Devia estar se referindo a isto. 
-Por que diabos no me contou antes? 
-Porque acabo de me lembrar - irritada com ele, virou-se. -Pensei que era o telefonema de algum  engraadinho, assim no prestei ateno e esqueci. Depois, quando 
aconteceu isto, tinha mais coisas na cabea do que o telefonema de um desocupado. Como ia saber que se tratava de uma advertncia, ou uma ameaa? 
Ry sacou o bloco de notas do bolso para escrever as palavras dela. 
-A que horas recebeu o telefonema? 
-Ao redor das sete e meia. Procurava os brincos e estava com pressa porque eu tinha demorado e ia chegar tarde. 
-Ouviu algum rudo de fundo na linha? 
Insegura, esforou-se por recordar. No tinha prestado ateno, s tinha estado pensando em Ry. 
-No notei nenhum. Tinha a voz aguda. Era um homem, disso estou segura, mas se tratava de uma voz um pouco afeminada. Sorriu por entre dentes -recordou. 
-Soava mecnica ou real? -perguntou enquanto anotava. 
-Oh, refere-se a uma fita. No, no parecia uma fita. 
-Seu nmero consta na lista? 
-No -ento compreendeu o significado da pergunta-. No -repetiu devagar. 
-Quero uma lista de todo mundo que o tenha. Todos. 
Natalie se ergueu e se forou a manter a calma. 


-Posso proporcionar uma lista de todo mundo que eu sei que tem. No de quem possa ter obtido por outros meios -desanuviou a garganta dolorida-. Ry, no geral os profissionais 
chamam a suas vtimas antes de um incndio? 
 Guardou o bloco e a olhou nos olhos. 
-At os profissionais podem ser loucos. Levarei  voc ao seu escritrio. 
-No  necessrio.

Se recordou que tinha trabalhado a noite toda e que podia ser paciente. Depois mandou tudo ao inferno. 
-Escute-me, e faa com ateno -fechou os dedos em torno da lapela da jaqueta dela-. Vou lev-la ao seu escritrio. Entendeu? 
-No vejo que... 
-Entendido? -lhe deu um puxo. 
Ela conteve uma maldio. Sabia que seria uma estupidez discutir. 
-Perfeito. Depois vou precisar do meu carro, de maneira que depois de me deixar ter que se virar para ir aonde precisa. 
-Continue escutando -continuou Ry-. At que eu volte para o seu lado, no ir a parte alguma sozinha. 
-Isso  ridculo. Devo dirigir uma empresa. 
-A nenhum lugar sozinha -repetiu-. Caso contrrio, vou chamar  alguns de meus amigos do departamento de polcia de Urbana e farei que se convertam em sua sombra 
-quando abriu a boca para protestar, adiantou-se a ela-. E tenha certeza que posso manter sua pequena loja fechada a todo mundo menos  polcia e aos bombeiros. 
-Isso est soando como uma ameaa .
- uma mulher muito teimosa. Faa que um de seus empregados seja seu motorista hoje, Natalie, ou colocarei uma restrio do departamento de bombeiros na porta desta 
loja durante um par de semanas. 
Ao ver a determinao no rosto dele, compreendeu que podia faz-lo. E que o faria. Por experincia prpria, sabia que era mais inteligente e prtico ceder num pequeno 
ponto de uma negociao com o fim de salvar todo o projeto. 
-De acordo. Arranjarei um motorista para todas as reunies em que eu tenha que sair. Mas quero deixar claro que esse homem est queimando minhas propriedades, Ry, 
no ameaando minha pessoa. 
-Lhe telefonou. Isso  suficiente.

Odiava o fato de que a tivesse assustado. Um controle frreo fez que se ocupasse dos detalhes do escritrio com nimo e eficcia. Ao meio dia tinha preparado uma 
equipe de limpeza,  espera de suas ordens para apresentar-se no local quando Ry lhe desse o sinal verde. Tambm havia se ocupado de um telefonema frentico da sucursal 
de Atlanta e de uma irada de Chicago, e tinha conseguido minimizar o problema com sua famlia em Colorado. 
Impaciente, chamou sua secretria. 
-Maureen, eu precisava desses relatrios a trinta minutos atrs. 
-Sim, Senhorita Fletcher. Mas sistema da Contabilidade est bloqueado. 
-Diga... -conteve as palavras mordazes e se obrigou a acalmar-se-. Diga  eles que se trata de uma prioridade. Obrigada, Maureen. 
Se recostou na cadeira e fechou os olhos. Se queria completar todas as reunies que tinha nesse dia, devia acalmar-se. Devagar, abriu as mos e ordenou a seus msculos 
que relaxassem. 
Quase tinha conseguido quando chamaram  porta. Se ergueu na cadeira no momento em que Melvin colocava a cabea. 
- seguro entrar? 
-Mais ou menos. Entre. 
-Trago presentes -entrou com uma bandeja. 
-Se isso  caf, talvez encontre as foras necessrias para me levantar e encher seu rosto de beijos. 
Ele se ruborizou e riu entre os dentes. 
-No    s caf, como tambm h salada de frango. At voc tem que comer, Natalie. 
-Diga-me isso - levou uma mo ao estmago ao levantar-se para se reunir com ele no sof. -Estou vazia. Voc  um doce, Melvin. 
-E egosta. Tem estado queimando as linhas internas, de maneira que pedi a minha secretria que preparasse isto. Se voc descansa... -brincou com a gravata borboleta 
vermelha-... ns descansamos -ela sentiu o delicioso aroma do caf. -Arrume um tempo enquanto come para contar-me o quanto est ruim as coisas em nossa loja principal. 
-No tanto como poderiam ter estado - tirou os sapatos e recolheu as pernas-. Pelo que pude ver, principalmente foram danos estticos no escritria da diretora. 
No chegou at o material. 
-Graas a Deus. No sei se meu encanto teria funcionado uma segunda vez para convencer as nossas sucursais para que abrissem mo de parte de seu inventrio. 
- desnecessrio -disse entre bocados-. Desta vez tivemos sorte, Melvin, mas... 
-Mas? 
-Aqui h um assunto que me preocupa. Algum no quer que Lady's Choice siga em frente. 
Com o cenho franzido, ele pegou um rolinho do prato de Natalie e o partiu pela metade. 
-Nosso principal,competidor  a Unforgettable Woman. E ns o seu. 
-Pensei nisso. Mas no encaixa. Essa companhia tem uns cinquenta anos no mercado.  respeitvel. Slida -suspirou, odiando o que tinha que dizer-. Mas o que me preocupa 
 a espionagem corporativa, Melvin. Dentro de Lady's Choice. 
-Um dos nossos? -tinha perdido o apetite para o rolinho. 
-No se trata de uma possibilidade que eu goste ... nem que possa ser deixado de lado -pensativa, bebeu um gole de caf-. Poderia convocar uma reunio de chefes 
de departamento, obter opinies sobre nossa gente -e pensou que no era necessrio faz-lo-. Mas isso no soluciona o dos nossos prprios chefes de departamento. 
-Muitos dos seus executivos trabalham a anos na Fletcher, Natalie. 
-Sou consciente disso -inquieta, levantou-se, bebendo enquanto caminhava-. No  me ocorre nenhum motivo pelo qual algum da organizao queira atrasar a inaugurao. 
Mas devo procur-lo.

-Isso coloca todos ns na mira. 
-Sinto, Melvin -se voltou-. Mas  isso. 
-No precisa se desculpar. So os negcios -o descartou com um gesto da mo, ainda que seu sorriso era um pouco tenso ao levantar-se-. Qual  o seguinte passo? 
- 1 hora fiquei de me encontrar com o agente do seguro na loja -olhou a hora e se amaldioou- Ser melhor eu ir agora. 
-Deixa que eu vou -antecipando-se a ela, levantou uma mo-. Leva  mais do que pode aguentar. Delega, Natalie, recorda? Me reunirei com seu agente e te darei um relatrio 
completo quando voltar. 
-De acordo. Me poupar uma hora frentica -com o cenho franzido, ps-se os sapatos- Se o inspetor encarregado da investigao estiver l, pea-lhe para entrar em 
contato comigo para informar-me dos progressos. 
-O farei. A ltima hora da tarde tem que levar um carregamento  loja. Quer atras-lo?

-No -j tinha meditado-. O negcio continuar como sempre. Destinei  um guarda de segurana para o  local. No ser fcil para ningum voltar a entrar. 
-Conseguiremos na data prevista -assegurou Melvin. 
-No duvido.



Capitulo 6



Ry preferia um raciocnio humano, bom e slido,  anlise de um computador, mas tinha aprendido a utilizar todas as ferramentas disponveis. O Sistema de Reconhecimento 
de Incndios Provocados era um dos melhores. Nos ltimos anos tinha ficado bem gil com o teclado. Nesse momento, uma vez que sua secretria j tinha saido e que 
os homens dormiam l em baixo, trabalhava sozinho. 
O SRIP, usado com inteligncia, era um instrumento eficaz para identificar e classificar tendncias. Quando se suspeitava que alguns incndios estavam relacionados, 
ficava possvel utiliz-lo para predizer onde e quando futuros incncios poderiam acontecer dentro desta srie.

O computador lhe trouxe o que ele j tinha deduzido.A oficina de produo de Natalie era um objetivo importante. J tinha atribudo  zona uma equipe de patrulha 
e vigilncia. 
Mas o preocupava muito mais a prpria Natalie. O telefonema que tinha recebido convertia o assunto em algo pessoal. E tinha contribudo com uma pista muito especfica. 
Enquanto tomava a xcara de caf com uma mo, apertou umas teclas e enlaou com o Sistema Nacional de Dados de Incndios. Introduziu os dados... informao de incidentes, 
localizaes geogrficas e dados sobre os incndios. O processo no s o ajudaria, como serviria para ajudar a futuros investigadores. 
Depois se ps a trabalhar nos suspeitos. De novo introduziu os dados sobre os fogos e o mtodo. A isso pde adicionar a chamada telefnica e a impresso de Natalie 
sobre a voz e as palavras ditas pelo individuo. 
Recostou-se na cadeira e observou como o computador reforava suas prprias concluses.

Clarence Robert Jacoby, apelido Jacoby, apelido Clarence Roberts, Ultima direo conhecida, vinte e trs da Rua Sur, Urbana. Homem branco. Data de nascimento: vinte 
e cinco de junho de mil novecentos cinquenta e dois. 
Em sua ficha constava meia dzia de detenes por fogos provocados, todos em meios urbanos. Tinha sido condenado a cinco anos de priso. Ainda tinha pendente outra 
condenao de dois anos atrs, j que  tinha fugido depois de sair sob fiana. 
E a linha de atuao estava ali. 
Jacoby era um profissional em tempo parcial que gostava de queimar coisas. Pelo geral preferia usar gasolina como catalisador e mechas de objetos inflamveis que 
encontrava no lugar eleito, junto com fsforos de sua prpria coleo. Com freqncia chamava a suas vtimas. A avaliao psiquitrica o classificava como um neurtico 
com tendncias socipatas.

-Gosta do fogo, no  verdade, pequeno canalha? -murmurou, enquanto martelava os dedos contra o teclado-. Nem sequer se importa quando se queima. No  isso o que 
me contou?  como um beijo. 
Ry ativou um interruptor para imprimir os dados. Com cansao, passou as mos pelos olhos. Aquela noite tinha dormido umas duas horas no sof do escritrio exterior. 
A fadiga comeava a domin-lo. 
Mas j tinha a sua presa. Estava seguro. E tambm uma pista. 
Mais por hbito que por desejo, acendeu um cigarro antes de discar o nmero de telefone. 
-Piasecki. Vou passar pela fbrica Fletcher a caminho de casa. Se puder me localizar... -calou-se, olhando a hora. Meia-noite em ponto. Talvez deveria consider-lo 
um sinal-. Se puder me localizar neste nmero at nova ordem -de cor recitou o nmero da casa de Natalie e desligou. 
Desconectou o computador, recolheu os dados impressos e a jaqueta e depois apagou as luzes. 

Natalie colocou uma de suas camisolas favoritas da coleo de Lady's Choice e duvidou entre meter-se na cama ou tomar um banho de gua quente. Primeiro decidiu acalmar 
seus nervos com um copo de vinho. Aquela tarde tinha tentado localizar Ry trs vezes, para receber sempre a mesma informao de que no estava disponvel. 
 Se supe que eu tenho que estar localizvel , pensou furiosa.   Mas ele pode ir e vir a seu bel prazer . Nem uma palavra dele o dia inteiro. A primeira hora 
da manh iria receber uma surpresa quando a visse entrar em seu escritrio para exigir-lhe um relatrio de progressos. 
Como se j no tivesse coisas suficientes com o que preocupar-se. No pensava em deixar que nada interferisse em seu caminho. Nem incndios nem, com certeza, um 
inspetor de bombeiros. Se tinha algum em seu pessoal, em qualquer escalo, responsvel pelos incndios, ia averiguar quem era. E se ocuparia da situao. 
Em um ano teria levado Lady's Choice ao topo. Em cinco, duplicaria o nmero de lojas.

As Indstrias Fletcher teria um novo sucesso que ela teria visto nascer desde suas primeiras fases. Poderia estar orgulhosa e satisfeita. 
Ento, no sabia por que, de repente, sentia-se s. 
 Por culpa dele , decidiu, bebendo vinho,  por provocar inquietude em minha vida. Por me fazer questionar as prioridades num momento em que preciso estar centrada 
. 
A atrao fsica, inclusive com essa classe de intensidade, no bastava, no deveria bastar, para distra-la de seus objetivos. Com anterioridade j havia sentido, 
e depois sabia como praticar o jogo com segurana. Depois de tudo, tinha trinta e dois anos, e no podia se considerar uma novata no terreno das relaes. Hbil 
e cautelosa, sempre tinha sado ilesa. Nenhum homem a tinha interessado suficientemente para deixar-lhe o corao com cicatrizes. 
Perguntou-se por que de repente isso parecia to triste. 
Irritada com o pensamento, enterrou-o. 
Perdia o tempo pensando em Ryan Piasecki. Deus sabia que nem sequer era seu tipo. Era rude, grosseiro e inegavelmente abrasivo. Preferia um homem mais suave. E seguro. 
E isso lhe pareceu superficial. 
Deixou o copo ao meio em um lado e  jogou o cabelo para atrs. O que precisava era dormir, no se analisar. O telefone soou justo quando ia apagar a luz. 
-Oh, te odeio -murmurou, pegando o fone-. Oi. 
-Senhorita Fletcher, sou Mark, de recepo. 
-Sim, Mark, do que se trata? 
-Aqui h um tal inspetor Piasecki que quer v-la. 
-Oh, verdade? -olhou a hora, jogando com a idia de proibir que o deixassem subir-. Mark, quer perguntar-lhe se se trata de um assunto oficial? 
-Sim, Senhorita.  por um assunto oficial, inspetor? 
Ouviu com clareza a voz de Ry pelo fone, perguntando a Mark se gostaria de ter em vinte minutos no edifcio uma equipe que iria procurar violaes do cdigo de segurana 
contra incndios. 
Quando Mark se ps a gaguejar, Natalie se apiedou dele. 
-Mande-o subir, Mark. 
-Sim, Senhorita Fletcher. Obrigada. 
Desligou, depois dirigiu-se  porta e no ltimo instante deu a volta. Sob nenhuma hiptese ia conferir seu aspecto no espelho. 
Mas no foi capaz de conter-se. 
Quando Ry chamou  porta, tinha conseguido escovar o cabelo e passado um pouco de perfume. 
-No acredita que  injusto ameaar as pessoas com o fim de sairem do seu caminho? -exigiu quando abriu. 
-No quando funciona  - demorou um tempo apenas olhando-a. A camisola que lhe chegava at o cho era singela e de cor creme. A seda se cruzava sobre seus seios, 
cingia-se em torno da cintura e depois caa colada a seus quadris-. No v que  uma pena usar algo assim quando se est sozinha? 
-No, no creio. 
-Vamos conversar no corredor? 
-Suponho que no -fechou a porta por trs dele-. No me incomodarei em lhe dizer que j  bem tarde. 
Ry no disse nada, s entrou no sala. Cores suaves, rompidas por vibrantes pinturas abstratas que ao que parecia ela gostava. Notou que tinha muitos enfeites, mas 
todos ordenados. Tinha flores frescas, uma lareira de gs e um amplo janelo atravs do qual brilhavam as luzes da cidade. 
-Bonito lugar. 
-Eu gosto daqui. 
-Voc gosta das alturas -se aproximou da janela para comprovar que se achavam a uns vinte andares acima de qualquer resgate com escada-. Talvez eu faa uma vistoria 
neste edifcio para ver se cumpre com as regulamentaes -a olhou-. Teria uma cerveja? 
-No -ento suspirou. As boas maneiras sempre estavam acima da irritao-. Eu estava bebendo uma taa de vinho. Quer uma? 
Encolheu os ombros. No era um apreciador de vinho, mas seu corpo j no era capaz de receber mais caf. 
Tomando-o como uma afirmao, Natalie foi  cozinha para servir outra taa. 
-Tem algo para acompanhar? -inquiriu ele desde a porta-. Como comida? 
Ia inform-lo do erro de tomar seu apartamento por uma cafeteria aberta vinte e quatro horas, mas ento captou a expresso de sue rosto  luz forte da cozinha.  
-Cozinho pouco, mas tenho queijo Brie, alguns peezinhos e um pouco de fruta. 
Quase divertido, ele passou as mos pelo rosto. 
-Brie -riu brevemente ao baixar as mos-. Perfeito. Fantstico. 
-Sente-se -e lhe passou o vinho-. Vou servi-lo
-Obrigado.
Alguns minutos mais tarde, encontrou-o no sof, com as pernas estendidas e os olhos meio fechados. 
-Por que no foi para casa se deitar? 
-Tinha algumas coisas que fazer -alongou uma mo para a bandeja que ela tinha depositado na mesinha. Com a outra procurou Natalie. Satisfeito de t-la ao seu lado, 
encheu um pazinho com queijo-. No est to mau -comentou com a boca cheia-. No pude jantar. 
-Acredito que poderia ter pedido que trouxessem algo. 
-Est bem. Pensei que queria que te pusesse a par da investigao. 
-Claro, mas acreditei que ia me chamar horas atrs -ele murmurou algo incompreensvel enquanto mastigava um novo pozinho. 
-Que? 
-Tribunal -repetiu, engolindo-. Tive que estar no tribunal quase a tarde inteira. 
-Compreendo. 
-Mas recebi sua mensagem -sorriu, mais animado depois de ter levado algo ao estmago. Sentiu a minha falta?
-O relatrio -lhe recordou com tom seco-.  o mnimo do que pode fazer depois de esvaziar-me a despensa. 
Levou-se umas lustrosas uvas verdes  boca. 
-Ordenei a vigilncia de sua fbrica de Winesap. 
-Acredita mesmo que  um objetivo? -apertou a mo em torno do p da taa. 
-Encaixa com o padro. Por um acaso notou a presena de algum homem em alguma das suas propriedades? Homem branco, aproximadamente um metro e setenta de altura, 
de uns sessenta e cinco quilos. Cabelo loiro ralo. Quarenta e tantos anos, mas com uma cara redonda que lhe d aspecto juvenil -calou-se para engolir umas galletitas 
com um gole de vinho-. Plido, olhos rasgados, dentes proeminentes. 
-No, no se me ocorre ningum assim. Por que? 
- um tocha. Um tipo desagradvel, com um certo toque de loucura -descobria que o vinho tambm no estava to mau, tanto que bebeu mais um pouco-. Se estivesse completamente 
louco, ficaria mais fcil. Gosta de danificar coisas e no se importa que lhe paguem por isso. 
-Acredita que  ele -murmurou Natalie-. E o conhece pessoalmente, no  verdade? 
-Clarence e eu nos conhecemos. A ltima vez que o vi foi a uns dez anos. Tinha demorado em demasia num de seus trabalhos. Estava em chamas quando cheguei. Estavamos 
ambos nos intoxicando com a fumaa quando consegui tir-lo dali.
-Por que acredita que se trata dele? -lutou por manter a calma. 
- seu tipo de trabalho -adicionou, depois de oferecer-lhe um resumo de seu trabalho de investigao-. Ademais, o telefonema. Isso ele tambm gosta. E a voz que 
descreveste...  o estilo exato de Clarence. 
-Poderia ter contado esta manh. 
-Poderia - deu uma encolhida de ombros-. No vi  motivo para isso. 
-O motivo  que estamos falando de meu edifcio, de minha propriedade -soltou com os dentes apertados. 
Estudou-a por um momento. Sups que no era uma m idia utilizar a ira para ocultar o medo. No podia culp-la por isso. 
-Diga-me uma coisa, Senhorita Fletcher, em sua posio como presidente, redige relatrios antes, durante ou depois de ter comprovado os dados? 
-De acordo -suspirou-. Conte-me o resto. 
-Se move de cidade em cidade -deixou a taa-. Aposto que voltou a Urbana. E o encontrarei. -H algum cinzeiro por aqui? 
Em silncio, Natalie se aproximou e lhe ofereceu um pequeno prato de cermica de outra mesa. Compreendeu que estava sendo injusta. Era evidente que Ry se achava 
esgotado por todas as horas extras que tinha dedicado... por ela. 
-Passou toda a noite concentrado no caso. 
- o trabalho -acendeu um fsforo. 
-? -perguntou baixinho. 
-Sim -seus olhos se encontraram-. E por voc.
Assim me coloca numa situao difcil, Ry -no pde evitar que o pulso se acelerasse. 
-Essa  a idia -com um gesto indolente passou um dedo pela lapela de sua camisola, quase sem roar-lhe a pele. Chegou-lhe seu aroma sutil e tentador-. Quer que 
eu te pergunte como foi o seu dia? 
-No -com riso cansado, moveu a cabea-. No. 
-Suponho que no queira falar do tempo, de poltica ou de esportes, verdade? 
Calou-se um instante. No queria que sua voz soasse rouca . 
-Nada em especial. 
Ele grunhio e inclinou-se para apagar o cigarro. 
-Deveria ir embora para deixar que dormisse um pouco. 
Com as emoes confusas, ela tambm se levantou. 
-Provavelmente seja o melhor. O mais sensato -no era o que queria, muito pelo contrrio. E comeava a compreender que tambm no era o que precisava. S o mais 
sensato. 
-Mas no vou faz-lo -a paralisou com o olhar-. A no ser que voc me diga. 
O corao acelerou no peito. Pde sentir um tremor que subia desde as plantas de seus ps.

-Dizer o que? 
Ry sorriu e se aproximou, para deter-se justamente quando seus corpos se roaram. A primeira resposta, sem importar se ela quisesse que fosse ou ficasse, podia ser 
lida com facilidade em seus olhos. 
-Onde  o dormitrio, Natalie? 
-Ali -um pouco aturdida, olhou acima do ombro dele e assinalou com gesto lnguido-. Por al. 
Com uma graciosidade rpida e surpreendente Ry, tomou-a em braos. 
-Creio que at ali posso chegar. 
- um erro -j lhe enchia o rosto e o pescoo de beijos-. Sei que  um erro. 
-Todo mundo comete um de vez em quando. 
-Eu sou inteligente -sussurrou, desabotoando-lhe a camisa-. E sou sensata. Tenho de s-lo, porque... -soltou um gemido quando os dedos dele lhe tocaram a pele-. 
Deus, seu corpo me fascina. 
-? -j estava a ponto de se descontrolar quando ela lhe puxou a camisa para fora do jeans. Considere-o todo seu. Deveria ter imaginado. 

-Mmm... -estava ocupada mordendo-lhe o ombro-. Que? 
-Que teria uma cama de primeira -caiu com ela sobre a colcha. 
-Depressa -insistiu, meio louca por ele-. Te desejei desde a primeira vez que me tocou. 
-Deixe que eu recupere o tempo perdido -com igual frenesi, achatou-lhe a boca com a sua. 
Sem alento, Natalie lhe abriu o boto da cala jeans. 
-Isto  uma loucura -lutou para encontr-lo, bebendo sedenta de sua boca enquanto rolavam na cama. 
Ele no foi capaz de recuperar o ar nem o controle. 
-Est a ponto de acontecer. -Murmurou
Levantou a camisola e embaixo encontrou a calcinha de seda que fazia jogo. Quando fechou a boca sobre um seio coberto, percorreu-o um gemido. 
Seda, calor e pele fragrante. Tudo o que era ela o encheu, atentou, atormentou-o. Era toda mulher. Beleza, graa e paixo. Tentao, tormento e triunfo. Tudo isso, 
toda ela o atormentava. 
Reviravam-se sobre a colcha, procurando mais. 
Havia fogo, seu resplendor era brilhante e perigoso. Abrasou-o, queimou-o, marcou-o, enquanto as mos e a boca de Natalie corriam por seu corpo, inflamando centenas 
de chamas. No se ops. Por uma vez queria ser consumido. Soltou um grunhido, rasgou-lhe a seda que a cobria e furiosamente delicio-se com seu corpo. 
As mos dele eram speras e duras. E maravilhosas. Ela jamais tinha se sentido to viva ou desesperada. Almejava-o, sabia que o tinha feito desde o princpio. 
Mas nesse momento o tinha, podia sentir a presso desse corpo slido e musculoso contra o seu, podia provar a violenta urgncia da necessidade de Ry cada vez que 
suas bocas se encontravam. Em cada respirao entrecortada dele podia ouvir a reao que lhe provocava seu contato, seu sabor.

Se era algo elementar, que assim fosse. Sentia-se jubilosa, promscua e absolutamente livre. Fincou-lhe os dentes no ombro enquanto ele a conduzia de maneira cruel 
a seu primeiro orgasmo. Natalie gritou seu nome, arqueando-se, tensa como um arco. 
Ele a penetrou com dureza, fundo. 
O prazer a deixou cega e surda, alheia a seus prprios soluos enquanto se uniam num ritmo frentico. Colou o corpo ao de Ry, incansvel, impulsionada por uma necessidade 
que parecia insacivel. 
Ento corpo e necessidade estouraram. 
A luz estava acesa. Era engraado que nem sequer tivesse notado, quando que no geral estava acostumado a captar cada detalhe minsculo. O resplendor da luz era suave. 
Ryan jazia quieto, com a cabea sobre um seio de Natalie,  espera de que seu organismo se serenasse. Sob seu ouvido, o corao dela continuava acelerado. Tinha 
a pele mida, o corpo relaxado. De momento em momento um um tremor a sacudia. 
No sorriu com um gesto triunfal, como poderia ter feito, somente a contemplou maravilhado. 
Havia querido conquist-la. No podia e nem pretendia neg-lo. Desde o primeiro momento em que a viu, tinha almejado a sensao de que o corpo de Natalie se tensionasse 
e tremesse sob o seu. 
Mas no tinha contado com o tornado de necessidade que tinha percorrido a ambos, que fez que se procurassem como animais. 
Sabia que tinha sido rude. No era precisamente um homem delicado, de modo que isso no o preocupou. Mas nunca tinha perdido o controle de maneira to completa com 
nenhuma mulher. Nem tinha desejado a uma com tanta intensidade momentos depois de t-la possudo. 
-Com isso deveria ter conseguido -murmurou. 
-Mmm? -se sentia frouxa como a gua. Palpitante e doce. 
-Deveria ter te expulsado de meu sistema. Ou ao menos ter comeado. 
-Oh -encontrou energia para abrir os olhos. A luz, apesar de ser tnue, obrigou-a a semicerra-los. Devagar, sua mente comeou a clarear-se; com rapidez, sua pele 
comeou a esquentar. Recordou o modo em que lhe tinha arrancado a roupa,  que o tinha jogado na cama sem um s pensamento coerente, apenas o de possu-lo. Suspirou 
e respirou fundo-. Tem toda razo -decidiu-. Deveria. O que se passa conosco? 
Rindo, Ry levantou a cabea e olhou o rosto acalorado dela, seu cabelo revolto.
-Maldita seja se o sei. Voc est bem? 
Natalie sorriu. Ao inferno com a lgica. 
-Maldita seja se o sei. O que acaba de acontecer se afasta um pouco de minha experincia. 
-Bom -baixou a cabea e passou a lngua por um seio.  -Te desejo outra vez, Natalie. 
-Bom -experimentou um nico tremor. 

Quando soou o despertador, Natalie gemeu, e virou-se para desliga-lo e esbarrou em Ry. Este grunhio, deu-lhe um tapa no despertador e com a outra mo a colocou em 
cima dele. 
-A que se deve esse rudo? -perguntou enquanto passava uma mo por suas costas e seu quadril. 
- para acordar-me. 
Ry abriu um olho.  Sim , pensou,  teria que ter imaginado . Estava to bem pela manh como em qualquer momento do dia. 
-Por que? 
-Funciona assim -ainda aturdida, tirou o cabelo do rosto. -O despertador toca, levanto, tomo um bom banho, bebo vrias xcaras de caf e vou trabalhar. 
-Tenho certa experincia com o processo. Algum te disse que hoje  sbado? 
-Sei que dia  hoje.  Mas tenho que trabalhar. 
-No acredito nisso  -lhe apoiou a cabea no ombro e olhou para o relgio para ver as horas. Eram 7 hs. Tinham dormido umas trs horas, quando muito-. Volte a dormir. 
-No posso. 
-De acordo, de acordo -suspirou resignado-. Mas deveria ter me advertido de que era insacivel -comeou a mordiscar-lhe o ombro. 
- No era essa a minha inteno -riu, tratando de retrair-se-. Tenho de acabar com a burocracia e realizar alguns telefonemas -Ry subia a mo para acariciar-lhe 
o seio. Em um instante o fogo ganhou vida em seu estmago-. Pra. 
-Mmm. Acordou-me, ento ter que me pagar. 
Natalie no pde evitar e comeou a esticar-se sob suas mos. 
-Somos afortunados de no ter nos matado ontem  noite. Est seguro de que quer se arriscar novamente? 
-Homens como eu, enfrentam diariamente o perigo - cobriu-lhe a boca sorridente com a sua.

Contava com mais de trs horas de atraso quando saiu do chuveiro. Decidiu que teria que trabalhar at tarde; depois de envolver o cabelo com uma toalha, comeou 
a passar creme nas pernas. Uma boa executiva entendia o mrito do horrio flexvel. 
Com um bocejo, limpou o vapor do espelho e se olhou. Deveria estar exausta. Deveria parecer esgotada depois da noite selvagem que tinham compartilhado Ry e ela. 
Mas no estava e nem parecia. Mostrava um aspecto...  suave , pensou.  Satisfeito . 
Nada, absolutamente nada do que tinha experimentado at esse momento, chegava perto do que tinha sentido, ao que tinha feito e descoberto, durante a noite com ele. 
De maneira que sorria como uma tonta enquanto penteava o cabelo molhado, por que no? Tinha at  vontade de cantar enquanto colocava o roupo, isso era compreensvel. 
E se tinha que arrumar a agenda para esse dia porque tinha dedicado quase toda a noite e a manh a lutar na cama com um homem que lhe fazia ferver o sangue, mais 
poder para ela. 
Regressou ao dormitrio e sorriu ao ver os lenis emaranhados. Com os lbios franzidos, recolheu os restos de sua roupa ntima. Chegou  concluso de que a mercadoria 
de Lady's Choice no suportava as provas exaustivas a que eram submetidas por Ry Piasecki. 
No era fabuloso? 
Rindo, atirou os fragmentos a um lado e o olfato a conduziu at a cozinha. 
-Cheirinho de caf -comeou, e se deteve no umbral. 
Ele estava quebrando uns ovos sobre uma cumbuca com suas mos grandes e duras. Tinha o cabelo mido, j que tinha tomado banho primeiro. Estava descalo, com os 
jeans pelos quadris e a camisa arregassada.
Incrivelmente, desejou possu-lo novamente. 
-Praticamente no tem nada para comer. 
-Como muito fora -com a ordem de controlar-se, dirigiu-se para a cafeteira. -O que est preparando? 
-Omelete francesa. Tinha quatro ovos, um pouco de queijo chedar e um pouco de brcolis. 
-Ia ferv-lo -inclinou a cabea enquanto provava o caf. -No pensei que soubesse cozinhar. 
-Todo bombeiro que se preze cozinha. No quartel nos dividimos em turnos-localizou uma batedeira e se voltou para olh-la-. Oi, Pernas. Ests fantstica. 
-Obrigado -sorriu acima da borda da xcara. Como continuasse olhando-a dessa maneira, deu-se conta de que ia atir-lo ao solo. O mais inteligente era ocupar-se de 
assuntos prticos. -Se supe que tenho de ajudar? 
-Pode me ajudar com as torradas? 
-Mal -deixou a xcara sobre a mesa e abriu um armrio. Trabalharam em silncio por uns momentos-. Eu... -no sabia como perguntar de maneira delicada. -Presumo que 
quando era bombeiro tenha enfrentado muitas situaes perigosas. 
-Sim. E?

-As cicatrizes em seu ombro, e nas costas -as tinham descoberto durante as exploraes noturnas de seu corpo realmente formoso-. Cumprindo com o dever? 
-Sim. Ento? -levantou a vista. A verdade era que no pensava nelas. Mas  crua luz do dia,  lhe ocorreu que para uma mulher como ela talvez fossem desagradveis-. 
Te encomodam? 
-No. Perguntava-me como teria se queimado. 
Deixou a tigela a um lado e levou uma frigideira ao fogo. Pode ser que a incomode>>, pensou, pode ser que no. O melhor era colocar tudo em pratos limpos.
-Nosso, amigo Clarence. Enquanto eu o tirava de um incndio que ele tinha provocado, o teto veio abaixo -ainda podia recordar a chuva de chamas, o rugido do animal, 
o assustador pesadelo da dor. -Caiu em cima de ns. Ele gritava e ria. Consegui tira-lo de l. Depois disso, no recordo muita coisa, at que acordei no setor de 
queimados.
-Sinto muito.
-Poderia ter sido muito pior. O uniforme me protegeu bastante. Tive sorte -jogou os ovos batidos na frigideira. - Meu pai morreu dessa maneira. O fogo subiu pelas 
paredes. Quando ventilaram o teto, tudo cedeu -amaldioou em silncio. De onde tinha sado isso? No tinha sido sua inteno mencion-lo. A morte de seu pai no 
era uma tpica conversa matinal. Deveria passar manteiga nessa torrada antes que esfrie. 
Ela no disse nada, no foi capaz de pensar em nada; s se dirigiu a ele, rodeou-lhe a cintura com os braos e apoiou a cabea em seu ombro. 
-No sabia que tinha perdido seu pai -tinha tantas coisas que desconhecia. 
-Faz doze anos. Num instituto. Um garoto que no estava contente com a nota recebida pelo exame de qumica incendiou o laboratrio. Meu pai conhecia os riscos -murmurou, 
incomodado pela sensao que acordava nele a simpatia muda de Natalie- Todos ns conhecemos.
-No queria abrir velhas feridas, Ry -no o soltou. 
-Est bem. Ele era um bombeiro extraordinrio. 
Natalie permaneceu onde estava por alguns momentos, desconcertada pelo que sentia. A necessidade de consol-lo, de compartilhar, o terrvel impulso de fazer parte 
do que ele era. Com cautela, separou-se. Recordou que no tinha sentido procurar mais do que tinha entre os dois. 
-E esse Clarence... como o encontrar? 
-Com um pouco de sorte poderei rastre-lo atravs de contatos -com um movimento rpido e competente, virou a omelete-. Ou o atrapalharemos quando estiver estudando 
seu prximo alvo. 
-Minha fbrica. 
-Provavelmente -mais relaxado pela breve distncia que tinha entre eles, observou-a acima do ombro-. Alegre-se, Natalie. Tem os melhores homens da cidade trabalhando 
para proteger suas roupas ntimas.
-Sabe muito bem que no ... -calou-se quando soou  a campainha. -Esquea. 
-Um momento. O porteiro no chama quando algum se apresenta para te ver? 
-No quando se trata de um vizinho. 
-Use o olho mgico. -ordenou enquanto pegava os pratos. 
-Sim, papai -divertida pela atitude dele, foi  porta. Uma olhada no olho mgico e obrigou-se a conter um grito e a tirar os ferrolhos-. Boyd, pelo amor do cu! 
-lhe rodeou o pescoo. -Cilla! 
-E toda a tropa -advertiu Cilla, rindo enquanto se abraavam.  -O guarda no me deixou te chamar para alert-la da invaso. 
-Me alegro muito em v-los.  -se agachou para abraar seus sobrinhos-. Mas, o que fazem aqui? 
-J conhece o capito -respondeu Cilla.  -Bryant, no toque em nada, sob pena de morte -lanou um olhar de advertncia a seu filho maior. Com oito anos, no se podia 
confiar nele-. Quando Deborah nos chamou para contar sobre o segundo incndio, nos convidou e aqui estamos. Allison, no  uma pista de basquete. Por que no deixa 
isso?
-No vou atir-la contra nada -possessiva, Allison  levou a bola ao peito. 
-Est bem - assegurou Natalie a Cilla, passando uma mo distrada pelo cabelo dourado de sua sobrinha-. Boyd, no posso acreditar que arrastou a todos por quase 
todo o  pas por algo assim. 
-Os garotos no tm aula na segunda-feira -se agachou para recolher a jaqueta que seu filho menor tinha atirado ao solo-. Assim decidimos ter um fim de semana festivo, 
isso  tudo. 
-Nos ficaremos com Deborah e Gage -adicionou Cilla. -Ento no fique em pnico. 
-No,  que... 
-E trouxemos comida -Boyd exibiu a bolsa cheia de hambrgueres e batatas fritas-. Que te parece se comermos juntos? 
-Bem, eu... - olhou em direo  cozinha. No sabia como ia explicar a presena de Ry. 
Keenan, com a curiosidade de um menino ativo de cinco anos, j o tinha descoberto. Desde a porta da cozinha, sorriu para Ry. 
-Oi. 

-Oi, para voc tambm -curioso por ver como Natalie levaria a situao, saiu. 
-Quer ver o que posso fazer? -lhe perguntou Keenan antes que alguem pudesse falar. 
-Claro. 
Sempre disposto a exibir uma nova habilidade, Keenan trepou pela perna de Ry at enroscar-se a suas costas. 
-Nada mal -acomodou o pequeno para que pudesse agarrar-se melhor. 
-Esse  Keenan -explicou Cilla-. Nosso jovem macaquinho. 
-Sinto muito. Ah... -Natalie  passou uma mo pelo cabelo mido. No tinha que olhar para Boyd para saber que seus olhos refletiriam um olhar especulador de irmo 
mais velho. -Boyd e Cilla Fletcher, Ry Piasecki -clareou a garganta-. E estes so Allison e Bryant -suspirou-. J conhece Keenan. 
-Piasecki -repetiu Boyd-. Do departamento de fogos provocados? -justamente o homem que eu queria ver. Ainda que no esperasse encontr-lo descalo na cozinha de 
minha irm. 
-Exato -os irmos tinham um gnio parecido. E uma inata suspeita para os desconhecidos-. Voc  o polcial de Denver.

- capito de polcia -falou Bryan. -Usa uma arma no trabalho. Posso beber algo, tia Nat? 
-Claro. Eu... -mas Bryant j  tinha se lanado para a cozinha-. Bom, isto ... - incmodo , pensou-. Ser melhor que eu traga alguns pratos antes que esfrie a 
comida. 
-Boa idia. A nica coisa que tem so ovos -Ry observou a bolsa que Boyd sustentava, reconhecendo seu contedo-. talvez possamos estabelecer um trato por algumas 
das suas batatas fritas. 
-Voc  o investigador que est pesquisando os incndios, no? -perguntou Boyd. 
-Ei, capito -Cilla olhou com olhos cintilantes a seu marido.  -Nada de interrogatrios com o estmago vazio. Pode frit-lo quando tivermos terminado. Passamos horas 
num avio -explicou quando Bryant regressou e tratou de tirar a bola de Allison-. Estamos um pouco nervosos. 
-Sem problema -um instante antes que Boyd, Ry pegou a bola que tinha voado das mos da pequena-. Gosta de lanar? -perguntou a Allison. 
-Mmm  -presenteou-o com um sorriso conquistador-. Eu entrei na equipe. Bryant no. 
-O basquete  estpido -de mau humor, Bryant se sentou numa cadeira-. Prefiro jogar com o Nintendo. 
Ry acomodou Keenan nas costas enquanto com as mos dava voltas na bola. 
-Acontece que dentro de algumas horas tenho uma partida. Talvez queira vir. 
-Verdade? -os olhos de Allison se iluminaram ao olhar para Cilla. -Mame? 
-Parece divertido -intrigada, Cilla se dirigiu  cozinha-. Irei dar uma mo a Natalie - e, de passagem, arrancar-lhe os detalhes , pensou.









Capitulo 7

O ltimo lugar onde Natalie esperava passar o sbado  tarde era numa quadra de basquete, olhando   policiais e bombeiros jogarem. O primeiro quarto passou meditando, 
com o cotovelo sobre o joelho e o queixo no punho. 
Depois de tudo, Ry no tinha mencionado a partida para ela, nem a tinha convidado de maneira direta. Estava ali devido a sua sobrinha. 
Disse-se que no lhe importava. Ele no tinha nenhuma obrigao de inclu-la em seu entretenimento pessoal. 
Porco>> 
A seu lado, Allison se achava como no cu, animando o time da camiseta vermelha com o entusiasmo de uma admiradora apaixonada. 
-No  uma maneira to m de se passar uma tarde -comentou Cilla acima do apito do rbitro-. Refiro-me a olhar um grupo de rapazes meio nus suando -a pirraa danou 
em seus olhos-. A propsito, o seu  muito atraente. 
-Te disse que no  meu. S... 
-Sim, j me disse -com um sorriso, Cilla passou um brao pelos ombros de Natalie-. Anime-se, Nat. Se tivesse ido com Boyd e os meninos para deixar tudo na casa de 
Deborah, teu irmo agora estaria te interrogando. 
-Tem razo -suspirou. -Para mim no mencionou que tinha esta partida -murmurou. 
-Oh? -Cilla conteve um sorriso e passou a lngua pelos dentes-. Sem dvida teria outra coisa na mente. Eh! -ps-se p, junto com todos os espectadores, quando um 
da equipe azul fincou os cotovelos nas costelas de Ry. -Falta! -Cilla gritou, por entre suas as mos em concha.
-Ele pode agentar -murmurou Natalie, tratando de manter a indiferena quando Ry se colocou  linha dos tiros livres-. Tem um estmago de ferro -lutou entre o orgulho 
e o ressentimento quando ele arremessou. 
-Ry  o melhor -afirmou Allison, em adorao profunda por seu heri-. Viram os movimentos que tem em ataque? E seu salto vertical  tremendo. J realizou trs bloqueios. 
 Ento, talvez esteja bem , concedeu Natalie. Talvez quizesse que ganhasse. Mas isso no significava que ia levantar-se para torcer por ele. 
No terceiro quarto, ps-se de p como todos os presentes quando Ry meteu uma cesta de trs pontos que lhe deu uma vantagem de dois pontos aos Smoke eaters sobre 
os Bloodhounds.        
-Viram isso? Limpa, no tocou no aro.
-Tem fundamentos estupendos -admitiu Cilla-. E mos rpidas. 
-Sim -Natalie sentiu que um riso tonto se estendia por sua face. <<Eu que o diga!>>

Com o corao acelerado, sentou-se no banco. Inclinou-se para frente, com o olhar colado na bola. O som de ps correndo enquanto os homens iam de um lado a outro 
da quadra. Os polcias arremessaram e os Comedores de Fumaa bloquearam. Dois homens cairam ao cho enquanto os demais se observavam com caras de poucos amigos e 
o rbitro fazia soar o apito. 
Um contra ataque. Cotovelos que voavam, um emaranhado de corpos sob a cesta quando a bola cortou o ar e quicou. Todos foram atrs dela. 
-Vou apagar teu fogo, Piasecki -brincou um policial. 
Natalie viu que Ry tirava o cabelo suado dos olhos e sorria. 
-No com esse equipamento. 
Natalie assobiou para o polcial enquanto comia amendoins que Cilla lhe oferecia. Continuou comendo como alternativa sensata a devorar as unhas. Quando solicitaram 
um tempo tcnico, olhou o relgio. Faltavam menos de seis minutos para o final da partida, e os Bloodhounds ganhavam de 108 a 105. 
Na lateral o tcnico dos Comedores de Fumaa estava passando instrues a seu time. A maioria dos jogadores estavam com o torso dobrado e as mos apoiadas nos joelhos, 
enquanto recuperavam o nimo para a batalha final. Ao regressar  pista, Ry se voltou e fixou o olhar em Natalie. Sorriu-lhe. Um gesto rpido e arrogante. 
-Nossa! -murmurou Cilla-. Isso sim  que  srio. Algo poderoso. 
-Voc  que est me dizendo -soltou o ar contido. Quando isso no a serenou, empregou o excesso de energia para animar  equipe. 
Foi um combate at o final, no que o marcador se alternou a favor de uns e de outros. Com o passo dos segundos, os espectadores permaneciam em p, erigindo uma muralha 
de som. 
Com poucos segundos de partida e com os Comedores de Fumaa um ponto atrs, Natalie mordia os dedos. Ento viu Ry mover-se. 
-Oh, sim... -murmurou a princpio, quase como uma prece. Depois se ps a gritar ao ver que atravessava a linha defensiva da outra equipe, controlando a bola como 
se a tivesse colada  mo por um fio invisvel. 
O bloquearam e ele girou sobre si mesmo. Tinha uma possibilidade e estava desviando-se. O corao de Natalie parou quando o viu driblar para depois saltar com um 
giro no ar e lanar a bola, que encontrou o aro da cesta. 
A multido enlouqueceu. Natalie se voltou para abraar Allison e depois Cilla. O que sobrara dos amendoins voou pelos ares como chuva. O relgio se deteve e os espectadores 
invadiram o campo. 
Viu Ry num relance, um momento antes de ser engolido por uma mar de corpos. Estava no banco com uma mo sobre o corao. 
-Estou esgotada -sorriu e secou as palmas das mos midas no jeans. Tenho que me sentar. 
-Que partida! -Allison no parava de dar saltos-. No foi estupendo? Viu, mame? Marcou trinta e trs pontos! No foi fantstico? 
-Com certeza. 
-Podemos dizer-lhe? Podemos descer para dizer-lhe? 
Cilla estudou  multido e depois olhou os olhos brilhantes de sua filha. 
-Claro. Vamos, Natalie? 
- Ficarei aqui. Se conseguirem chegar at ele, diga-lhe que estarei esperando-o. 
-De acordo. Vai lev-lo esta noite aa jantar na casa de Deb? 
-Vou convid-lo -com cautela, martelou os dedos sobre os joelhos. 
-Leve-o -ordenou Cilla, depois se inclinou para beijar a face de sua cunhada. Nos vemos depois.

Pouco a pouco o ginsio se esvaziou enquanto os jogadores iam banhar-se. Satisfeita, Natalie permaneceu sentada. Havia sido seu primeiro dia livre em seis meses, 
e chegou  concluso de que no tinha sido uma maneira to m de pass-lo. 
E como Ry no a tinha convidado para assistir o jogo, no tinha nenhuma obrigao. Nenhum dos dois tinha. De maneira sensata, nenhum dos dois estavam procurando 
compromisso, restries e romance. De ambas as partes tudo se reduzia a uma urgncia primria, muito intensa e com muitas chances de que se desvanecesse. 
Era uma sorte que os dois se entendessem. Certamente, existia um pouco de afeto entre eles. E respeito. Mas no se tratava de uma relao no verdadeiro sentido da 
palavra. Ningum queria isso. S era uma aventura... para se desfrutar enquanto durasse, sem danos para nenhum dos dois quando terminasse. 
Ento ele voltou  quadra. O cabelo estava escuro e mido depois do banho. Fixou os olhos nela. 
 Santo cu , foi o nico que lhe ocorreu pensar quando o corao saltou dentro de seu peito. 
-Boa partida -conseguiu dizer, obrigando-se a pr-se de p e ir ao seu encontro. 
-Teve seus momentos -inclinou a cabea-. Sabe,  a primeira vez que te vejo vestida com algo que no seja um de seus elegantes trajes. 
Para ocultar a sbita onda de nervosismo que a dominou, inclinou-se e recolheu uma das bolas da partida. 
-Jeans e uma malha no costumam ser meu uniforme de trabalho. 
-Pois lhe caem muito bem, Pernas. 
-Obrigado -deu voltas com a bola nas mos, estudando-o.   -Allison se divertiu como nunca. Voc foi  muito amvel ao convid-la. 
- uma garota encantadora. Todos eles so. Ela tem a sua boca. E as suas feies. Vai ser uma destruidora de coraes. 
-Agora mesmo, ela est mais interessada em anotar pontos na quadra do que com garotos -mais relaxada, voltou a levantar a vista e lhe sorriu-. Voc mesmo marcou 
alguns, inspetor. 
-Trinta e trs -disse-. Mas, quem estava contando? 
-Allison -<< e eu tambm. >> Sem soltar a bola, entrou na quadra. Eu entendi que esta foi a sua  batalha anual com os Bloodhounds.
-Sim, celebramos uma partida por ano. A arrecadao se destina a obras beneficientes. Mas essencialmente viemos bater uns nos outros. 
Com a cabea baixa, fez quicar a bola.  -Nunca mencionou-o em nenhum momento. Quero dizer at que Allison apareceu. 
-No. A observava, intrigado. Se no se enganava, tinha um qu de irritao em sua voz. -Suponho que no. 
Por que no? -girou a cabea. 
 Decididamente est irritada , concluiu Ry, e coou o queixo. 
-No pensei que fosse seu tipo de entretenimento. 
-Oh, para valer?  
-Ei, no se trata nem de pera nem de ballet - encolheu os ombros e enganchou os dedos polegares nos bolsos dianteiros-. Nem de um elegante restaurante francs. 
-Voltando a chamar-me de esnobe? -soltou o ar e respirou. 
 V com cuidado, Piasecki , advertiu-se. Em alguma parte tinha uma engrenagem. 
-No exatamente. Digamos que eu no podia imaginar algum como voc entusiasmada com uma partida de basquete. 
-Algum como eu -repetiu. Doida da vida, girou, plantou os ps e lanou a bola para a cesta. Atravessou a rede e quicou no campo. Quando olhou outra vez para Ry, 
teve a satisfao de v-lo boquiaberto. -Algum como eu - ela disse novamente e foi recolher a bola-. E isso o que significa, Piasecki?

Tirou as mos dos bolsos justamente a tempo de pegar a bola que ela tinha lhe lanado antes que o golpeasse no peito. Lanou-a de novo, com fora, e arqueou uma 
sobrancelha quando Natalie a recebeu. 
-Faa de novo -exigiu ele. 
-De acordo - deliberadamente, situou-se  atrs da linha dos trs pontos, preparou o disparo e o soltou. O som da bola ao atravessar o aro lhe provocou um sorriso. 
-Bom, bom, bom... - Nesse momento, Ry pegou a bola. Com rapidez passou por seu oponente. Estou impressionado, Pernas. Muito impressionado. O que voc acha de um 
contra um?
-Perfeito -aceitou, agachando-se para marc-lo enquanto mirava a bola. 
-Voc sabe, eu no posso. 
Rpida como uma serpente, ela meteu a mo e lhe roubou a bola. Executou um ataque perfeito apoiando-se na cesta. 
-Ponto a meu favor -afirmou e lhe entregou a bola. 
-Voc  muito boa. 
-Oh, sou mais do que boa  - jogou o cabelo  para trs e se plantou para bloque-lo-. Na universidade fiz parte da seleo estadual, amigo. No ltimo ano fui a capit. 
De onde acredita que Allison pegou o gosto? 
-De acordo, tia Nat, vamos jogar.
Ele realizou um giro. Ela estava grudada nele. Bons movimentos, ele notou. Sabia que devia conter-se. Depois de tudo, no ia derrubar uma mulher na quadra, sem importar-se 
que estivesse em jogo seu ego masculino. 
Natalie no mostrou a mesma sensibilidade e o bloqueou com a fora suficiente para deix-lo sem ar.
Com o cenho franzido, Ry esfregou o ponto abaixo do corao onde ela tinha fincado seu ombro. Seus olhos agora estavam brilhando como esmeralda.
-Isso foi falta. 
  Ela roubou-lhe a bola e fez um ponto com um impressionante gancho acima do ombro. 
-No vejo nenhum arbitro. 
Ela tinha vantagem e os dois sabiam. Ademais, devia reconhecer que Natalie era melhor do que a metade dos polciais que tinha enfrentado essa tarde. 
E o que era pior, ela tambm o sabia.

Ele a marcou, mas no estava sendo fcil.  Descobriu que ela era vil, j que tinha a seu favor a velocidade e excelentes fundamentos, somado a uma grande dose de 
garra para compensar a diferena de altura. 
Alternavam-se no marcador. Ela tinha arregaado as mangas da camisa. Saltou com ele e bloqueou o arremesso de Ry com a ponta dos dedos. E como no mostrava arrependimento 
algum em utilizar os talentos de que dispunha, golpeou-o com o corpo, para depois deslizar em pleno contato com o seu. 
O sangue de Ry ferveu , tal como tinha sido a inteno de Natalie. Ofegando, tomou a bola e a olhou fixamente. Exibia um sorriso presunoso, tinha o rosto acalorado 
e os cabelos revoltos. Deu-se conta de que poderia com-la viva. 
Avanou com rapidez, surpreendendo-a. Ela soltou um grito quando ele a tomou pela cintura e a colocou sobre seu ombro. Natalie estava rindo quando ele encestou a 
bola com a mo livre.
-Isso sim  que foi falta. 
-No vejo nenhum rbitro - moveu-a e deixou que a gravidade a baixasse at que ficaram cara a cara, com as pernas dela enganchadas em torno de sua cintura. Levantou 
uma mo, agarrou-lhe os cabelos e guiou sua boca ao encontro da dele.
Natalie perdeu o pouco do controle que lhe restara. Abrindo-se a ele, mergulhou no beijo e exigiu mais. 
Com um apetite sbito e voraz, Ry abandonou sua boca e comeou a devorar seu pescoo. Suave, salgado, com a persistente fragancia tentadora que ela usava. Sentiu 
que se derretia. 
-L nos fundos h um armazm com fechadura. 
Ela j havia comeado a tirar-lhe a camisa. Respirava de forma entrecortada. 
-Ento, por que continuamos aqui? 
-Boa pergunta. 
Levando-a enganchada  cintura enquanto com os dentes lhe fazia coisas incrveis na orelha, atravessou as portas de vaivm e avanou por um corredor estreito. Desesperado 
por t-la, abriu o armazm. Depois de trancar a porta, ficaram trancados numa sala minscula cheia de equipamentos esportivos e que cheirava a suor. 
Sentou-se num banco de exerccios com Natalie em seu colo. 
-Me sinto como um adolescente -murmurou, abrindo o boto do jeans dela. Sob o tecido, tinha a pele quente, mida e trmula. 
-Eu tambm - disse com o corao acelerado-. Oh Deus, como o desejo!  Depressa. 
  Com mos frenticas arrancavam a roupa. No tinham tempo nem necessidade para a delicadeza. S para o ardor. Crescia to rapidamente no interior de Natalie, que 
lhe dava a impresso de que podia explodir- As mos de Ry procuravam sua garganta, seus peitos, seus quadris, excitando-a, atormentando-a. Nada e nem ningum importavam, 
somente ele e esse fogo selvagem e incendirio que provocavam quando estavam juntos. 


Ela queria que fosse mais quente, mais alto, mais rpido. 
Com um som baixo e felino que fez vibrar o sangue de Ry, Natalie abriu-se para ele. O corao dele pareceu deter-se no instante em que o aprisionou, quando arqueou 
as costas para atrs, com os olhos fechados. Ela enchia sua viso, sua mente, deixando-o desamparado. Ento Natalie voltou a abrir os olhos e o olhou. 
Comeou a mover-se, depressa e com agilidade. Achava-se no ponto de ebulio. Ry deixou que o poder tomasse aos dois. 
-Nunca antes tinha feito algo assim -frouxa e sem foras, Natalie voltou a vestir-se-. E quero dizer nunca. 
-No era precisamente o modo que eu tinha planejado -desconcertado, Ry alisou os cabelos. 
-Somos piores do que um par de crianas -e esticou a blusa com um suspiro-. Foi fabuloso. 
-Sim -sorriu, e de imediato ficou srio-. Voc  que . 
-Seria melhor no brincarmos com a sorte e irmos embora -tambm sorriu-. Alm disso, tenho de ir para casa trocar de roupa -encontrou um de seus brincos no cho. 
-Esta noite tenho um jantar na casa dos Guthrie. 
-Te levarei em casa -ficou fascinado pelo simples ato feminino de colocar o brinco. 
-Te agradeo -desajeitada, virou-se para abrir a porta. -Voc tambm foi convidado para jantar. Sei que Boyd quer a oportunidade de falar com voc. Sobre os incndios. 
-A comida  boa? -fechou a mo sobre a dela antes de que pudesse abrir. 
-Fabulosa -confirmou com um sorriso. 

Ry descobriu que ela no tinha mentido sobre a comida. Costelas de cordeiro, aspargos frescos e batatas doce, tudo acompanhado com um vinho branco francs. 
Sabia que para Gage Guthrie sobrava dinheiro. Mas nada o tinha preparado para a manso de estilo gtico, com suas torres e sacadas. Vista de fora, era como se fosse 
um castelo. 
A no ser pelas pessoas que a habitavam, poderiar irradiar uma atmosfera de museu. 
 Em um intante identificou-se com Deborah. Tinha escutado que ela era uma promotora dura e tenaz. Tinha um aspecto mais suave e vulnervel do que sua irm, ainda 
que sua fama no tribunal era formidvel. 
Era bvio que seu marido a adorava, e o mesmo acontecia com Boyd e Cilla. Ry calculou que j deviam estar juntos h mais ou menos uma dcada, mas a chama seguia 
viva.
E seus filhos eram estupendos. Ele sempre tinha sentido carinho pelas crianas. Reconheceu e ficou comovido com o esmagamento pre- adolecente que Allison lhe dedicava, 
e a gratificou repassando com ela os momentos mais importantes da partida.
E o jantar foi relativamente pacfico.  
-Voc anda em carro de bombeiros? -quis saber Keenan. 
-Antes costumava faz-lo -informou Ry. 
- E por que n anda mais? 
-Eu j te falei -interveio Bryant, exibindo uma expresso de desdm que s um irmo reconhece e compreende-. Agora ele persegue os maus, como papai. O que acontece 
 que estes maus se dedicam a provocar incndios. No ? 
- sim. 
-Eu preferiria andar num carro de bombeiros -com uma jogada astuta para evitar os aspargos de seu prato, Keenan levantou-se da cadeira e foi sentar-se no colo de 
Ry. 
-Keenan -disse Cilla. -Deixe Ry comer. 
-Est tudo bem -acomodou o pequeno sobre um joelho. -J andou em um carro de bombeiro? 
-No -sorriu com expresso cativadora. -Posso ir? 
-Se seus pais deixarem, amanh poder vir  guarnio dar uma olhada. 
-Bem -Bryant de imediato se incorporou ao convite. -Podemos, papai? 
-No vejo por que no. 
-A tia Nat sabe onde  -adicionou Ry enquanto Keenan saltava de alegria em seu joelho. -Se forem antes das dez, mostrarei tudo. 

-Parece fantstico -disse Cilla. -E se quiserem chegar a tempo, me parece que j  hora de se lavarem e irem para cama -o protesto poderia ter sido mais veemente 
s no foi por ter sido um dia estafante para os meninos. Cilla moveu a cabea e olhou para Boyd. -Capito? 
-Muito bem -se levantou e carregou  Bryant sobre o ombro, provocando-lhe gargalhadas-. Em marcha. 
-Te darei uma mo -Natalie pegou Keenan do colo de Ry-. D boa noite, amigo. 
-Boa noite, amigo -repetiu, esfregando o nariz contra o pescoo dela - Voc cheira to bem como Thea, tia Nat. 
-Obrigada, querida. 
-Vai contar uma histria? 
-Chantagista -riu enquanto o levava. 
-Bonita famlia -comentou Ry. 
-Gostamos -Deborah lhe sorriu. -Voc lhes ofereceu algo que esperaro ansiosamente. 
-No  nada. Os rapazes do quartel adoram se exibir para os meninos. Um jantar estupendo. 
-Frank  um entre um milho -admitiu Deb. -Um antigo batedor de carteiras-fechou a mo sobre a de Gage-. Que agora emprega esses dedos geis para criar milagres 
gastronmicos. Por que no tomamos o caf no salo pequeno? Irei ajudar o Frank. 

-Casa enorme -disse Ry quando Gage e ele abandonaram o refeitrio e se dirigiram ao salo-. No se perde nunca? 
-Tenho um bom sentido da orientao. No salo ardia o fogo na lareira; as luzes estavam baixas e eram acolhedoras. Uma vez mais Ry recebeu a impresso de lar. -Foste 
policial,  verdade? 
-Sim -se esticou numa cadeira. -Meu colega e eu trabalhvamos numa operao policial que deu errado. Muito mau -ainda lhe doa, mas as feridas j haviam cicatrizado. 
-Meu parceiro acabou morrendo e faltou pouco para acontecer o mesmo comigo. Quando recuperei os sentidos, no quis mais voltar a usar um distintivo. 
-No duro -Ry sabia que era muito mais. Se no se recordava mal da histria, Gage tinha permanecido meses em coma antes de regressar  vida-. De maneira que acabou 
se dedicando aos negcios da famlia. 
-Pode-se dizer que foi assim. Temos algo em comum. Voc tambm est no negcio familiar. 
-Pode-se qualificar desse modo -o olhou aos olhos. 
-Te pesquisei. Natalie  importante para Deborah, e para mim. Posso adiantar-te que Boyd vai perguntar se  importante para t -levantou a vista quando Boyd entrou. 
-Foi rpido. 
-Vi minha oportunidade e no a desperdicei - sentou e cruzou as pernas  altura dos tornozelos. -E bem, Piasecki, o que h entre minha irm e voc? 
Ry chegou  concluso de que j tinha sido bastante corts e pegou um cigarro. Acendeu-o e jogou o fsforo num cinzeiro de cristal. 
-Eu diria que qualquer um que consegue ascender a capito de polcia j teria que ter deduzido. 
Gage tossiu para conter o riso e Boyd semicerrou os olhos. 
-Natalie no  uma pessoa descartvel -disse com cautela. 
-Sei o que  -rebateu Ry. -E tambm o que no . Se quer interrogar algum a respeito do que h entre ns, capito, ser melhor que comece por ela. 
-Me parece justo -assentiu depois de medit-lo-. Faa-me um resumo da investigao dos incndios. 
Decidiu que podia faz-lo. Relatou a seqncia, os fatos, os passos que tinha dado e as concluses  que tinha chegado, respondendo s perguntas secas de Boyd com 
igual brevidade. 
-Aposto em Clarence -concluiu-. Conheo o sistema que emprega e como funciona sua mente perturbada. E o pegarei -disse, expelindo uma baforada de fumaa-.  uma 
promessa. 
-Enquanto isso, Natalie precisa ser protegida -Boyd apertou os lbios-. Eu me ocuparei disso. 
-J fiz -Ry apagou o cigarro. 
-Falava de segurana pessoal. Nada a ver com polcia. 
-E eu tambm. No vou deixar que nada lhe acontea -continuou enquanto Boyd o estudava-.  outra promessa. 
-Acredita que ela escutar e obedecer? -bufou Boyd. 
-Sim. No vai ter outra alternativa. 
-Pode ser que apesar de tudo nos daremos bem, inspetor. 
-Muito bem, um descanso -ordenou Deborah ao entrar com um carrinho carregado com uma enorme cafeteira de prata e xcaras de porcelana Meissen-. Sei que falavam de 
trabalho. 
Gage se levantou para tirar-lhe o carrinho e dar-lhe um beijo. 
-Est irritada porque perdeu o assunto. 
-Exato. 
-Jacoby -disse Boyd-. Clarence Robert. Faz lembrar alguma coisa? 
Ela franziu o cenho enquanto servia caf. 
-Jacoby. Tambm conhecido como Jack Jacoby? - entregou uma xcara a Boyd e outra a Ry-. Faz alguns anos de que lhe puseram uma fiana por uma acusao de incndio 
provocado. 
-Gosto da  sua mulher - disse Ry a Gage-. No h nada como uma mente aguda num envoltrio de primeira. 
-Obrigado -Gage se serviu de uma xcara-. Com freqncia penso o mesmo. 
-Jacoby -repetiu Deborah-. Acredita que seja ele? 
-Sim. 
-Teremos seu historico -olhou para seu marido. Os computadores da sala oculta de Gage podiam descobrir qualquer coisa que tivesse sobre Jacoby-. No estou segura 
de quem levou o caso, mas o averiguarei na segunda-feira e me encarregarei de que receba toda a informao de que disponhamos. 
-Te agradeceria. 

-Como conseguiu ocupar-se da fiana? -quis saber Boyd 
-No  saberei at que veja o histrico -indicou Deborah. 
-Eu posso falar-te dele -Ry bebeu o caf, atencioso ao possvel regresso de Natalie. No estava segura de que gostavam que se falasse da situao em sua ausncia-. 
Seu interesse se centra em edifcios vazios, armazns, e apartamentos embargados. As vezes os proprietrios o contratam para cobrar o seguro, as vezes o faz por 
prazer. S o julgamos duas vezes, e recebeu uma condenao. Em nenhuma das duas ocasies teve baixas humanas. Clarence no queima  gente, s coisas.
-E agora anda solto -comentou Boyd desagradado. 
-Por momento -conveio Ry-. Estamos prontos para peg-lo -recolheu outra vez a xcara quando ouviu a Natalie e A Cilla rir no corredor. 
-Voc  mole, Nat. 
- meu dever, e meu privilgio.
Entraram juntas. Cilla de imediato se dirigiu para Boyd e se sentou no seu colo.
-O fizeram passar pelo aro. 
-No  verdade -Natalie se serviu caf e rio-. No exatamente -lhe sorriu a Ry antes de sentar-se a seu lado-. E bem -comeou-, terminaram de falar de minha vida 
pessoal e profissional? 
-Uma mente aguda -comentou ele-. Num envoltrio de primeira. 



Mais tarde, enquanto se afastavam da manso Guthrie, Natalie estudou o perfil de Ry. 
-Deveria desculpar-me por Boyd? 
-No sacou as mangueiras -se encolheu de ombros-. Est bem. Tenho duas irms, e sei o que . 
-Oh -franziu o cenho e olhou pela janela-. No sabia que tivesses irmos. 
-Sou polaco e irlands, achou mesmo que seria filho nico? -lhe sorriu-. Duas irms maiores, uma vive em Columbus e a outra em Baltimore. E um irmo mais jovem do 
que eu, que reside em Phoenix. 
-So quatro -murmurou. 
-At que conta os sobrinhos. A ltima vez eram oito, mas meu irmo espera outro. 
-Voc  o nico que ficou em Urbana. 
-Sim, todos queriam ir-se. Eu no -girou pela rua onde vivia ela e diminui a marcha-. Vou ficar esta noite, Natalie? 
Ela voltou a olh-lo. Perguntou-se como podia ser to desconhecido e precis-lo tanto ao mesmo tempo. 
-Quero que fiques-reps-. Desejo-o. 

Capitulo 8

-Posso baixar pelo tubo, senhor Pisessy? Por favor, posso? 
Ry sorriu pelo modo em que Keenan massacrou seu nome e girou o bon de beisebol do pequeno para que a viseira ficasse para atrs. 
-Me chame de Ry. E claro que pode . Agenta -rindo, tomou a Keenan pela cintura antes de que o pequeno pudesse saltar ao tubo-. No est com medo, est? 
-No -Keenan girou a cabea e sorriu. 
-Faamos desta maneira -com o menino firmemente sujeito contra seu quadril, Ry alongou a mo para o tubo-. Pronto? 
-Vamos! 
Com movimento fludo, Ry se lanou ao esvaziamento. Keenan no deixou d rir durante todo o descenso.

-Outra vez! -gritou- Outra vez! 
-Seu irmo quer provar -Ry alou a vista e viu a cara ansiosa entre a abertura-. Vamos, Bryant, adiante. 
-Est claro que tem jeito de pai -murmurou Cilla enquanto observava seu filho descer pelo tubo. 
-Cala-se, Cilla -Natalie meteu as mos nos bolsos da jaqueta. Ela tambm se morria por provar. 
-S foi uma observao. Essa  minha garota, Allison -adicionou, animando  pequena quando se posou com ligeireza no solo-. Faz que os garotos se sintam importantes.
-O sei.  muito doce de sua parte -sorriu quando Ry cedeu ante o desejo de Keenan de repetir-. No sabia que pudesse ser doce. 
-Ah, tem qualidades ocultas -Cilla olhou para onde Boyd mantinha uma conversa com dois bombeiros uniformizados-. Com freqncia so as mais atraentes num homem. 
Em particular quando est louco por ti. 
-No o est -se surpreendeu ao sentir que se ruborizava-. S... desfrutamos o um do outro. 
-Sim, claro -com o reflexo que dava a prtica, Cilla se agachou para atrapar a seu filho menor quando se lanou para ela. 
-Olha, mame.  um capacete de bombeiro de verdade -o capacete que lhe tinha dado Ry escorregou por sua cara-. E Ry diz que agora podemos ir sentar num carro -depois 
de retorcer-se para baixar dos braos de sua me, gritou-lhe a seus irmos-: Vamos! 
Acompanhados por dois bombeiros, os meninos foram vistoriar um dos veculos. Boyd fez um sinal a Cilla para que esperasse e desapareceu escadas aporta com Ry. 
-Bom -encolheu os ombros-. Esqueceram das mulheres. Vo a falar de coisas oficiais. 
-Gostaria que Boyd no se preocupasse tanto. No h nada que ele possa fazer. 
-Os irmos maiores esto programados para preocupar-se -passou um brao pelo ombro de Natalie-. Mas, se isso te ajuda, sente-se bastante menos preocupado desde que 
conheceu  Ry. 
-Suponho que  algo -relaxada outra vez, foi com Cilla para a parte traseira do veculo-. Como se encontra Althea? A ltima vez que falei com ela, afirmava que estava 
to grande como duas casas e aborrecida por desempenhar trabalho de escritrio na delegacia. 
- a futura mame mais sexy que conheci. Desde que Boyd e Colt se uniram em seu contra, desfruta de uma permisso de maternidade. Faz umas semanas fui v-la e a 
surpreendi bordando. 
-Bordando? -Natalie rio com vontades-. Althea? 
- engraado o que conseguem o casal e a famlia. 
-Sim -o sorriso de Natalie se difumin-. Suponho que  verdade. 
Acima, Boyd franzia o cenho enquanto repassava os relatrios de Ry. 
-Por que no escritrio? -perguntou-. Por que no iniciou o fogo no trreo? Dessa maneira teria podido causar mais perdas em menos tempo. 
-A vitrine o poderia ter delatado. Imagino que o armazm teria sido mais lgico se sua inteno tivesse sido queimar todo o lugar.  um espao fechado, cheio de 
material e de caixas -deixou a um lado a xcara de caf-. Creio que seguia instrues. Clarence gosta de trabalhar para outros. 
-As de quem? 
-A radica todo -empurrou o cadeiro e apoiou os ps na escrivaninha-. Tenho dois fogos provocados que sem dvida esto relacionados. O objetivo em ambos foi uma 
nica empresa e os dois, parece-me, foram iniciados pela mesma pessoa. 
-De maneira que est ao servio de algum -Boyd soltou os relatrios-. Um competidor? 
-Estamos comprovando.
 -Mas  pouco provvel que um competidor pudesse dar-lhe a Clarence acesso aos dois lugares. No encontraste rasto algum de que tivesse forado a entrada. 
-Assim  -acendeu um cigarro-. O que nos leva  organizao de Natalie. 
-No posso dizer que conheo a sua gente -se incorporou para caminhar pelo escritrio-, e menos ainda neste novo projeto. Eu no me ocupo dos negcios Fletcher a 
no ser que no tenha outra sada -nesse momento o lamentou, porque de ter estado mais familiarizado com os procedimentos e o pessoal, teria podido ser-lhe a mais 
ajuda a sua irm-. Mas posso obter muita informao de meus pais, em particular sobre os altos executivos. 
-No nos viria mau. O fato de que s se produzissem danos superficiais no ltimo incndio me conduz  concluso de que ter outro. Se Clarence segue seu padro de 
conduta, a atacar nos prximos dez dias -fez a um lado os papis-. Estaremos esperando. 
Boyd avaliou ao homem. No duro, inteligente, mas, tal como sabia por experincia pessoal, o trabalho podia complicar-se quando o responsvel da investigao se relacionava 
pessoalmente com o alvo. 
-E enquanto o espera, manter Natalie  margem. 
-Essa  a idia. 
-E enquanto faz isso, vai ser capaz de separar  mulher com a que est se  relacionado do caso que tenta solucionar. 
Ry arqueou uma sobrancelha. Isso ia representar um desafio, e a dificuldade que lhe proporia no tinha deixado de rondar por sua cabea. O problema era que no estava 
disposto a deixar nem  mulher nem ao caso. 
-Sei o que h de fazer, capito. 
Boyd assentiu e apoiou as mos na mesa. 
-Vou confiar ela a voc, Piasecki, em todos os sentidos. Se acabar ferida, em qualquer sentido, virei procurar-te. 
-Me parece justo.


-Eh, um carro de bombeiros vermelho e reluzente, um tubo... como podia falhar? 
-Obrigado -rindo, rodeou-lhe o pescoo e lhe deu um beijo suave. 
-Por? 
-Por ser to amvel com minha famlia. 
-No me custou nenhum esforo. Gosto dos meninos. 
-Se nota. E... -o voltou a beijar-... isto  por tranqilizar  Boyd. 
-Eu no iria to longe. Ainda tem a idia de dar-me um murro se me equivoco com sua irm menor. 
-Bom, ento... -o olhou-. Ser melhor que tenha cuidado, porque meu irmo maior  duro. 
-No faz falta que o descreva -a fez girar para as portas da estao-. Sobe comigo. Preciso recolher algumas coisas. 
-De acordo -quando subiam os degraus comeou a soar o alarme -Oh -o som de ps em corrida revelou-se embaixo deles-. Lamento pelos garotos -ento se deteve-.  terrvel 
pensar que um incndio possa ser uma diverso. 
- uma reao natural. Sinos, mangueiras, homens com uniformes atraentes.  um espetculo.


Se dirigiram ao escritrio dele e Natalie esperou enquanto recolhia uns papis. 
-Alguma vez j teve que resgatar gatos das rvores? 
-Sim. E numa ocasio tive que resgatar uma iguana de algum de uma enchente. 
-Brincas. 
-Eh, nunca caoamos sobre os resgates -ergueu a vista e sorriu, sem poder tirar-lhe a vista de em cima. 
-De que se trata? -se moveu com timidez sob seu escrutnio-. Keenan me deixou alguma mancha no rosto? 
-No. Est fantstica, Pernas. Quer ir a algum lugar? 
-A algum lugar? -a idia a desconcertou. Aparte do desafio do primeiro jantar, em realidade no tinham ido juntos a nenhum lado. 
-Ao cinema. Ou... -sups que poderia surpreende-lo-... a um museu ou algo assim. 
-Eu... Sim, seria agradvel -pensou que no deveria de ser to incmodo planejar um  simples encontro com algum com quem se dormia. 
-Que? 
-O que achar melhor. 
-De acordo -guardou os papis numa valise velha-. Ter algum jornal abaixo. Daremos uma olhada. 
-Perfeito -ao pr-se em marcha, Natalie olhou primeiro em direo  escada e depois ao tubo. Respirou fundo e se rendeu-. Ry? 
-Sim. 
-Posso descer pelo tubo? 
-Quer descer pelo tubo? parou o que fazia e a observou. 
-Tenho de faz-lo -sorriu e encolheu de ombros-. Est me deixando louca. 
-Srio? -com um sorriso, apoiou uma mo em seu ombro e a fez voltar-se-. De acordo, tia Nat. Eu baixarei primeiro, para que no fique nervosa. 
-No acredito -manifestou-. Quero que saiba que fiz alpinismo dzias de vezes. 
-Agarre-se   bem -continuou com uma demonstrao-. Salta e ao descer xar rodeia o tubo com as pernas. 
O  mostrou com um movimento veloz e fluido. Com o cenho franzido, ela adiantou o torso e o contemplou acima. 
-Voc no rodeou o tubo com as pernas. 
-No preciso -reps-. Sou um profissional. Venha, e no se preocupe... eu a esperarei. 
-No preciso -ofendida, jogou o cabelo para atrs. Agarrou com firmeza o tubo de lato e com agilidade se lanou ao espao. 
Tudo decorreu em poucos segundos. Seu corao mal tinha disposto de tempo para assentar-se quando posou os ps no solo. Rindo, ergueu a vista com saudade. 
-Viu? No precisava... -o alarde terminou com um grito quando ele a levantou no colo-. Que? 
-Tem uma habilidade nata -sorria ao baixar a boca para beij-la. E uma surpresa constante para mim, pensou. 
-Poderia repet-lo -ladeou a cabea ao rodear-lhe o pescoo com os braos. 
-Se o fazes com uma liga vermelho, um par desses sapatos de salto alto que tanto gostas e me deixas tirar uma foto, os garotos agradecero. 
-Creio que prefiro fazer um donativo de dinheiro a corporao. 
-No  o mesmo. 
-Inspetor? -o recepcionista assomou a cabea por uma porta. Sorriu devagar ao ver  mulher em braos de Ry-. Suspeita de fogo no doze de East Newberry. Querem que 
v. 
-Diga que j estou indo -deixou a Natalie de p-. Sinto. 
-Est bem. Sei como so estas coisas -se repreendeu, dizendo-se que sua decepo era desproporcionada- Tenho de pr-me ao dia com uns documentos. Tomarei um txi. 
-A levarei a casa -indicou Ry-. Fica de passagem -a conduziu para o banco onde Natalie tinha deixado o casaco-. Vai estar em seu apartamento? 
-Sim. Tenho de repassar uns relatrios. 
-A chamarei. 
-De acordo -aceitou acima do ombro, enquanto ele a ajudava a pr-se o casaco. 
OBRIGOU-A a girar do todo e se deu o gosto de dar-lhe um ltimo e prolongado beijo. 
-Te direi o que farei, passarei a ver-te quando terminar. 
-Melhor -se esforou por recuperar o alento-.  Bem melhor.

No meio da semana, Natalie tinha descoberto que, pela primeira vez desde que tinha memria, ia com atraso em sua agenda. Levava dias sem dedicar uma noite ao trabalho. 
Era impossvel, j que Ry e ela passavam juntos todos os momentos livres. Cada noite se reuniam em seu apartamento e pediam o jantar, que a maioria das vezes tinham 
que reaquecer depois de ter-se dado um banquete mtuo. 
Deixava de pensar no trabalho quanto Ry entrava e at que saa para o escritrio  manh seguinte. 
No pensava em nada exceto nele. 
Estou enfentiada, reconheceu ao olhar pela janela de seu escritrio. Fascinada pelo homem e pelo que sucede cada vez que estamos um nos braos do outro. 
Sabia que era uma loucura. Mas pelo momento resultava to maravilhosa, que no parecia importar. 
E podia justific-lo, j que ainda no tinha perdido nenhuma reunio nem citao de trabalho. Depois de receber o visto bom de Ry, tinha autorizado  equipe de limpeza 
a voltar a decorar a loja principal. O inventrio estava quase todo em seu lugar e a vitrine acabada. 
S faltavam uns dias para que tivesse lugar a grande inaugurao nacional, e no se tinham produzido mais incidentes. Assim era como gostava de recordar os incndios. 
Como incidentes. 
Desde depois, teria que estar fazendo planos para ir visitar todas as sucursais nos seguintes dez dias. Mas a idia de viajar lhe resultava deprimida. Solitria. 
Poderia delegar o percurso em Melvin ou em Donald. Nem sequer estaria fora de lugar. Mas no era seu estilo delegar algo que ela mesma podia fazer. 
Pensou que se as coisas se tranqilizavam, Ry poderia pedir uns dias livres para acompanh-la. Seria maravilhoso ter sua companhia numa rpida viagem de negcios. 
Poderia posterg-lo at a inaugurao, em vez de ir antes, e ento... 
Deu-lhe as costas  janela e contestou o intercomunicador. -Sim, Maureen. 
-A Senhorita Marks quer v-la, SenhoritaFletcher. 
-Obrigada. Diga que entre -com um esforo, desterrou os pensamentos pessoais a um rinco de sua mente e lhe deu as boas vindas a sua executiva contabilista. 
-Deirdre, sente-se. 
-Lamento estar to atrasada -com um sopro afastou o cabelo da cara antes de depositar uma pilha de pastas sobre a mesa de Natalie-. Cada vez que nos damos a volta, 
o sistema se bloqueia. 
-Chamaste ao engenheiro de manuteno? -franziu o cenho e recolheu a primeira pasta

-Praticamente tenho vivido atrs dele - se sentou e cruzou um sapato sem saltos sobre o joelho-. Arruma, avanamos e volta a bloquear. Acredito que realizar clculos 
se converteu num desafio. 
-Ainda temos tempo antes de fechar o trimestre. Esta tarde chamarei aos tecnicos. Se sua equipe  instvel, tero que o substituir. De imediato. 
-Boa sorte -comentou Deirdre com secura-. A boa notcia  que pude realizar um grfico com as primeiras vendas do catlogo. Acredito que gostars dos resultados. 
-Mmm... -se ps a folhear as pastas-. Por sorte, os incndios no destruram os registos.Tal como est o sistema, suaria tinta chinesa sem as cpias que tnhamos. 
-Bom, relaxe. Eu tenho cpias das cpias, bem como os discos de segurana, tudo bem guardado. Esperava levar a cabo uma auditoria em meados de maro -viu a careta 
de Deirdre antes de que pudesse ocult-la-. Mas -adicionou, reclinando-se-, como sigamos com estes problemas informticos, teremos que a postergar at o fechamento 
do ano fiscal. 
-Bom, voltemos ao que nos ocupa neste momento. O projeto segue dentro dos parmetros calculados. Justo, mas segue. Com o pagamento do seguro, conseguiremos compens-lo. 
Natalie assentiu e se obrigou a concentrar nos oramentos e as percentagens. 




Umas horas mais tarde, num descomposto motel da cidade, Clarence Jacoby acendia fsforos na cama. Tinha as mos regordetas, suaves como as de uma menina. Cada vez 
que acendia uma e observava arder sua chama, esperava at que o calor beijava as pontas de seus dedos antes de apag-la.
O cinzeiro estava a transbordar de fsforos enegrecidos. Era capaz de entreter-se dessa maneira durante horas. 
Quase todas as noites pensava em incendiar o hotel. Seria emocionante iniciar o fogo em sua prpria habitao, observar como crescia e se estendia. Mas no estaria 
s, e isso o freava. 
As pessoas importavam pouco, igual suas vidas. Singelamente, preferia estar s com seus fogos. 
Tinha aprendido a no se ficar muito depois de come-los. As cicatrizes que tinha no pescoo e o peito eram recordatrios dirios da ferocidade que podia adquirir 
o drago, inclusive com algum que o amava. 
De maneira que se contentava com conceber o fogo e abrigar-se um tempo lamentavelmente breve com seu calor antes de sair. 
Seis meses antes, em Detroit, tinha incendiado um armazm abandonado que o proprietrio j no precisava ou queria. Era a classe de favores, rentveis em todos os 
sentidos, com os que Clarence desfrutava. Tinha-se ficado a contempl-lo arder, desde o exterior do edifcio e sumido nas sombras. Mas tinham estado a ponto de captur-lo. 
Esses polcias e inspetores de bombeiros estudavam  multido em procura de uma cara como a sua. 
Uma cara adoradora, feliz. 
Com um sorriso, acendeu outro fsforo. Mas tinha conseguido escapolir. E tinha aprendido outra lio. No era inteligente ficar olhando. No lhe fazia falta. Tinha 
tantos fogos, tantas confraternizaes ferozes e formosas que viviam em sua mente e em seu corao, que no fazia falta ficar. 
S tinha que fechar os olhos para v-las. Sent-las. Cheir-las. 
Saboreava seus pensamentos quando soou o telefone. Seu rosto redondo e infantil mostrou alvoroo ao ouvir o som. S uma pessoa tinha o nmero dessa habitao. E 
essa pessoa s teria um motivo para chamar. 
Soube que era hora de voltar a liberar ao drago. 


Ante sua mesa, Ry analisava os relatrios do laboratrio. Eram quase as sete e j estava escuro no exterior. Tinha uma xcara de caf ao lado. 
Precisava parar esse dia. Reconhecia o lento processo de bloqueio de sua mente e seu corpo. De um modo ou outro, nas ltimas semanas tinha adquirido um hbito do 
que comeava a depender. 
Comeava a acostumar a fechar o dia para dirigir-se ao apartamento de Natalie. Inclusive j dispunha de uma chave, entregada e recebida sem muita cerimnia. Como 
se nenhum deles quisesse reconhecer o que representava essa singela pea de metal. 
Ento comiam, batiam um papo ou talvez viam um filme antigo na televiso, algo que por acidente tinham descoberto que os encantava. 
Pensou que a maior parte do que tinham descoberto um sobre o outro tinha sido por acidente. Ou por observao. 
Sabia que a ela encantava tomar banhos de espuma pela noite, com o gua muito quente e uma copa de vinho branco bem frio na borda da banheira. Tirava os sapatos 
nada mais entrar e guardava cada coisa em seu lugar. 
Dormia com lenis de seda e tirava os cobertores. O despertador soava s sete em ponto cada manh, e se no era rpido para demor-la, segundos mais tarde j se 
tinha levantado da cama. 
Tinha debilidade pelos sorvetes de morango e pela msica dos anos quarenta. 
Era leal, inteligente e forte. 
E estava apaixonado por ela. 
Recostando-se no cadeiro, fechou os olhos. Concluiu que isso era um problema. Seu problema. Tinham atingido um acordo tcito, e ele o sabia. Nada de laos. 
Ele no os queria. Deus sabia que no podia permitir-se com Natalie. 
Eram opostos em todos os sentidos. As necessidades fsicas que os tinham unido, sem importar o intensas que fossem, no podiam suplantar todo o resto. No a longo 
prazo. 
Faria o mais inteligente, o correto, e se encarregaria de sua segurana at que passasse a ameaa dos incndios. E ali se acabaria todo. Assim tinha que ser. 
E para que ambos se poupassem uma cena desagradvel, comearia a retirar-se pouco a pouco. A partir desse momento. 
Se levantou e recolheu a jaqueta. Essa noite no iria a sua casa. Olhou com expresso culpada o telefone, pensando em cham-la para dar-lhe alguma desculpa. 
Soltou um juramento e apagou a luz. Recordou-se que no era seu maldito marido. 
Nunca seria. 
Dominado por uma insistente sensao de inquietude, como uma ardncia entre os omplatos, conduziu at a fbrica de Natalie. Desde que abandonou a estao, no tinha 
parado de ir de um lado a outro de carro. 
Eram as dez da noite passadas; no tinha lua nem soprava o vento. 
Curvado diante do volante, tratou de no pensar nela. 
Com certeza a nica coisa que fez foi pensar nela. 
O mais provvel era que Natalie estivesse se perguntando por onde andaria. Daria por fato que tinha recebido um telefonema. O esperaria. A culpa voltou a remexer 
dentro dele. Era a emoo que menos gostava. No era correto ser desconsiderado, preocup-la porque tinha se assustado. 
E talvez no a amasse. Talvez s fora um capricho. Um homem podia ficar-se caidinho por uma uma mulher sem querer cortar o pescoo quando ela ia. Verdade?. 
Desagradado, estendeu a mo para o telefone do carro. O menos do que podia fazer era cham-la para dizer-lhe que estava ocupado. Assegurou-se do que isso no era 
fichar. S ser educado. 
Desde quando o preocupavam os bom modos? 
Com uma maldio, ps-se a marcar o nmero. 
Mas a coceira regressou com mais intensidade. Hesitou, escrutinando a escurido, pendurou. Tinha ouvido algo? Uma olhada ao relgio lhe indicou que a patrulha que 
tinha atribudo realizaria sua ronda em dez minutos. 
Decidiu que at ento no faria nenhum dano realizar uma inspeo a p. 
Abriu a porta e desceu do veculo. S ouvia o leve som do trfico a duas mas de distncia. Com cautela, sacou a lanterna do carro, mas no a acendeu. Tinha os 
olhos bastante acostumados  escurido como para saber onde pisava. 
O instinto o impulsionou a dirigir-se em silncio  parte de trs. 
Daria um crculo e comprovaria cada porta e janela do trreo. 
Voltou a ouv-lo, algo parecido ao som de um p sobre o cascalho. Mudou de mo a lanterna, sustentando-a como um arma ao acercar-se. Tenso, pronto, avanou entre 
as sombras. Soube que se se tratava do guarda de segurana, ia dar-lhe o susto de sua vida. Caso contrrio... 
Um riso. Leve e feliz. O lento gemido de uma porta de metal ao mover-se sobre seus goznes. 
Acendeu a lanterna e alumiou a Clarence Jacoby. 
-Como est, Clarence? -sorriu enquanto o outro piscava devido ao resplendor-. Tenho o esperado. 
-Quem ? -a voz de Clarence se elevou de tom-. Quem ? 
-Eh, sinto-me magoado -baixou o faz luminoso da cara de Clarence e se aproximou-. No reconhece  um velho amigo? 
Com os olhos semicerrados, Jacoby separou ao homem das sombras. Ao instante sua expresso desconcertada exibiu um amplo sorriso. 
-Piasecki. Eh, Ry Piasecki. Como est? Agora s inspetor, verdade? Isso ouvi. 
-Correto. Tenho estado te procurando, Clarence. 
-Sim? -com timidez, baixou a cabea-. E isso? 
-Apaguei o pequeno incndio que provocaste a noite passada. Deves estar perdendo o toque, Clarence. 
-Eh... -sem deixar de sorrir, o outro estendeu os braos-. No sei nada disso. Recorda quando nos queimamos, Piasecki? Foi uma noite infernal, verdade? Aquele drago 
sim que era grande. Esteve a ponto de devorar-nos. 
-Lembro-me. 
-E tambm te deu um bom susto -Clarence se humedeceu os lbios-. Ouvi s enfermeiras do pavilho falar de pesadelos. 
-Tive alguns. 
-E j no combate o fogo, eh? J no queres matar ao drago, verdade? 
-Prefiro achatar a animais pequenos como voc -baixou a lanterna e a fez brilh
ar nas latas de gasolina que tinha junto aos ps do outro-. Que me diz, Clarence? 
-No fiz nada -girou para lanar-se para a escurido. 
No momento em que Ry saltava para diante, o outro retrocedeu bruscamente, como impulsionado por um fio. Aturdido, Ry observou os braos revestidos de negro que pareceram 
sair da parede do edifcio e fechar-se em torno do pescoo de Clarence. 
Ento foi uma sombra que saa do nada. Depois um homem que saa de uma sombra. 
-Creio que o inspetor no tinha terminado de falar contigo, Clarence -ao olhar a Ry, Nmesis manteve um brao em torno do pescoo do homenzinho-. Verdade, inspetor? 
-Certo -Ry soltou o alento contido-. Obrigada. 
-Foi um prazer. 
- um fantasma. Um fantasma me pegou -os olhos de Clarence se puseram em alvo e se desmaiou.

-Imagino que poderia t-lo manejado s -Nmesis entregou o corpo flcido a Ry, e esperou at que este o ajeitou sobre um ombro. 
-De todos modos, o agradeo. 
-Gosto do seu estilo, inspetor -um sorriso e dentes muito brancos. 
-O mesmo digo. Quer explicar-me esse truque de sair da parede? -comeou, mas antes de terminar a frase soube que falava com o ar-. No est mal -murmurou, movendo 
a cabea enquanto colocava  Clarence no carro-. Nada mau. 

O telefone acordou Natalie, que tinha dormido no sof. Aturdida, respondeu, ao mesmo tempo em que tratava de ver a hora no relgio. 
-Sim, oi? 
-Sou eu,Ry. 
-Oh - esfregou o olhos-. J passa da uma. Estava... 
-Lamento acordar-la. 
-No, no  isso. O que aconteceu... 
-O temos. 
-Que? -a irritao de que ainda no lhe tivesse permitido acabar uma frase agudizou sua voz. 
- Clarence. Capturei-o esta noite. Pensei que quererias sab-lo. 
-Sim, com certeza -sua mente foi um redemoinho-.  maravilhoso. Mas, quando...? 
-Estou ocupado aqui, Natalie. A chamarei quando puder. 
-De acordo, mas... -afastou o fone e o olhou furiosa-. Felicidades, inspetor -murmurou, pendurando. 
Com as mos nos quadris, respirou fundo vrias vezes para acalmar-se e arejar a cabea. 
Tinha estado muito preocupada. Ainda que teve que reconhecer que era por sua prpria culpa. Ry no tinha nenhuma obrigao de ir v-la depois do trabalho, nem de 
chamar. Ainda que levasse dias fazendo-o, e ainda que ela tivesse esperado horas junto ao telefone at que a simples fadiga lhe poupou essa humilhao. 
Esquece isso, ordenou-se. O que importa  que Clarence Jacoby est sob custdia. J no ter mais incndios... nem mais incidentes. 
Ao ir ao dormitrio dominada pelo mau humor, prometeu-se que pela manh localizaria a Ry e lhe esclareceria toda a histria. 
Enquanto tirava a bata, disse-se que o nico que tinha que fazer era voltar a acostumar-se a dormir s outra vez. 
Mas ao apoiar a cabea no travesseiro, soube que ia ser uma noite muito longa. 


Capitulo 9


Como tinha pouco sentido regressar a sua casa depois de terminar na delegacia, Ry se jogou no sof de seu escritrio e conseguiu dormir trs horas antes de que as 
cirenes o acordassem. 
Seguindo um velho costume, apoiou os ps no solo antes de recordar que j no tinha que responder ao som de uma sino. Anos de treinamento lhe teriam permitido dar 
a volta e voltar a dormir. Mas, com olhos enrojecidos, dirigiu-se para a cafetera, encheu-a de gua, ps-lhe o filtro e a conectou. Seu nico objetivo nesse momento 
era levar-se uma xcara enorme com caf at os chuveiros, e permanecer ali uma hora. 
Acendeu um cigarro e observou como ia enchendo a cafetera gota a gota. 
Uma batida na porta fez que franzisse o cenho. Voltou-se e dirigiu seu mau humor contra Natalie. 
-Sua secretria no est. 
- cedo demais - passou uma mo pela cara. Por que diabos sempre tinha que parecer to perfeita?-. V, Natalie. Ainda no acordei. 
-No irei -lutando por no se sentir doida, deixou a valise e apoiou as mos nos quadris. Era evidente que ele tinha dormido pouco. Seria paciente-. Ry, tenho de 
saber que aconteceu ontem  noite, para poder planificar os passos que h que dar. 
-J te contei. 
-No foste muito generoso com os detalhes. 
Com gesto impaciente, tomou uma xcara e verteu todo o caf que j se tinha preparado, que s a encheu at a metade. 
-Capturamos a tua tocha. Est sob custdia. No vai acender nenhum fogo numa temporada. 
Natalie se recordou que devia ser paciente e se sentou. 
-Clarence Jacoby? 
-Sim -a olhou. Que eleio tinha? Estava ali, assombrosa, formosa e perfeita-. Por que no vai trabalhar e deixa que eu me organize aqui? Te redigirei um relatrio. 
-Aconteceu algo? -insistiu ela, de repente nervosa. 
-Estou cansado. No consigo tomar uma xcara decente de caf e preciso um chuveiro. E quero que deixe de respirar no meu pescoo. 
Natalie primeiro registrou surpresa, depois deu passo  dor. 
-Sinto Muito -murmurou com voz fria enquanto se incorporava-. Preocupava-me o que tinha sucedido ontem  noite. E queria certificarme de que se encontrava bem. Como 
vejo que assim ... -recolheu a valise-. E como ainda no dispuseste de tempo para escrever teu relatrio, te deixarei em paz. 
Ele soltou um praga e se alisou o cabelo. 
-Natalie, sente-se. Por favor -adicionou ao ver que permanecia indignada junto  porta-. Sinto. Estou um pouco estressado esta manh, e cometeu o erro de ser a primeira 
pessoa em se encontrar na linha de fogo.

-Estava preocupada -disse baixinho, mas no se moveu. 
-Estou bem -se voltou para encher do todo a xcara-. Quer um pouco? 
-No. Teria que ter esperado que me chamasse. Compreendo-o -se deu conta de que era como se de repente tivesse que caminhar na ponta dos ps. Uma noite separados 
no deveria de fazer que se sentissem to incmodos. 
-Nesse caso, teria me preocupado com voc -conseguiu sorrir. Deu-se conta de que era um golpe muito sob desafogar-se com ela pelo medo que lhe inspirava a direo 
que tinham tomado-. Sente-se. Te farei um resumo do sucedido. 
-De acordo. 
Enquanto ela se sentava, Ry rodeou a escrivaninha e ocupou o cadeiro. 
-Tive um pressentimento, ou como queiras cham-lo. Decidi passar por tua fbrica, para jogar uma olhada e comprovar em pessoa a segurana. Algum mais teve a mesma 
idia. 
-Clarence. 
-Sim, estava ali e planejava uma festa. Tinha desconectado o alarme. Dispunha de um jogo completo de chaves da entrada de atrs. 
-Chaves -se adiantou com expresso intensa. 
-Assim . Cpias novas. Agora esto em poder da polcia. No teria deixado nenhum rasto. Tambm tinha uns quantos litros de gasolina de alto octanaje e umas dzias 
de caixas de fsforos. Assim que estabelecemos uma pequena conversa e no gostou do rumo que tomava, porque tentou escapar -fez uma pausa, movendo a cabea-. Jamais 
vi algo parecido -murmurou-. Nem sequer estou seguro de t-lo visto. 
-Que? -perguntou impaciente-. O perseguiste? 
-No foi necessrio. Seu amigo se encarregou disso. 
-Meu amigo? -desconcertada, voltou a jogar-se para atrs-. Que amigo? 
-Nmesis. 
-O viu? -abriu os olhos assombrada-. Estava ali? 
-Sim e no. Ou no e sim. No sei muito bem qual das duas opes. Saiu da parede. Saiu da maldita parede, como fumaa. No estava ali, e depois estava. Para deixar 
de estar. 
-Ry, creio que precisa dormir mais -arcou uma sobrancelha. 
-No h dvida a respeito -se esfregou a nuca rgida-. Mas sucedeu assim. Saiu da parede. Primeiro os braos. Eu me achava a uns metros, vi como saam seus braos 
e sujeitavam a Clarence. Depois apareceu todo. Clarence desmaiou -sorriu ao record-lo-. E Nmesis me entregou e desapareceu. 
-Nmesis... desapareceu? 
-Como por arte de magia. De volta  parede, no ar -estalou os dedos para demonstr-lo-. No sei. Provavelmente permaneci ali cinco minutos com a boca aberta antes 
de levar Clarence ao furgo. 
-Me ests dizendo que desapareceu adiante de seus olhos? 
-Exatamente. 
-Ry -disse com renovada pacincia-, isso no  possvel. 
-Eu estava apresente -lhe recordou-. Voc no. Quando Clarence recuperou o sentido, ps-se a divagar sobre fantasmas. Estava to assustado que tratou de saltar do 
veculo em marcha -bebeu caf-. Tive que voltar  a faze-lo dormir...
-O... golpeaste.
Era outra recordao que lhe produzia prazer. Um breve murro nessa mandbula com forma de lua. 
-Estava melhor sem sentido. Ademais, agora j o temos sob custdia. No quer falar, mas dentro de um par de horas vou interrog-lo para ver se lucro que mude sua 
atitude. 
Natalie permaneceu em silncio um momento, tentando assimil-lo. O assunto de Nmesis era fascinante e no to difcil de explicar. Reinava a escurido. Ry era um 
observador treinado, mas inclusive ele podia cometer um erro na escurido. A gente no se desvanecia. 
Em vez de discutir sobre isso, centrou-se em Clarence Jacoby. 
-Ento, no disse por que o contrataram nem quem o fez? 
-Neste momento afirma que tinha sado a dar um passeio. 
-Com vrios litros de gasolina? 
-Oh, acusa-me de t-la contribudo. 
-Ningum vai acreditar nisso -ofendida, ps-se de p.

-No, Pernas, ningum vai acreditar -divertiu e comoveu a defesa instantnea dela-Vamos pega-lo com as mos na massa, e a polcia no demorar em relacion-lo com 
os outros incndios. Quanto Clarence compreenda que espera uma longa temporada  sombra, cantar. Ninguem gosta de cair s. 
Natalie assentiu. No acreditava que entre os ladres tivesse honra. 
-Quando tiver o nome de algum, precisarei sab-lo de imediato. Enquanto, vejo-me limitada nas medidas que posso tomar. 
Ry tamboreou os dedos sobre a mesa. No gostava da possibilidade de que algum na organizao de Natalie, algum prximo dela, fora o responsvel dos incndios. 
-Se Clarence assinala a algum dos teus, a polcia tomar medidas. E vai ser muito mais dura do que uma simples demisso.

-Sou consciente disso. Tambm sou consciente de que ainda que tenhas capturado ao homem que acendeu o fsforo e que minha propriedade se encontra a salvo, o caso 
no terminou -no entanto, a tenso que demonostrava em seus ombros comeava a relaxar-se-. Agradeo que cuides do que  meu, inspetor. 
-A isso se dedicam seus impostos -a estudou acima do borde da xcara-. Ontem  noite senti falta -disse antes de poder conter-se. 
-Bom -sorriu devagar-. Porque eu tambm senti falta sua. Poderamos compens-lo esta noite. Celebrar que meus impostos dem um resultado positivo. 
-Sim - estava afundando, e j no tinha foras para lutar-. Por que no o fazemos? 
-Deixarei que te d esse chuveiro -recolheu a valise-. Me comunicar se a conseguir mais alguma coisa quando falar com Clarence? 
-Claro. Estarei em contato.

-Arrumarei tudo para ir para casa cedo -disse ao ir para a porta. 
-Bom plano -murmurou quando fechou a suas costas.  a terceira vez, pensou. J tinha se afogado dias atrs e nem sequer se tinha dado conta. 
Natalie chegou ao escritrio com andar vivo e convocou uma reunio executiva. S dez se achava sentada na sala de juntas, com os chefes de departamento a ambos lados 
da mesa. 
-Tenho prazer de anunciar que a inaugurao nacional de Lady's Choice segue em marcha, segundo o programado, para o sbado prximo -tal como tinha esperado, soaram 
uns aplausos corteses e murmrios de felicitao-. Gostaria aproveitar esta oportunidade -continuou-, para dar-vos as graas por vosso trabalho duro e vossa dedicao. 
Lanar uma nova empresa deste tamanho requer labor de equipe, longas horas e constante inovao. Dou-vos as graas a todos por ter contribudo o melhor de vocs. 
Em especial agradeo a ajuda que me prestastes nas ltimas semanas, quando a companhia se enfrentou a dificuldades inesperadas. 

Esperou at que cessaram os murmrios sobre os incndios.

-Sou consciente de que esticamos nosso oramento, mas tambm de que no teramos conseguido inaugurar na data prevista se no ter sido pelo esforo extra que contribustes 
todos vocs e vossa gente. Portanto, Lady's Choice se comprazer em apresentar-vos gratificaes a vocs e a todos os empregados o primeiro dia do ms prximo. 
O anncio foi recebido com uma grande mostra de entusiasmo. S Deirdre fez uma careta. Natalie obsequiou um sorriso que mostrava mais prazer que desculpa. 
-Ainda nos fica muito trabalho por diante -prosseguiu-. Estou convicta de que Deirdre vos contar que o anncio da gratificao lhe provocou uma enorme dor de cabea 
-aguardou que os risos remetessem-. Tenho f nela e em Lady's Choice. Ademais... -fez uma pausa sem perder o sorriso, estudando cada um dos rostos-. Desejo tranqilizar-vos 
a todos. Ontem  noite foi capturado o culpado dos incndios. Neste momento se encontra sob custdia policial

Teve aplausos e uma manada de perguntas. Natalie se sentou com as mos juntas sobre a mesa, atenciosa a qualquer signo que lhe indicasse se alguma das pessoas sentadas 
ali comeava a suar. 
-No disponho de todos os detalhes -ergueu a mo pedindo silncio-. S que o inspetor Piasecki surpreendeu ao homem em nossa fbrica. Espero um relatrio completo 
nas seguintes quarenta e oito horas. Enquanto, podemos agradecer a diligncia dos departamentos de bombeiros e de polcia, e continuar com nosso trabalho. 
-Teve um incndio na fbrica? -quis saber Donald-Produziram danos? 
-No. Sei que o suspeito foi capturado antes de entrar no edifcio. 
-Esto seguros de que se trata da mesma pessoa que provocou os incndios no armazm e na loja? -com o cenho franzido, Melvin atirou de sua passarinha. 
-Como irm de um capito de polcia -sorriu Natalie-, estou segura de que as autoridades no realizaro semelhante declarao at que disponham de provas concretas. 
Mas isso parece. 
-Quem ? -inquiriu Donald-. Por que o fez? 
-Uma vez mais, tenho de dizer que no conheo todos os detalhes.  um delinquente conhecido. Creio que um profissional. Estou segura de que seus motivos no demoraro 
em descobrir-se. 

Ry no estava to seguro. Ao meio dia, j levava uma hora com Jacoby sem conseguir nenhum progresso. A sala de interrogatrios era tipicamente apagada. Paredes de 
cor beige, linleo igual, o espelho largo que todo mundo sabia que era para observao exterior. Sentava-se numa cadeira dura e estava apoiado na nica mesa enquanto 
fumava com gesto preguioso e Clarence sorria e movia os dedos. 
-Sabe que vo te prender, Clarence -continuou Ry-. Quando saias desta, sers velho e j no poders acender um fsforo com teus prprios dedos. 
O outro sorriu e se encolheu de ombros. 
-No feri a ningum. Jamais firo a ningum -alou os olhos com expresso amistosa-. Sabe?, existem muitos que gostam de queimar a outras pessoas. Sabe que  verdade, 
Ry? 
-Sim, Clarence, sei. 
-Eu no, Ry. Nunca queimei  ningum -os olhos se lhe acenderam com expresso feliz-. S voc. Mas isso foi um acidente. Teve cicatrizes? 
-Sim. 
-Eu tambm -soltou um risinho, pelo prazer de que compartilham algo-. Quer v-las? 
-Talvez depois. Recordao de quando nos queimamos, Clarence. 
-Claro. Claro que se lembra Foi como o beijo de um drago, verdade? 
Como estar nas entranhas do inferno, pensou Ry.

-Aquela vez o proprietrio te pagou para acordar ao drago, lembra? 
-Lembro. Ali no vivia ningum. S era um edifcio velho. Gostava dos edifcios velhos e vazios. O fogo sobe pelas paredes e se esconde no teto. Fala-te. Ouviste-o 
falar, verdade? 
-Sim, ouvi-o. Quem te pagou nesta ocasio, Clarence? 
O outro juntou as gemas dos dedos para formar uma ponte. 
-Jamais disse que algum me pagou. Voc mesmo poderia ter levado a gasolina, Ry. -Ests furioso comigo por ter-te queimado -de repente exibiu um sorriso -. Tiveste 
pesadelos no pavilho dos queimados. Pesadelos sobre o drago. E agora j deixaste de mat-lo.
A palpitao que sentia por trs dos olhos impulsionou a Ry a sacar outro cigarro. Clarence estava fascinado com os pesadelos; uma e outra vez durante o interrogatrio 
tinha tentado arrancar detalhes. Ainda que o tivesse desejado, Ry no teria podido proporcionar-lhe muitos. Todo era uma imagem imprecisa de fogo e fumaa, coberta 
pela bruma do tempo decorrido. 
-Tive pesadelos durante uma temporada. Foi algo que superei. Tambm superei minha irritao contigo, Clarence. Agora os dois fazemos nosso trabalho, no  verdadeiro? 
-captou o reflexo nos olhos de Clarence quando acendeu uma chama. Num impulso, plantou a chama entre os dois-.  poderosa, verdade? -murmurou-.  uma simples chama. 
Mas voc e eu sabemos o que pode fazer-lhe...  madeira, ao papel.  carne.  poderosa. E quando a alimentas, torna-se mais e mais forte -acercou o fsforo ao extremo 
do cigarro. Sem deixar de observar a Clarence, humedeceu-se o dedo ndice e a apagou-. Se a tocas com gua, se lhe cortas o ar, puf! -arrojou o fsforo ao cinzeiro 
cheio-. NOS dois gostamos de control-la, eh? 
-Sim -Clarence se passou a lngua pelos lbios, com a esperana de que Ry acendesse outro fsforo. 
-A voc pagam por provocar fogos. A mim por apag-los. Quem te pagou, Clarence? 
-De todos modos vo prender-me . 
-Sim. Ento, que tens a perder?

-Nada -o olhou outra vez com expresso taimada-. No disse que provocasse os incndios. Mas se supusssemos, s supusssemos, que o fiz, no poderia revelar quem 
me pediu. 
-Por que no? 
-Porque se supusssemos que o fiz, jamais vi a quem me contratou. 
-Falou com ele? 
Clarence se ps a brincar outra vez com os dedos, com a cara to alegre que Ry teve que se conter para no estragunlar o pescoo gordo. 
-Talvez falei com algum. Talvez no. Mas se talvez o fiz, a voz ao telefone estava distorcida, como uma mquina. 
-Homem ou mulher? 
-Como uma mquina -repetiu, indicando a gravadora de Ry-. Talvez poderia ter sido qualquer. Talvez me enviou dinheiro a um apartado de correios, antes e depois. 
-Como te localizaram?

- No o perguntei -se encolheu de ombros-. A gente me encontra quando quer -o sorriso lhe alumiou a cara-. Algum sempre me quer. 
-Por que aquele armazm? 
-Eu no disse nada sobre um armazm. 
-Por que aquele armazm? -repetiu Ry-. Talvez. 
Comprazido de que Ry se prestasse ao jogo, Clarence se adiantou na cadeira. 
-Talvez pelo seguro. Talvez porque algum no  gostava do seu proprietrio. Talvez por diverso. H muitas causas para um incndio. 
-E a loja -pressionou-. A loja era da mesma proprietria. 
-Tinha coisas bonitas na loja. Coisas bonitas de garotas -esquecendo a cautela, sorriu recordando-o-. Ademais, cheirava bem. Mais ainda depois que joguei a gasolina. 
-Quem o mandou jogar  a gasolina, Clarence? 
-No disse que o fizesse. 
-Acabas de diz-lo. 
-No -exibiu uma careta infantil-. Disse talvez. 
A fita demonstraria o contrrio, mas Ry persistiu. 
-Gostou das coisas de garotas que tinha na loja.

-Que loja? -lhe brilharam os olhos. 
Contendo um juramento, Ry se reclinou na cadeira. 
-Talvez deveria chamar a meu amigo para deixar que falasse contigo. 
-Que amigo? 
-O de ontem  noite. Recordas o que passou ontem  noite. 
-Era um fantasma -se ps plido-. No estava realmente ali. 
-Claro que sim. Voc o viu. Sentiu-o. 
-Um fantasma -comeou a morder-se as unhas-. No gostei. 
-Ento ser melhor do que fales comigo, ou vou ter que o chamar. 
Assustado, Clarence olhou ao redor. 
-No est aqui. 
-Talvez sim -Ry comeava a divertir-sedivertir-se-. Talvez no. Quem te pagou, Clarence?

-No o sei -os lbios tremeram-. S era uma voz. Isso  todo. Toma o dinheiro e queima. Gosto do dinheiro, Gosto de queimar. Comecei pela bonita escrivaninha da 
loja de coisas de garotas, tal como me disse a voz. Teria sido melhor no armazm, mas a voz disse a escrivaninha -incmodo, olhou ao redor outra vez-. Est aqui? 
-Que me diz do dinheiro? Onde esto os sacos onde estava o dinheiro.
-Os queimei -voltou a sorrir-. Gosto de queimar coisas. 


Natalie esteve a ponto de queimar a cozinha. 
No era incompetente, mas rara vez encontrava a oportunidade de utilizar as habilidades culinrias que possua... apesar do escassas. 
Com vrios juramentos, tirou o frango dourado do forno e o deixou a um lado, seguindo as meticulosas diretrizes de Frank. Quando teve o molho fervendo a fogo lento, 
sentia-se melhor. Decidiu que cozinhar no era to complicado, sempre que se mantivesse a concentrao e se fosse passo a passo. L a receita como se fosse um contrato, 
aconselhou-se, introduzindo com cuidado o frango no molho. No passes por alto nenhuma clusula, estuda a letra pequena. E.... Tarareando, tampou a panela e observou 
o caos da cozinha. 
E deixa todo limpo, j que jamais h do que dar a impresso de do que um trato te fez suar. 
Demorou mais tempo em arrumar a cozinha que em preparar o jantar. Depois de uma rpida olhada  hora, foi acender as velas para criar a atmosfera. 
Com um suspiro, sentou-se no sof e estudou o salo. Luzes tnues, msica suave, o aroma de flores e de boa comida, o resplendor dourado da lareira. Prazeirosa, 
passou-se uma mo pela saia longa de seda. Decidiu que todo era perfeito. 
Mas, onde estava Ry? 
Ry se movia inquieto no corredor diante da porta do apartamento de Natalie. 
Lhe ests dando demasiada importncia, Piasecki, advertiu-se. S ser duas pessoas desfrutando de mtua companhia. Sem ataduras, sem promessas. Com Clarence 
encerrado, j podiam comear a afastar-se. De forma natural, sem tenses. 
Ento, que diabos fazia diante da porta, nervoso como um adolescente em seu primeiro encontro? Por que sustentava um ramo de estpidos narcisos na mo? 
Decidiu que jamais teria do que ter-se levado. Mas, uma vez dominado pelo impulso, deveria ter eleito rosas ou orqudeas. Algo com classe. Pensou em deix-las adiante 
da porta de um vizinho. A idia fez que se sentisse mais tonto. Murmurando uma praga, sacou a chave e a introduziu na fechadura. 
Experimentou uma sensao ridcula ao entrar num apartamento que no era seu. Ela se levantou do sof e lhe sorriu. 
-Oi. 
-Oi. 
Ry tinha as flores s costas, sem dar-se conta de que era um gesto defensivo. Natalie estava incrvel com aquele vestido de tiras finas da cor dos pssegos maduros. 
Quando se moveu, teve que engolir saliva. A saia se abria desde o tornozelo at os trs botes dourados na coxa esquerda. 
-Teve um dia longo -comentou ela, dando-lhe um beijo ligeiro nos lbios. 
-Sim, suponho -sentia a lngua dormente-. E voc? 
-No foi to mau. A notcia animou a todo mundo. Pus vinho no refrigerador -ladeou  a cabea e lhe sorriu-. A no ser que prefiras tomar uma cerveja. 
-O que seja -murmurou quando ela se dirigiu para a mesa, junto  janela, que tinha preparado para duas-. H um ambiente agradvel. Voc est fantstica. 
-Bom, pensei que se amos celebrar... -serviu duas copas-. Tinha planejado isto para depois da grande inaugurao do sbado, mas me parece que agora  apropriado 
-com as copas sobre a mesa, estendeu uma mo-. Tenho muito que te agradecer.
-No. Fiz aquilo pelo que me paga... -calou ao ver que ela tinha desviado o olhar, suavizando a expresso. Com certa incomodidade, descobriu que tinha o olhar fincado 
nas flores com as que tinha acenado para descartar seu agradecimento. 
-Me trouxe flores. 
-Tinha um sujeito na esquina que as vendia e... 
-Narcisos -suspirou-. Encantam-me. 
-Sim? -com gesto torpe as ofereceu-. Bom, aqui as tens. 
Natalie enterrou o rosto nos botes e, por algum motivo que no foi capaz de decifrar, quis chorar.

-So to bonitas -alou a cara com olhos brilhantes-. To perfeitas. Obrigada. 
-No ... -mas o beijo dela lhe cortou as palavras. 
Como se tivessem ativado um interruptor em seu interior, experimentou um desejo instantneo. Bastava um simples contato para almej-la. Ela moldou o corpo contra 
o seu e o rodeou com os braos. Ry conteve a necessidade desesperada de atir-la ao solo e liberar a paixo que se agitava nele. 
-Ests tenso -murmurou Natalie, passando uma mo por seus ombros-. Sucedeu algo com Clarence durante o interrogatrio que no me tenhas contado? 
-No -Clarence Jacoby e sua cara de lua eram o ltimo que tinha na cabea-. S estou cansado, suponho -e precisado de certo controle-. Algo cheira bem -comentou 
ao retirar-se-. Aparte de ti. 
-A receita de Frank. 
-Frank? -deu outro passo atrs e recolheu a copa de vinho-. O cozinheiro de Guthrie nos preparou o jantar? 
-No,  sua receita -se acomodou o cabelo por trs da orelha- Eu a fiz. 
-Sim, claro -bufou-. Onde comprou? No restaurante italiano? 
- Eu fiz, Piasecki -repetiu entre ofendida e divertida, antes de beber vinho-. Sei como acender o fogo. 
-Sabe como levantar o telefone e fazer um pedido -mais relaxado, tomou-lhe a mo e a levou  cozinha. Foi diretamente  panela e levantou a tampa. Certamente parecia 
caseira. Com o cenho franzido, cheirou o molho espesso que borbulhava tampando as peas douradas de frango-. Voc fez isto? Sozinha? 
Exasperada, Natalie se soltou e bebeu outro gole. 
-No sei por que se surpreende. S  questo de seguir diretrizes. 
-Voc preparou-repetiu, movendo a cabea-. Por que? 
-Bom, porque... no sei -voltou a tampar a panela-. Tive vontades 
-No a imagino na cozinha. 
-No foi tanto trabalho -rio-. E tambm no uma viso bonita. Assim que, sem importar o sabor que tenha, exigem louvores. Tenho de pr as flores na gua. 
Esperou enquanto ela sacava um vaso e arrumava os narcisos na pia da cozinha. 
Pensou que essa noite parecia mais delicada. Feminina e acolhedora. Manejava a cada talho como se lhe tivesse levado rubis. Incapaz de resistir-se, acariciou-lhe 
o cabelo com suavidade. Ela levantou os olhos surpresa, insegura ante a exibio de evidente ternura. 
-Sucede algo? 
-No -amaldioando-se, baixou a mo -. Gosto de toc-la. 
-Eu sei -os olhos lhe brilharam e danaram. Voltou-se em seus braos-. O frango precisa ferver a fogo lento um momento -lhe mordiscou o lbio-. Uma hora, mais ou 
menos. Por que no nos...? 
-Sentamos -concluiu ele, para evitar estourar. Sob nenhum conceito ia tomb-la e a tom-la no solo da cozinha. 
-De acordo -estranhada por seu retraimento, assentiu e voltou a recolher a copa de vinho-. Desfrutemos da lareira. 
No salo, se colocou a seu lado e apoiou a cabea em seu ombro. Era evidente que tinha algo na mente. Podia esperar at que quisesse compartilh-lo. Era agradvel 
estar ali sentados, observando o fogo enquanto o jantar se fazia e pelos alto-falantes saa uma antiga melodia de Escola Porter. 
Era como se estivessem dessa maneira todas as noites, cmodos o um com o outro, sabendo que tinha tempo. Depois de um dia longo e corrido, que podia ter melhor do 
que estar ao lado de algum a quem amava...? 
Seus pensamentos a obrigaram a erguer-se. Amor. Amava-o. 
-Que passa? 
-Nada -enguliu saliva e lutou por manter a voz serena-. S uma coisa que... esqueci. Posso faz-lo depois. 
-Nada de falar de trabalho, de acordo? 
-Sim -bebeu um sorvo de vinho-. Perfeito. 
No era capaz de dormir bem quando no o tinha a seu lado. Tinha experimentado o impulso irresistvel de preparar-lhe um jantar. O corao lhe dava um tombo cada 
vez que lhe sorria. Inclusive tinha pensado em programar uma viagem de negcios com ele. 
Que ia fazer? 
Fechou os olhos e lhe ordenou a seu corpo que se relaxasse. As emoes que pudesse sentir eram seu problema. Era uma mulher adulta que tinha iniciado uma relao 
com as regras muito claras para ambas partes. No podia mudar as condies no meio do caminho. 
O que precisava era reflexionar com cuidado. Em outro momento, adicionou, concentrando-se em respirar profundamente. Depois devia formular um plano. Depois de 
todo, era uma excelente planificadora. 
-Ser melhor do que v provar o jantar. 
-No passou uma hora -Gostava como a tinha encostada contra ele e queria que no se movesse. Decidiu que era uma tolice preocupar-se pela direo que tomavam. Nesse 
momento se achavam no lugar exato. 
-Ia a... preparar uma salada -manifestou insegura. 
-Depois. 
Apoiou os dedos sob seu queixo e lhe voltou a cara.  estranho, pensou,  como se lhe tivesse traspassado meus nervos. Devagar, baixou a cabea e lhe roou os 
lbios. 
Ela tremeu. 
Intrigado, introduziu o lbio inferior dela em sua boca, banhando-o com a lngua enquanto observava como as emoes invadiam os olhos de Natalie. 
-Por que sempre temos pressa? -murmurou Ry. 
-No  sei -devia afastar-se, despejar a cabea, antes de cometer um erro imprudente-. Precisamos mais vinho. 
-Creio que no -lentamente lhe apartou o cabelo da face para poder emoldurar-se entre as mos. PARALISOU-A com a mirada-. Sabe o que penso, Natalie? 
-No -se humedeceu os lbios, lutando por encontrar o equilbrio. 
-Creio que saltamos um passo. 
-No sei a que ae refere. 
Beijou-lhe a testa, apartou-se e viu como os olhos dela se nublavam. 
-A seduo -sussurrou. 



Capitulo 10

Seduo? Ela no precisava ser seduzida. Desejava-o, sempre o desejava. Antes de dar-se conta de que o amava, tinha comparado o que lhe provocava com uma espcie 
de reao qumica. Mas nesse momento,  que ele no via...? 
Deixou de pensar quando seus lbios lhe percorreram a tmpora. 
-Ry -apoiou uma mo no peito dele. Mas os dedos fortes lhe acariciavam o pescoo e os lbios se acercavam mais e mais aos seus. S pde repetir-: Ry. 
-Gostamos de nos apressar, verdade, Natalie? 
-Creio... -mas no era capaz de pensar. No depois de que a boca dele se acoplasse  sua. Nunca antes a tinha beijado dessa maneira, to devagar, to profundamente, 
com uma espcie de posse preguiosa que lhe chegava at a medula. 
O corpo ficou frouxo, to fludo como a cera que se derretia nas velas que os rodeavam. O corao de Ry batia com fora e no muito firme, e o gemido rouco que emitiu 
sua garganta o acelerou. No entanto, no cessou na explorao lenta e funda de sua boca, como se isso pudesse satisfaz-lo durante horas. 
Ela jogou a cabea para atrs. Com a mo entre seu cabelo, ele modificou um pouco o ngulo do beijo, para brincar com seus lbios, com sua lngua. Natalie no pde 
evitar suspirar e tremer quando lhe roou o peito com os dedos. 
Soube que nesse momento chegariam a velocidade e o poder que entendia. Voltaria o controle na absoluta falta de controle enquanto se precipitavam para tomar-se. 
Mas os dedos dele no deixaram de acariciar-lhe o pescoo at que se posaram com devastadora ternura em sua face. 
Num ato defensivo, colou-o com fora a ela. 
-Desta vez, no -Ry se apartou o suficiente para estudar seu rosto. A confuso, a necessidade e a excitao formavam uma combinao formosa. Sem importar o muito 
que lhe fervesse o sangue, pretendia confund-la mais, pretendia ocupar-se de todas e cada uma de suas necessidades, e excit-la at que seu corpo se ficasse lasso. 
-Te desejo -atirou com frenesi dos botes da camisa dele-. Agora, Ry. Desejo-o agora. 
TOMBOU-A no solo adiante do fogo. A luz das chamas iluminou sua pele, danou em seu cabelo. Era dourada. Como um tesouro extico ao que um homem pudesse dedicar 
a vida inteira a procurar. E essa noite era s sua. 
Estendeu-lhe os braos aos lados e entrelazou os dedos com os dela. 
-Ter que esperar -lhe disse-. At que tenha terminado de seduzir-te. 
-No preciso ser seduzida -se arcou para ele, oferecendo-lhe a boca, o corpo, oferecendo-se ela. 
-Comprove-me. 
A beijou com suavidade, saboreando sua boca quando ela abriu os lbios. Natalie o apertou com firmeza. Perguntou-se quantas vezes a tinha amado. Fazia pouco tempo 
que se conheciam, mas no era capaz de contar as vezes que tinha deixado que seu corpo assumisse o controle, que enlouquecesse com ela. 
Nessa ocasio, pensava fazer-lhe amor com a mente. 
-Me encantam seus ombros -murmurou, abandonando momentaneamente a boca dela para explor-los-. Suaves, fortes, delicados. 
Com os dentes agarrou a tira fina do vestido e a baixou at que no ficou mais do que pele nua. Seu sabor e seu aroma eram clidos. Absorvendo-os, passou a lngua 
pelo ombro, pela linha elegante do pescoo, baixando at que tambm a outra atira cedeu. 
-E este ponto aqui -passou os lbios justo acima da seda que se curvava por em cima do peito. Humedeceu a pele com a lngua at que o corpo dela se moveu desasosegado 
sob o seu-. Deveria relaxar e desfrutar, Natalie. Vou demorar um momento. 
-No posso -o contato gentil de seus lbios e o peso slido de seu corpo a atormentavam-. Beija-me outra vez. 
-Ser um prazer. 
Nessa ocasio experimentou um reflexo de calor, brilhante e quente, antes de que ele voltasse a apagar os fogos. Gemeu e se colou a Ry, almejando a libertao, a 
tortura. Ele realizou a eleio por ela, beijando-a com uma intensidade concentrada at que no lhe ficou mais remdio do que soltar o ar de forma entrecortada. 
Fumaa. Praticamente podia cheir-lo. Elevava-se em nuvens de fumaa, desvalida, incapaz de algo mais do que no fora boiar e suspirar. Mordiscou com delicadeza 
a mandbula, e os beijos lentos e ligeiros desceram por seu pescoo, por seus ombros. 
Centmetro a centmetro, Ry a provou, sem deixar de baixar a seda. Sentiu que o cabelo dele lhe roava o peito, para que depois a boca viajasse por sua curva, jogando 
com a pele sensvel da parte inferior. A lngua passou pelo mamilo, provocando-lhe um anseio no mesmo centro de seu corpo. Depois capturou a cume entre os dentes, 
provocando que ela gemesse seu nome e que o corpo comeasse a palpitar-lhe a um ritmo primitivo. 
Queria absorv-la e oferecer-lhe todo o prazer que pudesse. Natalie tinha os olhos fechados e os lbios entreabertos. Precisava prov-los outra vez; ao faz-lo, 
deixou-se afundar em sua textura. 
O tempo passou. 
Na ternura tinha poder. Ry nunca antes a tinha sentido, nem em si mesmo nem em ningum. Mas para ela tinha uma fonte inesgotvel de ternura, de beijos suaves e sensuais, 
de interminveis suspiros. 
Lhe soltou as mos para tirar-se a camisa, para experimentar a excitao de suas peles unidas. Com um murmrio de aprovao, deslizou a mo pela abertura da saia 
dela, acariciando e afastou a roupa de baixo que usava.
Liberou um boto, logo outro, depois um terceiro. Beijando-lhe o quadril exposto, conteve o sbito e intenso impulso de tom-la. 
Mais, prometeu-se a si mesmo. Tinha mais. Por seu prprio prazer, apartou a um lado a seda. E encontrou mais. 
Embaixo luzia mais seda e encaixes, da mesma cor que o vestido. Sem tiras, continha-lhe os peitos e realava suas pernas. Suspirou, jogou-se para atrs e jogou a 
luga. 
-Natalie. 
Fraca... ela se sentia to gloriosamente fraca que mal podia abrir os olhos. Quando o conseguiu, s viu ele. Estendeu o brao, pesado, quase sem ossos. Ry lhe tomou 
a mo e a beijou. 
-Queria dizer que me faz feliz v-la com a lingerie que vendes -ela sorriu. Com um gesto veloz, desprendeu-lhe uma liga. Natalie s pde emitir um gemido leve-. 
E oquanto  linda -a segunda liga-. Luzes prprios produtos -sem tirar-lhe a vista de em cima, baixou-lhe as mdias at as pantorrilhas. 
A viso dela se nublou. Podia sent-lo. Deus... podia sentir cada contato de seus dedos e de sua boca. A entrega tinha chegado at ela como uma sombra e a tinha 
deixado completamente vulnervel. Lhe daria o que quisesse, desde que jamais deixasse de toc-la. 
Da lareira surgia um calor suave e constante. No era nada comparado com a lenta chama que ardia em seu interior. Como desde um tnel, ainda podia escutar a msica. 
O aroma de flores e de cera de velas, o sabor de Ry e o vinho que ainda perdurava em sua prpria lngua... todo se fundiu para embriagarla de forma assombrosa. 
Ento ele introduziu um dedo por embaixo de sua calcinha para desliza-lo com lentido para o ncleo do calor. 
Natalie estourou. O corpo tremeu. Seus lbios pronunciaram o nome dele ao mesmo tempo em que o prazer abrumador invadia seu sistema. Rodeou-o enquanto o poder do 
orgasmo aumentava em fora, para dissolver-se deixando-a cheia de ecos e vazia. 
Quis dizer-lhe que estava vazia, que tinha que estar vazia. Mas ele lhe desprendia a seda e com seus dedos hbeis a deixava nua, engulindo as palavras que os lbios 
dela tivessem podido pronunciar com sua boca de uma pacincia implacvel. 
-Quero encher-la, Natalie -suas mos j no se achavam to firmes, mas a tombou com suavidade sobre o tapete para poder tirar a roupa-. Quero he  preencer completamente, 
com tudo o que tenho. 
Enquanto o sangue martelava nos ouvidos de Ry, iniciou a lenta viagem ascendente por suas pernas, avivando outra vez o fogo, esperando, observando com atendimento 
o momento antes de que voltasse a estourar. 
Sentiu que o corpo dela se tensionava, viu o poder do que ia suceder assomar-se em seu rosto. No momento em que Natalie gritou, introduziu-se em seu interior. 
Quase lhe resultou doloroso frear-se. E muito doce. Ao ver abertos os pesados olhos dela, nublados pelo prazer, conteve-se para no se precipitar para a concluso. 
Dominada por um redemoinho de sensaes, asfixiando-se praticamente em suas diferentes capas, Natalie procurou as mos dele. Quando seus dedos se uniram, seu corao 
esteve pronto para estourar. Observou-o enquanto cada investida os sacudia e os acercava mais ao abismo. 
Ento caiu pelo precipcio, livre, e Ry a beijou e seus lbios formaram seu nome enquanto saltava com ela. 

 manh seguinte, enquanto subia no elevador at seu escritrio, por duas vezes Natalie teve que fechar os lbios com fora para no se pr a cantar. Tinha vontade 
de cantar, de danar. Estava apaixonada. 
E o que tem de mau?, perguntou-se quando os ocupantes baixaram no trigesimo andar. Todo mundo tinha direito a estar apaixonado, a sentir como se seus ps jamais 
voltassem a tocar o solo, a saber que o ar jamais tinha tido uma fragancia mais doce, que o sol nunca tinha brilhado tanto. 
Era maravilhoso estar apaixonada. Tanto, que se perguntou por que jamais o tinha tentado. 
Porque nunca tinha aparecido Ry, respondeu-se com um sorriso. 
Que tonta tinha sido ao sentir pnico no momento de compreender o que sentia por ele. Que covarde e ridculo era ter medo a amar. 
Se fazia que uma mulher fora vulnervel e cmica, se a aturdia e a desconcertava, que tinha de mau isso? O amor devia embriagar e fortalecer e encher a cabea de 
passarinhos. O que passava era que nunca o tinha compreendido. 
Catarolando, saiu do elevador e praticamente boiou at seu escritrio. 
-Bom dia, SenhoritaFletcher -Maureen olhou com dissimulo a hora. No lhe correspondia a ela dizer-lhe a sua chefa que chegava tarde. Nem sequer trs minutos tinham 
precedente com Natalie Fletcher. 
-Bom dia, Maureen -saudou com voz cantante, arrojando-lhe uns narcisos. 
-Oh, Obrigada. So preciosos. 
-Todo mundo deveria ter narcisos esta manh. Absolutamente todo mundo - jogou o cabelo para trs para tirar-se as gotas de gua-. Um dia estupendo, verdade? 
Chovia e fazia frio, mas Maureen sorriu. 
-Uma clssica manh primaveral. Tem umas conferncias telefnicas s dez. Com Atlanta e Chicago. 
-Eu sei. 
-E a Senhorita Marks esperava que pudesse abrrir-lhe um espao esta manh.

-Perfeito. 
-Oh, e deve estar na loja s onze e quarto, justo ao terminar sua reunio das dez e meia com o senhor Hawthorne. 
-No h problema. 
-Almoa com... 
-Ali estarei -disse ao entrar em seu escritrio. 
Pela primeira vez nos ltimos tempos, passou por adiante da cafeteira. No precisava cafena para que seu sangue acordasse. J lhe borbulhava. Pendurou o casaco, 
deixou a valise e se dirigiu  caixa forte, oculta por trs de um quadro abstrato. 
Extraiu uns disquetes e foi  mesa para redigir um memorando breve para Deirdre. 
Uma hora mais tarde, achava-se imersa no trabalho, redigindo notas apressadas enquanto manejava informao e peties de suas sucursais na conferncia telefnica 
a trs bandas. 
-Te enviarei a autorizao por fax em meia hora -lhe prometeu a Atlanta-. Donald, comprova se podes sacar tempo para acompanhar-me  loja... s onze e quarto. Podemos 
manter a reunio durante o trajeto. 
-Tenho uma reunio s onze e meia com Marketing -a informou-. Deixa-me ver se posso deixa-la para depois do almoo. 
-Te agradeceria. Gostaria de dispor de provas de todos os anncios e artigos de imprensa de Chicago. Podes transmitir-me por fax, mas gostaria que supervisionasses 
os originais. Esta tarde me porei em contato com Los Angeles e Dallas, e teremos um relatrio completo para todas as sucursais a ltima hora de amanh -se recostou 
no cadeiro e suspirou-. Cavaleiros, sincronizem seus relgios e alertem s tropas. S dez da manh do sbado. De costa a costa. 
Depois de concluir a conferncia, apertou a tecla do intercomunicador. 
-Maureen, comunica-lhe a Deirdre que tenho uns vinte minutos livres. Ah, e chame Melvin. 
-Est fora, SenhoritaFletcher. 
-Certo -irritada por esse deslize, olhou a hora e calculou o tempo-. Verei se posso reunir-me com ele na fbrica esta tarde. Deixa-lhe uma mensagem em sua caixa 
postal de voz dizendo-lhe que passarei a isso das trs. 
-Sim, Senhorita. 
-Depois de chamar a Deirdre, pe-me com o chefe de distribuio do novo armazm. 
-Em seguida. 
Quando Deirdre chamou  porta e entrou, Natalie digitava no computador. 
-Sim, compreendo-o -com o fone enganchado ao ouvido, indicou-lhe a Deirdre que se sentasse-. Segue esse transporte. Quero-o em Atlanta antes das nove de amanh -assentiu 
e digitou-. Comunica-me quanto o tenhas localizado. Obrigado -pendurou e se apartou uma mecha da cara-. Sempre h algo antes da hora assinalada. 
-Uma m notcia? -Deirdre franziu o cenho. 
-No, s um leve atraso num carregamento. Inclusive se no chega, Atlanta tem suficiente mercadoria para a inaugurao. Mas no quero que se lhes esgote. Caf? 
-No, j me abri um buraco no estmago, obrigada. Ou abriste voc -olhou com firmeza a sua chefa-. As gratificaes. 
-As gratificaes -conveio Natalie-. Tenho as percentagens com os que quero que trabalhes. Os quocientes de salrios e essas coisas -esboou um leve sorriso-. Supus 
que te porias a calcular o melhor dia para matar-me se me encarregava dos preliminares. 
-Est enganada.. 
-Deirdre, sabe por que te valorizo tanto? -riu. 
-No. 
-Tua mente  como uma calculadora. As gratificaes so merecidas, e tambm as considero como um bom investimento. Um incentivo para manter o ritmo nas semanas vindouras. 
Pelo geral, passada a venda inicial num negcio novo se produz uma queda, tanto em rendimentos como em trabalho. Creio que isto evitar que o descenso seja em picado. 
-Todo isso est muito bom na teoria -comeou Deirdre. 
-Faamos que seja uma realidade. E como se trata de um procedimento basicamente regular, quero que se o delegues a teu assistente. Dessa maneira poders concentrar-te 
em levar a cabo a auditoria -sem deixar de sorrir, entregou-lhe os disquetes e o memorando- Grande parte do que tenhas que analisar ser paralelo  declarao da 
renda. Toma-te o tempo que consideres necessrio e a toda a gente que te faa falta do departamento de Contabilidade. 
Com uma careta, Deirdre aceitou o disquete. 
-Sabe por que a valorizo tanto, Natalie? 
-No. 
-Porque no h maneira de balana-la, e porque ds ordens impossveis com um tom razovel. 
- um dom -lembrou ela-. Talvez precise desta pasta. 
-Muito obrigado -se levantou e a recolheu. 
-De nada -levantou a vista com um sorriso quando Donald assomou a cabea pela porta. 
-Estou livre at as doze e meia -indicou ele. 
-Estupendo. Nos iremos agora. Aproveite esse tempo - disse a Deirdre ao dirigir-se ao armrio para sacar o casaco-. Sempre que tenha os primeiros nmeros sobre os 
benefcios e perdas deste trimestre, e os totais de cada departamento, no final da semana prxima. 
Deirdre ps os olhos em alvo e olhou a Donald. 
-Razoavelmente impossvel -acomodou os disquetes em cima da pasta-. Voc s o seguinte -o advertiu. 
-No deixe que isso o assuste, Donald -saiu do escritrio. 
-Que energia -lhe murmurou Donald a Deirdre. 
-Est voando -a economista observou a pasta-. Esperemos poder manter seu ritmo. 
-Perfeito, verdade? -satisfeita depois da visita  loja, Natalie esticou as pernas na parte de atrs do carro enquanto seu motorista se movia pelo trfico do meio 
dia-. Jamais suspeitarias do que tinha tido um incndio. 
-Um trabalho magnfico -coincidiu Donald-. E a vitrine  espetacular. As vendedoras vo ter um dia frentico o sbado. 

-Conto com isso -apoiou a mo no brao dele-. Grande parte se deve a ti, Donald. Jamais teramos podido despegar sem tua entrega, e menos depois do incidente do 
armazm. 
-Controle de danos -se encolheu de ombros-. Em seis meses mal recordaremos que precisamos controle de danos. E os benefcios faro sorrir inclusive a Deirdre. 
-Isso seria uma proeza. 
-Deixe-me na seguinte esquina -lhe disse ao motorista-. O restaurante est a uns metros. 
-Te agradeo que sacasses tempo para acompanhar-me. 
-No h problema. Contemplar a loja principal restaurada me alegrou o dia. No foi agradvel ver como tinha ficado o despacho. Aquela magnfica escrivaninha antigo 
estragado. A propsito, a novo  assombrosa. 
-Fiz que a enviassem de Colorado -comentou distrada enquanto algo dava voltadas em sua cabea-. Tinha-o guardado. 
-Pois  perfeita-bateu de leve em sua mr quando o carro encostou no meio fio.
Ela se despediu com um gesto da mo e se recostou, insatisfeita, quando o carro voltou a sair ao trfico. Ento calculou a distncia que ficava para o restaurante 
onde tinha o almoo de negcios e decidiu que dispunha de tempo para um telefonema rpido. 
-Piasecki -contestou Ry  tera. 
-Oi -o prazer de ouvir sua voz desterrou todo o demais-. Sua secretria saiu? 
-Foi Almoar. 
-E voc est almoando em seu escritrio. 
Ele baixou a vista ao sanduche que ainda no tinha tocado. 
-Sim. Mais ou menos -ao mover-se, a cadeira reclinou-. Onde est? 
-Pela Doze e Hyatt, em direo oeste, para Menagerie. 
-Ah -Menagerie. Classe e distino. Nada de sanduchees de atum em po de centeio. IMAGINOU-A pedindo gua mineral de marca e uma salada com cada folha verde de 
um nome diferente-. Ouve, Pernas, quanto a esta noite... 
-Pensava em isso. Talvez poderamos ficar no Goose Neck -moveu os ombros-. Tenho a impresso de que vou querer relaxar. 
Ry se esfregou o queijo. 
-Eu, ah... Venha a minha casa. O que acha? 
-Sua casa?-era algo novo. J tinha deixado de perguntar-se por que jamais a tinha levado. 
-Sim. Entre as sete, sete e meia. 
-De acordo. Quer que compre algo para jantar? 
-No, eu me ocuparei disso. Vemo-nos -pendurou e se jogou para atrs. Ia ter que se ocupar de muitas coisas. 

Passou por um restaurante chins. Eram quase as sete quando subiu com os recipientes brancos os dois trechos de escadas que o separavam de seu apartamento. Olhou 
ao redor. 
No era uma pocilga. Salvo, claro est, que se comparasse com o edifcio elegante onde vivia Natalie. No tinha as paredes pintadas, ainda que si eram finas. Ao 
subir os degraus, captou os sons apagados de um televisor e de gritos infantis. Os degraus estavam desgastados no centro devido ao passo de inumerveis ps. 
Ao chegar ao segundo andar, ouviu que uma porta se fechava com estrpito a suas costas. 
-De acordo, de acordo. Eu mesmo irei comprar a cerveja.

Com os lbios franzidos, abriu seu apartamento. Sim, pensou. Era um tugurio de primeira. No corredor reinava o cheiro de alho. Sups que cortesia de sua vizinha. 
A mulher sempre estava cozinhando massa. 
Entrou, acendeu a luz e estudou a habitao. Estava limpa. Talvez algo polvorenta. Raramente permanecia tempo suficiente para bagun-la. Fazia trs semanas que 
no passava uma noite ali. O sof cama precisava um cobertura novo. No era algo que tivesse notado antes nem que o tivesse molestado. Mas nesse momento o tecido 
descolorida o irritou. 
Avanou meia dzia de passos e entrou no oco que servia como cozinha. Sacou uma cerveja da geladeira e a abriu. Enquanto bebia um trago decidiu que tambm as paredes 
precisavam pintura. E ao solo nu no lhe iria mal um tapete. 
Mas me serviu bastante bem, no?, perguntou-se com tom sombrio. No precisava apartamentos elegantes. Com um par de quartos cerca de seu trabalho era mais do que 
suficiente. Levava quase uma dcada vivendo ali, satisfeito. Isso bastava para qualquer. 
Mas no bastava, no podia bastar, para Natalie. 
Sabia que esse no era seu lugar. E lhe tinha pedido que fora para demonstrar-se aos dois. 
A noite anterior tinha sido uma revelao para ele. Ela era capaz de faz-lo sentir dessa maneira, de conseguir que esquecesse que tinha algo ou algum no planeta 
salvo eles dois. 
No era justo para nenhum continuar dessa maneira. Quanto mais se prolongasse, mais precisaria dela. E quanto mais a precisasse, mais lhe custaria deixar que se 
fosse. 
O divrcio no o tinha ferido. S um par de cicatrizes, pensou nesse momento. Bastante arrependimentos. Mas no uma dor verdadeira. No a dor profunda e aterrador 
que comeo a experimentar ante a idia de viver sem Natalie. 
Poderia ret-la. Existia uma grande possibilidade de poder ret-la. O fsico entre eles era de uma intensidade assombrosa. Ainda que se esfriasse, seria mais forte 
que nada do que tinha vivido at ento. 
E era bem consciente do efeito que sortia nela. 
Poderia ret-la s com o sexo. Talvez resultasse suficiente para ela. Mas ao acordar aquela manh tinha descoberto que no era suficiente para ele. 
No, no bastava, no quando tinha comeado a imaginar cercas brancas, meninos no ptio... o tipo de coisas que acompanhavam ao casal,  permanncia,  vida. 
Se recordou que esse no era o trato que tinham estabelecido. E no tinha direito a mudar as regras, a esperar que ela quisesse assentar-se com ele. J tinha demonstrado 
que o casamento no era para ele, e isso por que tinha se casado com algum de sua prpria comunidade, com seu mesmo estilo de vida. Era impossvel que encaixasse 
com Natalie, e o fato de que o desejasse, mesmo o precisasse, o deixava  aterrorizado. 
Pior do que isso, muito pior, era a idia de que o recusasse se lhe pedisse que  tentassem. 
Queria tudo. Ou nada. Ento, tinha sentido que a jogasse de sua vida antes de aprofundar mais a relao? E o faria ali, justo ali, onde as diferenas que tinha entre 
ambos seriam como uma bofetada para ela. 
Ao ouvir o telefonema  porta, foi abrir com a cerveja na mo. 
Era tal como tinha pensado. Natalie de p no corredor, esbelta, dourada, uma criatura extica completamente fora de lugar. Sorriu-lhe e se adiantou para beij-lo. 
-Oi. 
-Oi. Entra. Teve algum problema para encontrar onde moro? 
-No -afastou o cabelo do rosto e olhou ao redor-. Tomei um txi. 
-Bem pensado. De ter deixado seu carro caro na rua, ao voltar no acharia nada dele. Uma cerveja? 
-No -curiosa,  aproximou-se da janela. 
-H pouco que ver -disse, sabendo que olhava a fachada de outro edifcio. 
-Pouco -conveio-. Segue chovendo -adicionou enquanto tirava o casaco. Sorriu ao ver outro de seus trofus de basquete-. Ao Jogador Mais Valioso -murmurou, lendo 
a inscrio da placa-. Impressionante. Eu diria que posso supera-lo nove de cada dez vezes. 
-No est fria - voltou para a cozinha-. No tenho vinho.

-Est bem. Mmm... comida chinesa -abriu um dos recipientes que ele tinha deixado na pia e cheirou-. Estou morrendod e fome. Ao meio dia s comi uma salada. No parei 
de ir de um lado a outro da cidade, ocupando-me dos detalhes para o sbado. Onde esto os pratos? -relaxada, abriu um armrio-. A semana prxima vou ter que ir ver 
todas as sucursais. Estava pensando... -calou ao dar-se a volta e ver que a olhava-.
- Que? 
-Nada -murmurou, tirando-lhe os pratos da mo. Enquanto servia o jantar, pensou que no tinha imaginado que ela entraria se poria a bater um papo. Supunha que daria 
conta que no encaixava em seu mundo. Supunha que teria algo a fazer e iria embora-. Maldita seja, no v onde est? -espetou ao aproximar-se e fazer que retrocedesse 
um passo. 
-Mmm... -piscou-, na cozinha? 
-Olha ao seu redor -irritado, tomou-a nos e a arrastou  outro cmodo-. Olha a seu arredor. Isto  tudo.  bem como vivo.  bem como sou. 
-Muito bem -lhe afastou a mo, porque a presso de seus dedos tinha lhe provocada dor. Com o fim de compraz-lo, jogou outra olhada. Era um quarto espartano, masculino 
em sua singeleza. Pequeno, mas no obstinado. Uma mesa exibia fotos de uma famlia que esperava poder observar melhor-. No lhe cairia mal um pouco de cor -decidiu 
passado um momento. 
-No te peo conselhos de decorao -soltou Ry. 
Algo baixou a ira de sua voz, algo definitivo, obrigou-a a gaguejar. Muito devagar, encarou-o. 
-O que  que me pede? 
Amaldioando, regressou  cozinha em procura da cerveja. Se ia olh-lo com essa expresso confusa nos olhos, estava perdido. Teria que ser cruel. Sentou-se no no 
sof e bebeu um trago. 
-Sejamos realistas, Natalie. O nosso relacionamento se iniciou porque nos desejvamos loucamente. 
Ela sentiu que empalidecia. Mas no afastou a vista e falou com voz firme. 
-Sim, assim . 
-Todo sucedeu depressa. O sexo, a investigao. As coisas se misturaram. 
-Sim? 
- uma mulher bonita -tinha a boca seca e a cerveja no o ajudava-. Desejava-a. Tinha um problema. Era meu trabalho solucionar. 
-O qual fizeste -reps ela com cautela. 
-Em sua maior parte. A polcia rastrear a quem quer que esteja pagando a Clarence. At ento, deves ter cuidado. Mas a situao j est praticamente controlada. 
Nesse sentido. 
-E no plano pessoal? 
-Creio que j  hora de dar dar uma passo para trs -franziu o cenho e observou a garrafa-, de olhar as coisas com mais clareza. 
As pernas de Natalie tremeram. Tensionou os joelhos. 
-Est deixando, Ry? 
-Digo que temos que analisar como so as coisas fora da cama. Como  voc -levantou os olhos-. Como no sou eu. Sobra-nos fogo, Natalie. O problema disso  que se 
deixa cegar pela fumaa.  hora de despejar o ar, isso  todo. 
-Compreendo -no ia suplicar-lhe. Tambm no ia chorar adiante dele. No quando a olhava com tanta frialdade e sua voz indiferente lhe rasgava o corao. Perguntou-se 
se a noite anterior tinha decidido ser to gentil, to carinhoso e doce, porque j tinha decidido romper a relao-. Bom, suponho que o despejamos -apesar de sua 
determinao, se nublou a vista e a luz se refletiu nas lgrimas que estava a ponto de derramar. 
Quanto os olhos dela se humedeceram, Ry se levantou de um salto. 
-No. 
-No chorarei. Acredite-me -mas lhe caiu uma lgrima ao voltar-se para a porta-. Agradeo que no fazer isto num lugar pblico -apoiou a mo no fechadura. Tinha 
os dedos dormentes. Nem sequer os sentia. 
-Natalie. 
-Estou bem -para demonstrar-se, girou e o observou-. No sou uma menina, e esta no  a primeira relao que tenho que no funciona. No entanto,  a primeira vez 
de algo, e tens direito a conhec-lo, idiota - secou outra lgrima-. Nunca antes tinha me apaixonado, mas me apaixonei por voc. Te odeio por isso. 
Abriu a porta e se marchou sem o casaco. 


Capitulo 11


Durante dez minutos, Ry foi de um lado a outro da habitao, tratando de convencer-se de que tinha feito o correto para os dois. Sem dvida ela se sentiria um pouco 
magoada. Tinha o orgulho manchado, j que no se tinha mostrado muito diplomtico. 
Os seguintes dez minutos se esforou em se convencer de que Natalie no tinha falado srio. De que s tinha querido vingar-se. 
No estava apaixonada poe ele. No podia estar. Porque se estava, ento era o idiota maior do mundo. 
Oh, Deus. Era o idiota maior do mundo. 
Recolheu o casaco dela, esqueceu o seu e baixou  carreira para sair  chuva. 
Tinha deixado o carro na estao e se amaldioou por isso. Rezou para encontrar um txi, foi  esquina e depois  seguinte. 
Sua impacincia lhe custou mais tempo que se se tivesse ficado a esperar um. Quando conseguiu parar um txi livre, tinha caminhado doze mas e estava empapado. 
O veculo se abriu passo entre a chuva e o trfico, freando e avanando, freando e avanando, at que lhe deixou ualgumas notas com o motorista e desceu. 
Teria chegado antes a p. 
Tinha decorrido quase uma hora quando se deteve em frente  porta de Natalie. No se aborreceu em chamar. Empregou a chave que ela no lhe tinha pedido que lhe devolvesse. 
Nessa ocasio no teve nenhum boas vindas, nenhuma sensao acolhedora de chegar a casa. Quanto entrou soube que no estava. Negando-o, chamou-a e comeou a procurar 
pelo apartamento. 
Esperarei, disse-se. Regressar tarde e me encontrar aqui. De algum modo arrumarei as coisas. Decidiu que se fosse preciso, suplicaria. 
O mais provvel era do que tivesse ido para seu escritrio. Talvez poderia ir procur l. Poderia cham-la, mandar-lhe um telegrama. Poderia fazer algo. 
Santo cu, Natalie estava apaixonada dele, e ele s tinha sabido empregar ambas mos para jog-la. 
No dormitrio, sentou-se no borde da cama e levantou o fone do telefone. Foi ento quando viu a nota sobre a mesinha de noite. 
Atlanta... National Airlines... 8:25 
National Airlines, pensou. O aeroporto. Demorou trs minutos em sair do apartamento e exigir que o porteiro que lhe procurasse um txi. 
Perdeu o avio dela por menos de cinco minutos. 
-No, inspetor Piasecki, no sei quando a Senhorita Fletcher pensa voltar em -Maureen sorriu com cautela. O homem parecia desajeitado, como se tivesse passado uma 
noite movimentada. As coisas j estavam bastante agitadas com a viagem sbita da sua chefe, sem necessidade de ter que se enfrentar a um louco s nove da manh. 
-Onde est? -exigiu Ry. A noite anterior tinha estado a ponto de tomar o seguinte vo a Atlanta, mas de repente lhe tinha ocorrido que no tinha nem idia de onde 
encontr-la.

-Sinto, inspetor. No estou autorizada a dar-lhe essa informao. Com muito gosto transmitirei  Senhorita Fletcher a mensagem que queira dar-lhe quando telefonar. 
-Quero saber onde est -insistiu com os dentes apertados. 
Maureen pensou seriamente em chamar a segurana. 
- poltica da empresa... 
Com uma s palavra ele definiu a poltica da empresa e sacou sua placa. 
-V isto? Estou a cargo da investigao por incndio provocado. Tenho informao que a SenhoritaFletcher tem de receber de imediato. E agora, se no me indica onde 
posso localiz-la, terei que ir ver a meus superiores -deixou que assimilasse suas palavras e manteve viva a esperana. 
Indecisa, Maureen mordeu o lbio. Era verdade que a Senhorita Fletcher lhe tinha dado ordens especficas para que no divulgasse seu itinerrio. Tambm era verdade 
que, durante o telefonema presurosa que lhe tinha feito o dia anterior, no tinha mencionado de maneira especfica ao inspetor Piasecki. E se tinha algo que ver 
com os incndios... 
-Se aloja no Ritz-Carlton de Atlanta. 
Antes de que terminasse a frase, Ry tinha abandonado a recepo. Chegou  concluso de que se um homem ia suplicar, o melhor era faz-lo em particular. 
Quinze minutos mais tarde, irrompia em seu escritrio, sobressaltando a sua secretria. 
-Ritz-Carlton, Atlanta. Chama. 
-Sim, senhor. 
No deixou de ir de um lado a outro de seu escritrio at que ela lhe fez um sinal com a mo. 
-Natalie Fletcher -ladrou no fone-. Passe-me com ela. 
-Sim, senhor. Um momento, por favor. 
Passou um instante interminvel at que o conectaram e escutou o som da linha. Suspirou aliviado ao ouvir a voz dela do outro lado. 
-Natalie... que diabos faz em Atlanta? Preciso... -soltou um juramento quando a linha se cortou-. Maldita seja, pe-me outra vez com Atlanta. 
Com os olhos muito abertos, sua secretria voltou a marcar.
Calma, Ry, ordenou-se. Sabia como manter a tranqilidade ante um incndio, a morte e a desgraa. Sem dvida podia permanecer sereno nesse momento. Mas quando o 
telefone seguiu soando e a imaginou adiante da janela da habitao, sem contestar, esteve a ponto de arranc-lo da parede. 
-Chama ao aeroporto -lhe ladrou a sua secretria, que o olhou com os olhos quase desorbitados-. Faz-me uma reserva no prximo vo para Atlanta. 
Ao chegar a seu destino, descobriu que Natalie tinha partido. 
No pde acreditar. Mais de dez horas depois de sua partida precipitada, Ry se achava de volta em Urbana. Sozinho. Nem sequer tinha conseguido v-la. Tinha passado 
horas em avies, mais tempo perseguindo-a por Atlanta, desde o hotel at a sucursal de Lady's Choice, de volta ao hotel e de ali ao aeroporto. Em cada ocasio o 
desencontro tinha sido por minutos. 
 como se soubesse que estava por trs de ela, pensou enquanto subia as escadas que conduziam a seu apartamento. Deitou-se no sof e passou as mos pela cara. 
No lhe ficava outra escolha a no ser esperar. 


-Me alegro tanto de v-la -Althea Grayson Nightshade sorriu ao passar-se a palma de uma mo pela montanha de seu ventre. 
-O mesmo digo -Natalie rio-. Como se sente? 
-Oh, como um cruzamento entre o boneco de Michelin e Moby Dick. 
-Nenhum deles tem estado jamais to bem -o qual era verdade. A gravidez tinha potenciado a considervel beleza de Althea. Seus olhos eram dourados, sua pele luminosa, 
o cabelo uma cascata de fogo, sobre, os ombros. 
-Estou gorda, mas s -fez uma careta-. Colt foi um demnio em insistir em que comesse bem, dormisse bem, exercitasse-me e descansasse. Inclusive redigiu um programa 
dirio. Ps-se frentico quando se inteirou de que amos ser pais. 
-A habitao do beb  preciosa -Natalie vistoriou a estadia verde e branca, passando os dedos pelo bero antigo, pelas cortinas alegres. 
-Me sentirei contente quando a ocupe. Ser em qualquer momento -suspirou-. Sento-me muito bem, para valer, mas te juro que foi a gravidez mais longa da histria. 
-Quero ver a meu beb, maldita seja -rio-. Quem me escutasse. Jamais pensei do que quereria filhos, muito menos do que estaria ansiosa por mudar o primeiro cueiro. 
Intrigada, Natalie olhou acima do ombro. Althea se achava sentada numa poltrona, com um cobertor mau tecido nas mos. 
-No? Nunca quis ser me? 
-No com o trabalho e meu passado -se encolheu de ombros-. Supus que no tinha jeito de me. Ento aparece Nightshade e depois isto -deu uma batitinha no ventre-. 
Talvez gestar no  meu meio natural, mas me encantou cada minuto. Agora j estou ansiosa por cuid-lo. Me imaginassentada aqui, amamentando um beb? -rio. 
-Sim -se dirigiu a seu lado, ps-se em joelhos e tomou as mos de Althea-. Invejo-a, Thea. Muito. Tem algum que te ama e um beb como resultado disso. No h nada 
mais importante -com as defesas debilitadas, os olhos se lhe encheram de lgrimas. 
-Queria, o que houve? 
-O que poderia haver ? -desagradada consigo mesma, incorporou-se. 
-Um homem. 
-Um idiota -conteve o pranto e se meteu as mos nos bolsos. 
-E esse idiota pode ser um inspetor de bombeiros? -Althea sorriu um pouco quando Natalie a observou com o cenho franzido-. As notcias viajam, inclusive at Denver. 
O fato  que sua famlia e Colt e eu nos temos estado mordendo a lngua para conter-nos de perguntar-te que fazia aqui. 
-Vou explicar. Procuro um local para abrir outra sucursal. Ademais, estava de viagem. 
-Em vez de em Urbana para a inaugurao. 
Lamentava isso, e era outra coisa da que culpar a Ry. 

-Assisti  inaugurao de Dallas. Cada uma das sucursais  de igual importncia para mim. 
-Sim, e aposto que foi um sucesso. 
-As contas para as vendas da primeira semana parecem promissoras. 
-Ento, por que no volta para a casa para desfrutar disso? -Althea inclinou a cabea-. Pelo idiota? 
-Tenho direito a um pouco de tempo livre antes de... Bom, sim -reconheceu-. O idiota me deixou. 
-Oh, vamos. Cilla disse que estava louco por voc. 
-Eramos bons na cama -exps sem rodeios, depois apertou os lbios-. Cometi o erro de apaixonar-me. Pela primeira vez na vida, e me rompeu o corao. 
-Sinto muito -preocupada, Althea se levantou. 
-Superarei -apertou as mos que lhe ofereceu sua amiga-. O que passa  que jamais tinha sentido isto por ningum. No sabia que podia. Consegui passar pela vida 
sem que ningum me ferisse. E de repente, zs.  como se te cortassem em pedaos muito pequenos -murmurou-. Ainda no fui capaz de voltar a p-los em seu lugar. 
-Bom, isso quer dizer que ele no valia a pena -afirmou Althea com lealdade. 
-Oxal fosse verdade. Seria mais fcil. No entanto,  um homem maravilhoso, doce, entregado -moveu os ombros-. No queria magoar-me. Chamou vrias vezes desde que 
me ausentei. 
-Talvez queira se deculpar e acertar as coisas. 
-Acredita que lhe daria a oportunidade? -levantou o queixo-. No aceitei nenhuma de seus telefonemas. No penso aceitar nada dele. Pode enviar-me flores por todo 
o pas,  que vou continuar pensando o mesmo. 
-Lhe envia flores -um sorriso comeou a aparecer no canto dos lbios de Althea. 
-Narcisos. Cada vez que olho paratrs, recibo um ramo de estpidos narcisos. Ser que ele acredita que vou cair outra vez nessa armadilha? 
-Talvez deveria voltar e deixar que ele suplique. 
-fez uma careta ao sentir uma apunhalada de dor. Olhou o relgio e comprovou que era a tera na ltima meia hora. 
-Estou pensando. Mas at que no me encontre preparada, no vou... -calou-. Que sucede? Est se sentindo bem? 
-Sim -soltou o ar devagar. Essa apunhalada durava mais-. Sabe?, Acho que estou entrando em trabalho de parto.
-Que? -se ps plida-. Agora? Senta-te. Sente-se, pelo amor de Deus. Chamarei a Colt. 
-Pode que te faa caso -com cuidado, acomodou-se na poltrona-. E creio que ser melhor do que o chame. 


Deirdre se alegrou de ter tomado a deciso de levar o trabalho a casa. O maldito resfriado que tinha pilhado em alguma parte se aferraba a ela como uma sanguessuga. 
Ocupada, ao menos se esqueceria da dor de cabea e da garganta irritada. 
Tomou de m vontade a xcara de sopa de frango instantnea que tinha esquentado no microondas e em seu lugar se decidiu pela infuso. No tinha nada como um trago 
de whisky para realar uma xcara de ch.

Tinha sorte, muita sorte, teria deixado o gripado atrs e disporia dos nmeros preliminares antes de que Natalie regressasse de Denver. 
Bebeu outro gole do ch carregado e seguiu digitando. Deteve-se, franziu o cenho e se ajustou os culos. 
No pode estar bem, pensou, e apertou umas teclas. Sob nenhum conceito podia estar bem. Se lhe ressecou a boca e um fio de suor baixou por suas costas, alheio 
em absoluto  febre contra a que lutava. 
Recostou-se na cadeira e respirou fundo vrias vezes. Simplesmente  um erro, assegurou-se. Encontraria a discrepncia e a solucionaria. Isso era todo. 
Mas no demorou muito em compreender que no se tratava de um erro. Nem de um acidente. 
Tratava-se de um quarto de milho de dlares. E tinha desaparecido. 
Levantou o fone e marcou a toda velocidade. 
-Maureen. Sou Deirdre Marks. 
-Senhorita Marks, sua voz soa fatal. 
-O sei. Escute, preciso falar com Natalie de imediato. 
-E quem no? 
- urgente, Maureen. Est com seu irmo, verdade? D-me o nmero. 
-No posso, Senhorita Marks. 
-Lhe digo que  urgente. 
-Entendo, mas no est ali. Seu avio atererrisou de Denver faz uma hora. Voltu para casa. 


Um filho. Althea e Colt tinham um filho, diminuto e formoso. Althea tinha estado doze duras horas de parto para traz-lo ao mundo, e o pequeno tinha chegado gritando. 
Recordou-o enquanto o avio viajava ao oeste. Tinha sido maravilhoso que lhe permitissem estar na sala de parto, para dar-lhe nimos a Colt quando sentisse que se 
subia pelas paredes, para observ-los trabalhar juntos com o fim de dar as boas vindas a essa nova vida. 
No tinha chorado at que todo terminou, at que deixou a Colt e A Althea embobados com seu filho. Boyd tinha sado do hospital com ela. Deve ter percebido o estado 
de nimo no que se encontrava, porque no a interrogou. 
Nesse momento regressava a casa porque tinha trabalho. E porque era uma covardia saltar de cidade em cidade pelo simples fato de sentir-se doida. 
Tinha sido uma boa viagem. Profissionalmente vitoriosa. Pessoalmente tranqilizador. Tinha que meditar na possibilidade de voltar a instalar-se em Colorado. Tinha 
encontrado um local excelente. E uma nova sucursal em Denver se beneficiaria de seu toque pessoal. 
Se o traslado desfrutava do benefcio adicionado da fugida, a quem mais podia importar-lhe? 
Com certeza, ia ter que esperar at que descobrissem quem lhe tinha pago a Clarence Jacoby. Se realmente era um de seus empregados em Urbana, tinha que o desmascarar. 
Uma vez acabado esse assunto, Donald poderia ocupar-se do escritrio. 
Seria algo simples. Donald possua o talento. Desde um ponto de vista empresarial, a mudana s implicaria que se transladasse a seu escritrio e a sua escrivaninha. 
Escrivaninha, pensou com o cenho franzido. Tinha algo raro na escrivaninha. De imediato compreendeu que no com o seu. Seno com o que resultou danado na loja 
principal. 
Ele o tinha sabido. O corao comeou a bater-lhe com precipitao. Como tinha sabido Donald que a escrivaninha do despacho da diretora era uma antigidade? Como 
tinha sabido que tinha resultado destrudo? 
Com cautela, comeou a repassar os detalhes, recordando seus movimentos desde o momento do segundo incndio at o dia em que Donald e ela tinham visitado a boutique. 
Ele no tinha subido ao escritrio desde que o tinham decorado. Ao menos no que ela soubesse. Ento, como podia saber que tinham tido que mudar as escrivaninhas? 
Porque tinha estado ali. Isso  tudo, tentou convencer-se. Em algum momento tinha passado e tinha esquecido mencionar-se. Tinha sentido, mais do que crer que tinha 
participado nos fogos. 
No entanto, tinha passado pelo armazm  manh seguinte ao incndio. Cedo, recordou. Se o tinha comunicado ela? No estava segura. Talvez se inteirou pelas notcias. 
Tinham dado relatrios detalhados to tarde? Tambm no estava segura disso, e a preocupava. 
Perguntou-se por que faria algo to drstico como para danar um negcio do que formava uma parte importante. Que possvel motivo poderia ter para querer ver destrudos 
a equipe e a mercadoria? 
Equipe e mercadoria... e os registos, pensou com um sobressalto de alarme. No armazm tinha registos, e tambm na boutique... no ponto em que se originou o fogo. 
Decidida a manter a acalma, pensou nos disquetes que lhe tinha entregado a Deirdre, nas cpias que ainda tinha a salvo em seu escritrio. Os comprovaria nada mais 
aterrizar, para estar calma. 
Por suposto, sabia que se equivocava ao suspeitar de Donald. Tinha que se equivocar. 


Chega tarde. Algo terrvel para uma mulher com a obsesso de ser pontual, pensou Ry enquanto caminhava ante a porta de desembarque do aeroporto. Tinha que chegar 
tarde justo quando ele quase ficava louco. 
Pouco importava que o avio chegasse com atraso e desse a casualidade de que ela se achasse a bordo. Tomava o ato como uma afronta pessoal. 
Se Maureen no tivesse se apiedado dele, no se teria inteirado de que regressava essa noite. O preocupava um pouco saber que a secretria de Natalie  se apiedasse 
dele, que devia de ter visto a expresso de um cachorro abandonado em sua cara. 
At seus homens na estao j tinham comeado a falar a suas costas. Qualquer com olhos na cara teria podido ver que os ltimos dez dias tinham sido um tormento. 
Maldita seja, tinha cometido um erro. Um pequeno erro, e ela tinha encarregado de faze-lo pagar. Com juros. 
Iam ter que esquecer. 
Apertou com fora os narcisos, continuou andando e sentindo-se como um tonto. Quando anunciaram o vo de Natalie, o corao lhe deu um tombo. 
Viu-a e as mos comearam a suar-lhe. 
Ela o viu, girou bruscamente  esquerda e prosseguiu sua marcha. 
-Natalie -a atingiu com dois passos-. Bem vinda ao lar. 
-V para o inferno. 
-Estou h dez dias nele. No gostei. So para voc. 
Ela baixou a vista para os narcisos e o olhou com expresso de desdenho. 
-No vai querer que eu diga o que deve fazer com essas flores estpidas, no ? 
-Poderia ter falado comigo quando eu a chamei. 
-No tinha vontade de falar com voc - entrou no banheiro feminino.
Ry apertou os dentes e esperou. 
Natalie se disse que no se sentia comprazida de v-lo ao sair. Em silncio, acelerou o passo para a zona de recolhida de malas. 
-Como foi a viagem? -s conseguiu que ela lhe dedicasse uma careta feroz-. Ouve, estou tentando desculpar-me. 
-Isso  o que tenta? -moveu a cabea e baixou pela escada mecnica-. Poupa-se. 
-A aborreci. Sinto. Levo dias tentando lhe dizer, mas no aceita meus telefonemas. 
-Isso deveria indicar algo, Piasecki, inclusive para algum de sua limitada inteligncia. 
-Vim esper-la -explicou, contendo uma rplica mordaz-, para que possamos falar. 
-Solicitei um carro. 
-O cancelamos. Isto ... -teve que escolher as palavras com sumo cuidado ao receber um olhar gelado-. Eu o cancelei ao averiguar que vinhas -no tinha sentido fazer 
que fritasse a Maureen com ele-. A levarei. 
-Tomarei um txi. 
-No seja to obstinada. Se me obriga, a colocarei l a fora -murmurou ao chegar junto s malas-. Posso t-la sobre os ombros em dois segundos. E conseguir que 
se sinta muito envergonhada em pblico. Sem importar o que decidir, a levarei a casa. 
Ela o meditou. Sabia que podia envergonh-la. No tinha sentido dar-lhe essa satisfao. Tambm no pensava expressar-lhe suas suspeitas, no at dispor de algo 
slido e verse obrigada a tratar com ele numa plano estritamente profissional. 
-No vou para casa. Tenho de ir ao escritrio. 
-O escritrio est fechado. So quase as nove da noite. 
-Vou ao escritrio -repetiu, afastando-se dele. 
-Perfeito, falaremos l.

-Essa -assinalou uma mala cinza-. E aquela -um portatrajes a jogo-. E essa -outra mala. 
-No tiveste tempo de guardar tanta bagagem antes de que chegasse a seu apartamento aquela noite. 
-Fui comprando coisas pelo caminho. 
-Suficiente para um passe completo de modelos -murmurou Ry. 
-Perdo? -o tom que empregou fez que a temperatura no terminal baixasse dez graus. 
-Nada. A inaugurao foi toda uma sensao -continuou ele enquanto saam do edifcio. 
-Cumpri com as expectativas criadas. 
-Sairam artigos em Newsday e em Business Week -se encolheu de ombros quando ela o olhou-. Inteirei-me. 
-E em Women's Wear Daily -adicionou ela-. Mas, quem o conta? 
-Eu.  estupendo, Natalie, para valer. Alegro-me por voc. E estou orgulhoso -deixou a bagagem junta ao carro e lhe afrouxaram todas as extremidades-. Deus, senti 
sua falta. 
Ela deu um passo  para trs, evitando-o quando estendeu os braos. Prometeu-se que no ia deixar que voltasse a fer-la. No ia permit-lo. 
-De acordo -devagar, aturdido pela dor que lhe tinha causado essa rejeio instantnea, levantou as mos com as palmas para fora-. Eu mereo. Lhe darei a oportubidade 
de me apunhara sempre que quiser.
-No me interessa brigar com voc -manifestou com voz cansada-. Tive uma viagem longa e me sinto esgotada. 
-Deixa que eu a leve para casa, Natalie. 
-Vou ao escritrio -esperou que ele abrisse o carro. Uma vez dentro, recostou a cabea e fechou os olhos. Suspirou quando Ry depositou as flores amarelas em seu 
regao. 
-No conseguiram nada mais de Clarence -disse, com a esperana de quebrar o muro que ela tinha erigido entre os dois. 
-Sei -ainda no podia pensar em suas suspeitas-. Mantive-me em contato. 
-Se moves com rapidez. 
-Tive que abarcar muito territrio. 
-Sim -sacou dinheiro para pagar o estacionamento-. Dei-me conta, depois de perseguir-la por Atlanta. 
-Perdo? -nesse momento abriu os olhos. 
-No pude conseguir um maldito txi -murmurou-. Deve ter saido carregando nada de seu apartamento.
-Sim. 
 Imaginei. Corri uma maratona at tua casa, e ao subir descobri que tinha ido. Descubro a nota e chego ao aeroporto justo a tempo de ver decolar teu avio. 
-Se supe que isso  culpa minha, Piasecki? -perguntou, amaciando-se um pouco. 
-No, no , maldita seja.  minha. Mas se tivesses podido ficar quieta em Atlanta durante cinco minutos, teramos solucionado isto. 
-O solucionamos. 
-Nem em sonhos-girou a cabea e a olhou com expresso sria-. Odeio quando batem na minha cara.
-Para mim foi um prazer -respondeu super feliz. 
-Poderia t-la estrangulado por isso quando cheguei. Se tivesse podido encontrar-te. No, a SenhoritaFletcher est na boutique. Vou para ali e  Sinto, a SenhoritaFletcher 
regressou ao hotel. Volto ao hotel e deixaste a habitao. Chego ao aeroporto e j est voando. Dediquei horastentando alcan-la.
Ela encolheu de ombros. No queria sentir-se feliz, mas no pde evitar um pequeno prazer ao captar a frustrao de sua voz. 
-No espere uma desculpa -no obstante, recolheu as flores para evitar que se cassem quando ele freou. 
-Eu tenho uma para oferecer. 
-No faz falta. Tive tempo de pensar em isso, e cheguei  concluso de que estavas no verdadeiro. No gosto do estilo que empregaste, mas a questo  que era verdade. 
Desfrutamos de um pouco de qumica. Isso  todo. 
-Tivemos muito mais. Temos muito mais. Natalie...
-Eu deso aqui -esquecendo a bagagem, saiu do carro. Quando Ry estacionou num lugar proibido, ela esperava a que o guarda de segurana lhe abrisse. 
-Maldita seja, Natalie, quer parar? 
-Tenho trabalho. Boa noite, Ben. 
-Senhorita Fletcher. Trabalhando demais? 
-Sim -passou por adiante do guarda, com Ry pisando-lhe os calcanhares-. No preciso que suba comigo, Ry. 
-Disse que me amava. 
-Superei -sem prestar ateno no olhar curioso do guarda, apertou o boto do elevador. 
Ele sentiu uma onda de pnico que o paralisou. Mal conseguiu entrar no elevador antes de que fechassem as portas. 
-No  verdade. 

-Sei o que  verdade e o que no o  -apertou o boto de seu andar-. Para voc tudo  uma questo de orgulho. Montas uma cena porque no voltei quando chamou -jogou 
o cabelo para atrs. Os olhos brilhavam, mas no com lgrimas, seno com fria-. Porque no preciso de voc. 
-No teve nada que ver com o orgulho. Estava... -no pde reconhecer que se tinha assustado at a medula-. Estava equivocado -disse. Isso j era bastante duro, mas 
ao menos no humilhante-. Era voc... ali em minha casa. Pedi que viesses porque era to bvio. 
-O que era bvio? 
-Que no podia ser real. Eu no via como podia ser real. Quem  voc, como . E como sou eu. 
-No sei se te sigo, inspetor -semicerrou os olhos-. Me deixou porque no encaixava em seu apartamento? 
No tinha que soar to estpido. Levantou a voz para defender-se. 
-Em tudo. Comigo. Eu no posso dar-lhe... as coisas. A primeira vez que recordei que deveria te presentear com flores de vez em quando, olhaste-me como se tivesse 
golpeado na mandbula. Jamais a levo em lugar nenhum. No penso nisso. Tem amigos que vivem em manses. Olha, maldita seja, agora mesmo usa diamantes nas orelhas 
-levantou as mos, como se isso o explicasse todo-. Diamantes, pelo amor de Deus. 
As bochechas de Natalie estavam acaloradas quando avanou para ele. 
-Tudo  pelo dinheiro?  isso? Me rompeste o corao pelo dinheiro? 
-No,  por... coisas -como explicar o que j no tinha sentido?- Natalie, me deixe toc-la.
-V para o inferno -o apartou, saindo do elevador quanto as portas se abriram-. Me deixou de lado porque pensaste que queria que me comprasses diamantes, uma manso 
ou flores? -furiosa, atirou os narcisos ao solo-. Eu posso comprar-me meus prprios diamantes, ou qualquer coisa que queira. Queria aenas voc. 
-No se v. No - praguejando, foi atrs dela. Em alguma parte do corredor soou um telefone-. Natalie -a tomou dos ombros e a obrigou a girar-. No pensei isso, 
exatamente. 
-E tiveste a descarao de me chamar esnobe -lhe fincou a valise com fora no estmago. 
Perdida a pacincia, imobilizou-a contra a parede. 
-Me equivoquei. Foi uma estupidez. Fui um estpido. Que mais quer que lhe diga? No pensava. Deixei-me levar pelos sentimentos. 
-Me feriu.
-Eu sei -apoiou a testa na sua. Podia cheiraria, sent-la, e a idia de perd-la lhe afrouxou os joelhos-. Sinto. No sabia que podia ferir-te. Pensei que s se 
tratava de mim. Pensei que me deixaria. 
-De maneira que me deixaste voc primeiro. 
-Algo parecido -se retirou um pouco. 
-Covarde -se soltou-. Vei embora, Ry. Deixa-me em paz. Tenho de pensar em isso. 
-Continua apaixonada de mim. No me irei a nenhuma parte at que me o digas. 
-Ento ter que esperar, porque no estou preparada para dizer-te nada -os telefones soavam. Esfregou-se com cansao a tmpora e se perguntou quem podia ser a essa 
hora-. Estou destroada, no te ds conta? Compreendi que te amava e tive que romper nossa relao quase ao mesmo tempo. No penso servir-te minhas emoes numa 
bandeja. 
-Ento lhe oferecerei as minhas - murmurou -. Amo voc, Natalie. 
-Maldito sejas. .Maldito sejas! -um n lhe bloqueou a garganta-. Isso no  justo. 
-No me importa se o  -se aproximou e estendeu a mo para tocar-lhe o cabelo. Ficou-se quieto ao ver o reflexo de luz ao final do corredor. Danou atravs do cristal 
num padro que reconheceu demasiado bem-. Desa pelas escadas, agora. Chama aos bombeiros. 
-Que? De que ests falando? 
-Vai -repetiu, lanando-se corredor abaixo. J podia cheirar a fumaa. Amaldioou-se por ter estado to concentrado em suas prprias necessidades, o que fez que 
passasse por alto. Viu a fumaa que saiu por embaixo da porta para ser succionado outra vez. 
-Oh, Deus. Ry. 
Ela hesitou. Ele disps de tempo para ver como as chamas se retorciam por trs do cristal, para realizar uma avaliao. Depois se voltou, saltou e derrubou a Natalie 
ao solo no momento em que o cristal estourava. Uns fragmentos letais caram sobre os dois.



Capitulo 12


Natalie sentiu dor, aguda e penetrante, quando a cabea golpeou contra o solo, e apunhaladas de calor do cristal e as chamas. Durante um momento aterrorizador, pensou 
que Ry se achava inconsciente ou morto. Seu corpo estava completamente estendido sobre ela, um escudo que a protegia do pior da exploso. 
Antes inclusive de que pudesse aspirar ar para gritar seu nome, ele se levantou e a auxiliou. 
-Se queimou? 
Natalie moveu a cabea, consciente unicamente da palpitao e da fumaa que comeava a escurecer os olhos, a garganta. Mal podia distinguir a cara de Ry atravs 
dele, mas viu o sangue. 
-Seu rosto e sue brao..esto sangrando. 
Mas no a escutava. Apertava-lhe com fora a mo e a afastava das chamas. Enquanto corriam pelo corredor, outra janela estourou. E o fogo saiu com um rugido. 
Os rodeou, dourado e cobioso, incrivelmente quente. Ela gritou uma vez ao ver que avanava pelo solo em direo a eles, cuspindo como cem serpentes famintas. 
DOMINOU-A o pnico e uns dedos gelados lhe atenazaron o estmago e lhe estrujaron a garganta, em desconcertante contraste com o calor que palpitava a seu arredor. 
Achavam-se atrapados, com lnguas de fogo que serpenteavam a cada lado. Aterrorizada, lutou contra Ry quando a empurrou ao solo. 
-Permanece agachada -sem importar o sombrios que fossem seus pensamentos, manteve a voz serena. Com uma mo a tomou pelo cabelo para obrig-la a olh-lo. Precisava 
que no perdesse o controle. 
-No posso respirar -a fumaa a afogava, obrigando-a a procurar ar e a tossir o pouco que conseguia. 
-Aqui abaixo h mais ar. No temos muito tempo -era muito consciente da rapidez com a que os atingiria o fogo, do bem que bloqueava sua sada para as escadas. No 
tinha nada com que combat-lo. Se o fogo no os matava, o faria a fumaa, muito antes de que pudessem resgat-los - Tira o casaco. 
-Que? 
Os movimentos dela j eram lentos. Conteve o medo e ele lhe tirou o casaco. 
-Vamos atravessar o fogo. 
-No podemos -nem sequer foi capaz de gritar quando se produziu a seguinte exploso de cristal, s pde dobrar-se, chacoalhada pela tosse. Tinha a mente abobalhada 
pela fumaa. Unicamente queria cair e aspirar o precioso ar que ainda boiava sobre o solo-. Nos queimaremos. No quero morrer dessa maneira. 
-No vai morrer -lhe passou o casaco pela cabea e a obrigou a pr-se de p. Quando ela trastabill, acomodou-a sobre seu ombro. Viu que o rodeava um mar de chamas. 
Nuns segundos sua mar os atingiria e se afogariam. 
Calculou a distncia e correu para a onda. 
Durante um instante, encontraram-se no inferno. Fogo, calor, o rugido de sua ira, o lamento rpido e faminto de suas lnguas. No tempo que demora o corao em bater 
duas vezes, uma eternidade, chama-las os envolveram. Sentiu que o plo de suas mos se queimava, soube pelo calor intenso nas costas e os braos que a jaqueta ia 
prender-se. Conhecia exatamente o que o fogo lhe fazia  pele. No permitiria que chegasse at Natalie. 
Ento o cruzaram e entraram na muralha de fumaa. Cegados, com os pulmes a ponto de colapsar-se, tateou em procura da porta de emergncia. 
Instintivamente posou a mo em procura de algum sinal de calor, agradeceu a Deus que no tivesse nenhuma e abriu. A fumaa subia pelo oco da escada, elevando-se 
como numa lareira, o que significava que abaixo tambm tinha fogo, mas no tinham eleio. Movendo-se a toda velocidade, tirou-lhe o casaco queimado de cima de Natalie 
e a apoiou contra a parede enquanto se tirava sua prpria caadora. 
O couro ardia devagar. 
Aturdida por ele hfno e  beira da comoo, ela se deslizou ao solo como um saco de ossos. 
-No vais render-se -gritou enquanto voltava a carreg-la sobre o ombro-. Agenta, maldita seja. Agenta. 
Baixou os degraus. Um, dois, logo trs. Nesse momento Natalie era um peso morto. Ry  chorava  por causa da fumaa e as lgrimas se uniam ao rio de suor que baixava 
por sua cara. Teve um ataque de tosse e sentiu que as costelas se iam partir-lhe . O nico que sabia era que tinha que a levar a um lugar seguro. 
Contou cada patamar, mantendo a mente concentrada em isso. A fumaa comeou a atenuar-se e albergou esperanas. 
Ouviu os gritos, as cirenes. Em seu campo cinza de viso viu que dois bombeiros corriam para ele. 
-Deus todo-poderoso, inspetor. 
-Ela precisa oxignio -sem solt-la, descartou a ajuda que lhe ofereciam e a levou ao exterior, ao ar limpo. 
As luzes se mexiam. Todos os sons, cheiros e imagens do palco de um incndio. Como um homem brio, dirigiu-se para o carro de bombeiros mais prximo. 
-Oxignio -ordenou-. J -enquanto a tombava o sacudiu outro ataque de tosse. 
A cara de Natalie estava to negra como oleo e tinha os olhos fechados. No pde ver se respirava, no pde ouv-la. Algum gritava, mas no tinha nem idia de que 
fora ele. Umas mos lhe apartaram as suas, dbeis e trmulas, e colocaram uma mscara de oxignio sobre o rosto de Natalie. 
-Precisa de atendimento, inspetor. 
-No se aproximem de mim -se inclinou para procurar-lhe o pulso. O sangue baixou por seu brao at cair sobre a garganta dela-. Natalie. Por favor. 
-Passa bem? -com lgrimas nos olhos, Deirdre se ajoelhou junto a ele-. Vai ficar bem? 
-Respira -foi o nico que pde dizer Ry-. Respira -repetiu, acariciando-lhe o cabelo. 


Por um ato de misericrdia, a seguinte hora foi algo impreciso. Recordava subir na ambulncia com ela. Algum lhe ps oxignio e lhe puncionou o brao. Quanto chegaram 
ao Pronto Socorro Ry descarregou sua ira com ataques de tosse. 
Ento o mundo se ps do revs. Encontrou-se tombado de costas sobre a maca. Quando tentou levantar, o impediram. 
-Fique quieto -uma mulher pequena com o cabelo cinza o olhava com o cenho franzido-. Gosto que os pontos que dou sejam perfeitos. Perdeu uma boa quantidade de sangue, 
inspetor Piasecki. 
-Natalie... 
-A SenhoritaFletcher est sendo atendida. Agora deixe que faa meu trabalho, sim? -se deteve e o observou-. Se segue empurrando-me, vou sed-lo. Tudo era mais fcil 
quando estava sem sentido. 
-Quanto tempo? -conseguiu perguntar. 
-No o suficiente -deu o n no ponto de sutura e cortou-. Tiramos um bocado de cristal do ombro. No recebeu muito dano a, mas o brao est mau. Quinze pontos -lhe 
sorriu-. Um de meus melhores trabalhos. 
-Quero ver Natalie -a voz soou spera, mas era impossvel no captar a ameaa-. Agora.

-Bom, pois no pode. Vai ficar-se onde o pus at que tenha terminado. Depois, se  um muito bom garoto, pedirei a algum que v ver como est a SenhoritaFletcher. 
Ry empregou o brao bom para segurar a bata da doutora. 
-Agora. 
Ela s suspirou. Era consciente de que, na condio na que se achava, podia tomb-lo com um leve empurro. Mas a agitao no o ajudaria em nada. 
-No se mova -ordenou. Dirigiu-se  cortina, apartou-a e chamou a uma enfermeira. Depois de umas breves instrues, voltou-se para Ry-. Agora lhe traro informao. 
Sou a doutora Milano e esta noite vou salvar-lhe a vida. 
-Ela respirava -afirmou, como desafiando a Milano a contradiz-lo. 
-Sim -retrocedeu para tomar-lhe a mo-. Inalou muita fumaa, inspetor. Vou trat-lo e voc vai cooperar. Depois de que o tenhamos limpado, me ocuparei de que veja 
 Senhorira Fletcher. -A enfermeira regressou e Milano se afastou para manter uma consulta em murmrios com ela. 
-Inalao de fumaa -anunciou-. E se encontra em estado de choque. Umas queimaduras e laceraes leves. Suponho que a manteremos em nosso magnfico hospital um ou 
dois dias -suavizou a expresso ao ver que Ry fechava os olhos aliviado-. Vamos, grandalho , continuemos com o trabalho. 
Podia sentir-se fraco como um beb, mas no ia deixar que o metessem numa quarto de hospital. Acima dos protestos desagradados de Milano, saiu  zona de espera. 
Nada mais v-lo, Deirdre se levantou de um salto. 
-Natalie? 
-Esto com ela. Disseram-me que vai ficar bem. 
-Graas a Deus -com um soluo afogado, Deirdre se cobriu o rosto. 
-E agora, Senhorita Marks, por que no me conta que diabos fazia esta noite no escritrio? Deirdre respirou fundo e se sentou. 
-Me encantaria. Chamei ao irmo de Natalie -adicionou-. Suponho que j vem de caminho. Disse-lhe que tinha resultado ferida, mas tentei minimiz-lo. 
Ry assentiu. Ainda que odiava a debilidade, viu-se obrigado a sentar-se. A nusea voltava a amea-lo. 
-Fez bem. 
-Tambm lhe resumi o que averiguei hoje -voltou a respirar fundo-. Por um resfriado, os ltimos dois dias no fui ao escritrio. Mas me levei trabalho a casa, incluindo 
umas pastas e disquetes de computador que Natalie me tinha dado antes de ir de viagem. Fazia contas quando encontrei umas discrepncias bastante importantes. Das 
que podem qualificar-se de malversao. 
Dinheiro, pensou Ry. Quase sempre se reduzia a dinheiro. 
-Quem? 
-No posso diz-lo com segurana... 
-Quem? -interrompeu com um tom de voz que a fez tremer.

-Tentava explicar que no sei com segurana. S posso reduzir as possibilidades, tendo em conta como e onde se desviou o dinheiro. E no penso em dar um nome para 
que possa acusar a algum injustamente -e estava segura de que era isso o que ele tinha em mente. 
Apesar do fato de que parecia um sobrevivente de uma viagem ao inferno, em seus olhos tinha morte. 
-Poderia equivocar-me. Preciso falar com Natalie -comentou, quase para si mesma-. Quanto estive segura do que tinha averiguado, tentei pr-me em contato com ela 
em Colorado, mas j se tinha viajado. Sabia que passaria pelo escritrio antes de ir a sua casa. Funciona assim. De maneira que decidi reunir-me com ela ali. Dizer-lhe 
o que averiguei -abriu a valise que tinha aos ps- Quando estacionei no exterior do escritrio, levantei a vista. Vi... -fechou os olhos e soube que ia reviv-lo 
uma e outra vez-. Vi umas luzes loucas em algumas das janelas. Ao princpio no soube que eram, depois o compreendi. Chamei aos bombeiros desde o telefone do carro. 
Corri dentro a dizer ao guarda de segurana. E os dois ouvimos uma exploso -se ps a chorar em silncio-. Sabia que ela estava acima. Sabia. Mas no sabia que fazer. 
-Soube, e fez -incmodo, deu-lhe uma palmada no ombro. 
-Inspetor? -Milano apareceu com seu habitual cenho franzido-. Consegui um passe para que v ver a sua amiga, ainda que sei que nem se molestar em agradecerme. 
-Est bem? -ps-se de p ao instante. 
-Se estabilizou e se encontra sedada. Mas pode observ-la, j que ao que parece  a meta de sua vida. 
-Vai esperar? -perguntou, olhando a Deirdre. 

-Sim. Se me comunicas como ela est. 
-Voltarei -seguiu  doutora. 
A habitao de Natalie era privada e se achava tenuamente iluminada. Jazia muito quieta, muito plida. Mas ao tomar-lhe a mo a notou clida. 
-Pensa passar a noite aqui? -inquiriu Milano na porta. 
-Vai opor-se? -replicou Ry sem girar a cabea. 
-Quem, eu? Estou para servir. No  vivel que se acorde, mas isso no o deter. Nem tratar de dormir nessa cadeira horrivelmente incmoda. 
-Sou bombeiro, doutora. Posso dormir em qualquer parte. 
-Bom, bombeiro, sinta-se em casa. Irei dizer a sua amiga da sala de espera que tudo vai bem. 
-Sim -em nenhum momento apartou a vista da cara de Natalie-. Perfeito. 
-De nada -comentou Milano com acento azedo, depois fechou a porta a suas costas.
Mal cochilou algo. De vez em quando entrava uma enfermeira e lhe pedia que sasse. Foi numa dessas interrupes breves quando viu a Boyd avanar pelo corredor. 
-Piasecki. 
-Capito. Agora dorme -assinalou a porta-. A. 
Sem dizer outra palavra, Boyd passou a seu lado e entrou. 
Ry se dirigiu  sala de espera, serviu-se um caf mau e se plantou ante a janela. No podia pensar. Parecia melhor dessa maneira, deixar simplesmente que a noite 
passasse. Se se concentrava, reveria o terror na cara dela, o fogo a seu arredor. E recordaria como se tinha sentido ao carregar com ela pelas escadas, sem saber 
se estava viva ou morta. 
O calor na mo o obrigou a baixar a vista. Viu que tinha achatado o copo de papel e derramado caf sobre suas mos vendadas. 
-Quer outro? -perguntou Boyd a suas costas. 
-No -atirou o copo e se limpou nos vaqueiros-. Quer sair l fora a esmagar-me um pouco? 
Com um riso breve, Boyd se serviu caf. 
-Se olhou no espelho? 
-Por que? 
-Pareces sado do inferno -bebeu com cautela. Era inclusive pior do que o caf da delegacia-. No ficaria bem se comeasse a esmagar algum em teu estado. 
-Cicatrizo com rapidez -quando Boyd guardou silncio, Ry meteu as mos nos bolsos-. Disse que no ia deixar que ningum lhe fizesse dano. Tenho estado a ponto de 
mat-la. 
-Sim? 
-Perdi o horizonte. Sabia que Clarence no estava s. Sabia que tinha algum detrs. Mas fiquei to... absorto nela. Jamais pensei que fosse contratar outra tocha 
ou do que tentasse algo em pessoa. Os telefones, maldita seja. Ouvi soar os telefones. 
-E isso que significa? -perguntou Boyd intrigado. 
-Um mtodo retardador -contestou, dando-se a volta-.  clssico. Fsforos empapados em gasolina. COLA-LAS ao telefone e chamas a esse nmero. O telefone soa e o 
timbre faz saltar a chispa no fsforo.

-Inteligente. Mas no sempre se pode pensar em tudo. 
- meu trabalho pensar em tudo. 
-E ter uma bola de cristal. 
-Se supunha que devia cuidar dela -a voz soou rouca pela fumaa inalada e pela emoo que no podia permitir o luxo de desatar. 
-Sim -reconheceu Boyd, bebendo outro gole-. Fiz muitos telefonemas no vo desde Denver. Uma das vantagens de Indstrias Fletcher  ter um avio privado a tua disposio. 
Falei com o chefe de bombeiros, com o mdico que tratou a Natalie e com Deirdre Marks. A tioru de l descendo cada maldito degrau do edifcio. Quantos pontos lhe 
deram no brao? 
-Isso no tem nada que ver. 
-Certamente que sim. O chefe de bombeiros me deu uma idia do que tivestes que descer por quarenta e dois andares, e no estado que se achava quando a tirou. Seu 
mdico me disse que se tivesse permanecido ali outros dez minutos,  pouco provvel que agora estivesse com vida. Ento, quero esmag-lo? No. Devo a vida de minha 
irm a voc. 
Ry recordou o aspecto de Natalie quando a depositou no solo junto ao caminho de bombeiros. E o aspecto que tinha nesse momento, plida e imvel, numa cama de hospital. 
-No me deve nada. 
-Natalie  to importante para mim como o  para voc -Boyd deixou o caf a um lado-. O que fez para aborrece-la? 
-Estamos tratando de solucion-lo -respondeu com uma careta. 
-Pois boa sorte -estendeu a mo. 
-Obrigado -a estreitou. 
-Suponho que estar por aqui. Tenho de ir cumprir com meu trabalho. 
Ry apertou a mo com mais fora e entrecerrou os olhos. 
-Deirdre te contou quem  o responsvel. 
-Correto. Ao vir tambm falei com o capito da polcia de Urbana. J se ocuparam disso -viu a expresso nos olhos de Ry e a entendeu-. Esta parte corresponde a minha 
equipe, Ry. Voc e o teu cercioraos de que o penduram por incndio provocado. 
-Quem? -perguntou com os dentes apertados.
-Donald Hawthorne. Faz dois dias reduzi a quatro possveis suspeitos -esboou um leve sorriso-. Comprovei historiais, e registos bancrios e telefnicos. As vezes 
 bom ser policial. 
-E no me passaste a informao. 
-Ia faz-lo, quando reduzisse mais. J o fiz, e estou dando -Boyd sabia o que era amar e a necessidade de proteger, e viver com o terror de ver  mulher que amavas 
lutar por sua vida-. Escuta -disse- se o matar, sem importar o que estamos sentindo agora, teria que prende-lo. Teria que meter  meu cunhado no crcere. 
-No sou seu cunhado -meteu as mos nos bolsos. 
-Ainda no. Fique com ela, dorme um pouco. 
-Ser melhor do que ponha  Hawthorne num lugar onde no possa localiz-lo. 
-O farei -conveio enquanto se afastava. 
Ao amanhecer, Natalie se moveu. Ry observava sua cara  luz que penetrava atravs da persiana, quando suas pestanas abriram. 
Se inclinou para falar com rapidez e suavidade, com o fim de que seus primeiros pensamentos no fossem de medo. 
-Natalie, est bem. Conseguimos sair. S inalou um pouco de fumaa. Agora tudo vai ficar bem. Tem estado dormindo. No quero que fale. A garganta vai doer por um 
tempo. 
-Voc est falando -sussurrou com os olhos fechados. 
-Sim -e era como se tivesse engulido uma espada em chamas-. Por isso no recomendo. 
-No morremos -fez uma careta e enguliu saliva. 
-Parece que no-com suavidade levantou a cabea dela e fez com que bebesse um pouco dagua-. Tome  com calma. 
Um tremor vibrou dentro dela, mas tinha que o saber. 
-Sofremos queimaduras graves? 
-No nos queimamos. 
Suspirou aliviada. 
-No sinto nada, exceto... -levantou a mo para tocar-se o hematoma da testa.

-Lamento -o beijou e sentiu que comeava a tremer; apartou-se-. Aconteceu quando a derrubei. 
Nesse momento abriu os olhos. TINHA-OS pesados. Sentia todo o corpo pesado. 
-Hospital? -inquiriu, e conteve o alento ao v-lo. 
Mostrava arranhes na cara, um curativo na tmpora e um maior que comeava embaixo do ombro e quase lhe chegava ao cotovelo. Suas mos, suas formosas mos, estavam 
envolvidas em gaze. 
-Oh, Deus. Ry, est ferido. 
-So cortes e golpes -lhe sorriu-. Chamusquei um pouco o cabelo. 
-Precisas ver um mdico. 
-J o vi. E no creio que gostei. Agora cala-se e descanse. 
-Que passou? 

-Vai ter que mudar seu escritrio -ao ver que ia voltar a falar, levantou a mo-. Te contarei o que sei se ficar em silncio. Caso contrrio, a deixarei as escuras. 
Trato feito? -satisfeito, sentou-se na beira da cama-. Deirdre tentou chamar-te a Colorado -comeou. 
Quando terminou, a Natalie lhe palpitava a cabea. Uma fria impotente evaporou o resto do sedativo, at deix-la bem desperta e dolorida. Antecipando-se a ela, 
Ry lhe tampou a boca com a mo. 
-No h nada que possas fazer at que se recupere. E tambm no ento poders fazer muito. Depende dos departamentos... de bombeiros e de polcia. E j se ocupam 
disso. Agora vou chamar  enfermeira para que te d uma olhada. 
-No... -o protesto se transformou num espasmo de tosse. Ao recuperar o controle, uma enfermeira indicava a Ry que sasse. 
No voltou a v-lo em mais de vinte e quatro horas.

-No lhe faria mau mais um dia, Nat -Boyd cruzou as pernas  altura dos tornozelos enquanto via a Natalie pr suas coisas na mala pequena que lhe tinha levado. 
-Odeio hospitais. 
-Deixou isso claro. Preciso que me d sua palavra de que vai tirar uma semana livre, em casa, ou chamo  tropa. E no me refiro s a Cilla, seno a mame e a papai. 
-No preciso deles aqui. 
-Isso depende devoci. 
-Trs dias -negociou com um mohn. 
-Uma semana inteira. Menos e o trato se rompe. Posso ser um negociador to duro como voc -sorriu-. Levamos no sangue. 
-Vale, vale, uma semana. Que diferena vai marcar? -recolheu o copo de gua e bebeu. Parecia que ultimamente nunca tinha suficiente gua-. Todo est destroado. 
A metade de meu edifcio se encontra em runas, e o responsvel  um de meus executivos de mais confiana. Nem sequer tenho um escritrio para ir. 
-J se ocupars disso. A prxima semana. Hawthorne tem muito pelo que responder. O fato de que no soubesse que Ry e voc se achavam dentro do edifcio no vai salv-lo. 
-Tudo por cobia -demasiado irritada para guardar as coisas, ps-se a caminhar pela habitao. Ainda sentia o corpo fraco, mas o excesso de energia que borbulhava 
em seu interior lhe impedia ficar quieta-. Sacando um pouco de aqui, um pouco de l, para perd-lo nos mercados especuladores. Depois teve que sacar mais e mais, 
at que se sentiu to desesperado como para arriscar a incendiar edifcios inteiros para destruir registos e atrasar a auditoria -deu mdia volta-. Que frustrado 
de ser sentir-se quando lhe disse que tinha cpias de tudo o que se tinha perdido no incndio do armazm. 
-E no sabia onde as tinhas guardado. O fogo destri tudo -assinalou Boyd-. Assim que se ocupou de um dos edifcios e rezou. Se no dava na mosca, estava convencido 
de que a confuso posterior manteria todos to ocupados que no conseguirias pr em marcha a auditoria at que tivesse conseguido repor os fundos desviados. 
-Isso acreditava. 
-No o conhece como eu. Sempre fazia as coisas a tempo. O escritrio foi sua ltima jogada, e a mais desesperada, j que teve que se ocupar do fogo ele mesmo. Quando 
fomos procur-lo e se inteirou de que Ry e voc estavam dentro e que enfrentava um processo por tentativa de assassinato, nos o contou tudo. 
-Confiei nele -murmurou Natalie-. No suporto saber que pude equivocar-me tanto com algum a quem acreditava conhecer -levantou a vista quando  a a porta se abriu. 
-Me alegro de ver-te, Ry -saudou Boyd, pondo-se de p. Sabia que o melhor era sair com discrio.

Ry lhe fez um gesto com a cabea e depois se concentrou em Natalie. 
-Por que no est  na cama? 
-Me deram alta. 
-No est pronta para deixar o hospital. 
-Perdo -Boyd se dirigiu para a porta-. Sinto uma imperiosa necessidade de tomar uma m xcara de caf. 
Nem Ry nem sua irm se preocuparam em dizer adeus. 
- que agora tens um diploma em medicina, inspetor? 
-Sei em que condio se achavas quando entrou aqui. 
-Pois se tivesse se molestado em verificar , teria descoberto que me recuperei. 
-Tinha muitos cabos soltos que atar -a informou-. E voc precisava descansar. 
-Teria preferido t-lo aqui. 
-Agora tem -alongou o ramo de flores. 
Ela suspirou. Teria que deixar que se amolecesse  com tanta facilidade? Por que no ia faz-lo pagar um pouco mais por abandon-la por uma causa to ridicula? 
-Pode dar esses narcisos a algum que os precise. 
-Vou falar com o mdico -disse, deixando-os sobre a cama. 
-Sob nenhum conceito falar com meu mdico. No preciso sua permisso para deixar o hospital. Voc no solicitaste o meu. E tambm no precisava descansar. Precisava 
v-lo. Estava preocupada. 
-Sim? -animado, levantou uma mo para acariciar-lhe a face. 
-Te queria aqui, Ry. Vieram ver-me dzias de pessoas, mas  evidente que voc no considerou  necessrio... 
-Tinha trabalho -cortou-. Queria recolher provas contra esse filho de cachorra o mais cedo possvel.  o nico que posso fazer. Se conseguisse pr-lhe as mos em 
cima, o mataria. 
Ela foi replicar, mas calou ao ver seu olhar gelado. 
-Pare-nervosa, deu-lhe as costas a sua expresso assassina e se ps a guardar uma bata-. No quero ouvir-lo falar dessa maneira. 
-No sabia se estava viva -a obrigou a dar-se a volta e lhe fincou os dedos nos ombros-. No sabia. No se movia. No sabia se respirava-de repente a colou a ele 
e enterrou a cara em seu cabelo-. Deus, Natalie, nunca tinha me sentido to assustado. 
-Certo -o rodeou com os braos para tranqiliz-lo-. No pense nisso.
-No me permiti, at que ontem acordaste. Desde ento no pude pensar em outra coisa -lutou por serenar-se e se apartou-. Sinto.

-Sentes ter-me salvado a vida? Ter arriscado a tua para evitar que eu acabesse ferida? Protegeste-me da exploso. Levasse-me entre o fogo -moveu a cabea com rapidez 
antes de que ele pudesse falar-. No me diga que cumpria com teu trabalho. Importa-me um bledo se queres ser um heri ou no.  meu. 
-Te amo, Natalie. 
O corao dela se inflamou. Com cuidado se voltou para recolher os narcisos. Era uma tolice desperdiar emoes na ira. Estavam vivos. 
-Mencionava isso antes de que nos interrompessem. 
-Devia mencionar-te outra coisa. Por que a tentei tira-la da minha vida. 
-Expuseste as causas -girou a cara e passou um dedo por uma flor amarela. 
-Expus as desculpas. No a causa. Poderias olhar-me enquanto suplico? 
-No  necessrio, Ry tratou de sorrir.

-Sim . Ainda no disse se vai me dar uma segunda oportunidade -lhe afastou o cabelo do rosto-. Sei que com o tempo poderia esgot-la, porque est louca por mim. 
Mas mereces saber que passava por minha cabea. 
-No creio que a arrogncia seja muito apropriada -manifestou pondo-se rgida-, assim que... 
-Estava assustado -murmurou, e observou como a irritao abandonava a expresso dela-. De voc, de mim. De ns -ante o silncio de Natalie, soltou o ar contido-. 
No pensei que pudesse diz-lo. Reconheo-o. No at que me dei conta do que era estar realmente assustado. Esta apaixonado e parecer to estpido nos faz temer.
-Ento os dois fomos estpidos, porque eu tambm me sentia assustada -sorriu um pouco-. Com certeza, voc foste mais estpido. 
-Em toda minha vida jamais experimentei o que sinto por ti -murmurou. 
-Eu sei-a voz tremeu-. Sei. Tambm sinto o mesmo.
-E cada vez se faz maior e mais aterrorizador. Vais dar-me outra oportunidade? 
-Provavelmente he devo, j que salvou minha  vida, suplicou e se desculpou -o olhou e o sorriso se lhe alargou-. Suponho que poderia brindar-nos aos dois outra 
oportunidade. 
-Quer casar comigo? 
-Perdo? -as flores caram no solo. 
-J que se sente generosa, no me pareceu uma m idia tentar minha sorte -se inclinou e recolheu os narcisos-. Mas podemos esperar. 
Ela limpou a garganta dolorida e aceitou outra vez as flores. 
-Se importaria repetir a pergunta? 
Ry a olhou aos olhos e demorou um momento em encontrar outra vez a voz. Compreendia que era um risco, um dos maiores aos que nunca se tinha enfrentado. E tinha que 
deixar seu destino em mos dela. 
-Quer casar comigo? 
-Poderia faz-lo -os dois relaxaram-. Sim, poderia faz-lo -rindo, lanou-se a seus braos. 
-Te tenho -aturdido, ele voltou a colar a cara a seu cabelo-. A partir de agora, tenho-te, Pernas -e a beijou. 
-Quero filhos -disse quanto sua boca ficou livre. 
-Para valer? -com um sorriso, apartou-lhe o cabelo para poder ver a expresso da cara. O que leu nela o alucinou-. Eu tambm. 
-Isso facilita as coisas. 
Levantou-a nos braos. 
-Que te parece se nos sairmo daqui e pomos mos  obra? 
Natalie conseguiu recolher a mala antes de se dirigisse para a porta. 
-Sero nove meses a partir de hoje -lhe deu um beijo na bochecha enquanto abandonavam o quarto-. E sempre sou pontual. 








Neste caso, conseguiu adiantar-se oito dias.

Fim

Digitalizado por
Projeto_romances
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Revisado por Susi
